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Pousos gentis *

Após dois anos de confinamento, enchi-me de coragem e sobrevoei mares levando comigo luto e desencanto.

O primeiro pelas mais de 6 milhões de vidas humanas perdidas para a Covid no planeta [665 mil só no Brasil, incluídas minha irmã e minha mãe]; e o segundo pela virtualidade tóxica no único elo social permitido em tempos pandêmicos: as redes cheias de ódio, comentários perversos e informações falsas.

Perfis que se consideram justos e bondosos não percebem a barbárie que falam e praticam. Que triste! As plataformas de relacionamento escancararam a maldade adormecida que nos assombra de quando em quando. Basta ler um pouco sobre a história da humanidade para reconhecer que estamos atravessando um momento perigoso. Que não demore para desnudarmos a monstruosidade travestida de bem. Ressalto que não estou imune, trata-se aqui de uma reflexão na qual me insiro.

Embora eu tenha a sorte de ter a escrita como ofício [“a literatura salva”, já repetiram inúmeras vezes], tornou-se insuportável conviver com essa carga. A vida nos exige bravura, mas eu já havia consumido toda a cota. Eu precisava descongelar alguns sonhos.

Na aterrissagem em chão português, meu espanto por algo que no passado eu achava bobo: aplausos para o comandante da aeronave. E nem foi uma “aterragem” [em bom idioma de Portugal] perfeita; um forte impacto no solo, o receio de que os freios não funcionassem e solavancos que fizeram rolar minha garrafinha d’água mineral até a cozinha.

Há muito eu não presenciava ações coletivas de gentileza entre estranhos. Foi deveras simbólico. A singeleza daquele gesto marcou o meu reinício de esperançar na humanidade. Esperança de retomarmos o longo processo civilizatório construído a duras penas e que descambou recentemente sabe-se lá pra onde. Esperança de que há futuro para a nossa espécie. Recuso-me a abortar a esperança.

Foram dias de intenso e rico aprendizado com pessoas diferentes, línguas, ideias, origens, profissões, gerações e idades diversas. É possível, sim!

Retornei pra casa com a certeza de que o Brasil e o mundo necessitam urgentemente de empatia e pousos aclamados. A desconstrução do luto, essa ainda virá.

* Publicado originalmente no blog “Mural da Ana Paula”, onde escrevo mensalmente nos terceiros sábados.


Em busca do livro perdido

Quando o escritor francês Marcel Proust descreve em sua obra-prima o enxame de sentimentos que atacou o personagem no exato instante em que provou um inocente bolinho molhado no chá, a gente se transporta à própria infância à procura das nossas pequenas “madeleines”.

O gatilho da memória afetiva é acionado quando um aroma, um sabor, uma melodia ou um objeto nos insere involuntariamente em situações, épocas ou rincões esquecidos.

A essa altura, eu pergunto ao querido leitor ou leitora: Qual a sua “madeleine”?

Para a professora cearense Ana Cély Rocha Aguiar, a chave que destranca o seu passado é um livro de paradeiro desconhecido que pertencera ao seu pai, homem que cultivava o hábito da partilha de leitura com familiares e amigos, falecido quando Ana Cély, a caçula das filhas, tinha apenas 3 anos de idade.

O mundo de Ana Cély girou, girou e girou. Deixou a cidade natal, graduou-se em Letras, foi aprovada em concurso público para professora, exerceu o magistério, casou-se, foi mãe de duas meninas e um menino, e peregrinou por várias cidades brasileiras graças à carreira militar do marido, até que, em 1976, retorna ao Ceará e se matricula na pós-graduação do curso de Letras.

Ao manusear as primeiras páginas de um livro adquirido por sugestão do seu orientador, sensações indescritíveis a moveram, de súbito, para a saleta da estante da casa dos pais, onde seus sete irmãos liam fascinados ou escutavam as narrações da mãe amorosa sobre as vivências do marido falecido tão precocemente, uma forma de preservar a memória familiar. A pequenina Ana Cély sobe, então, numa cadeira e tenta pegar “o mais pesado entre os livros numerosos da estante”.

A partir dessa experiência sensorial, Ana Cély não se separou mais da magnífica obra intitulada “Dicionário Prático Ilustrado”, uma espécie de enciclopédia condensada que contém o essencial em vários campos do conhecimento, editada pela Livraria Lello, de Portugal.

Embora em diferente edição, o reencontro com o livro tão amado que não via desde a juventude permitiu à Ana Cély resgatar parte importante da própria história.


O estilista (*)

Remexendo nos tesouros da minha saudosa mãe, encontrei um velho croqui de vestido de festa.

Lembrei-me então de um dos passeios mais gostosos da infância, ali pelos meus seis, sete anos: acompanhar minha mãe à loja de tecidos, promessa de bodas à vista.

Descansadas do almoço, tomávamos o ônibus – a alegria estreava ao sentar à janela – para o centro da cidade e à tardinha meu pai nos resgatava de carro.

Ao chegarmos à loja, eu largava sua mão firme e rodopiava por entre cânions coloridos que exalavam química misturada a cheiro de campo, ao menos era assim que meu narizinho farejava as peças empilhadas de algodão tingido.

De longe eu avistava a mesa do estilista, onde uma fila de senhoras já se formava. Quando, finalmente, minha mãe lhe detalhava a ocasião festiva, começava a parte mais emocionante.

Antes de iniciar o traçado a lápis, ele apontava o grafite até a perfeição. A partir dali, eu flutuava numa sucessão de camadas que se distendiam ou secavam conforme o grau de requinte da festa. Uma vez ou outra ele pegava a borracha e sumia com uma nesga da saia rodada ou uma trinca de nervuras do corpete.

Eu me asfixiava ante aquele corpo sem rosto, cinturinha de pilão e busto prestes a esgarçar a transparência. “Faz logo o rosto!”, eu suplicava em voz silenciosa. A respiração só cadenciava após a subida do longo pescoço que sustentaria o belo perfil com coque na nuca. Um derradeiro apontamento para finalizar o risco e passar aos lápis de cor. E haja magia no preenchimento de pregas, babados e plissados.

O vendedor aguardava impaciente com a régua metro. Ao talho no tecido fluido para o desfio, meus olhinhos fotografavam aquela trilha intermitente devorada sem dó pela tesoura amolada. Se fosse pano rústico, minha face se transfigurava sob o rasgão frenético.

Voltávamos para casa a tempo de a minha mãe jantar para ainda cumprir o terceiro turno em uma escola pública, onde ela alfabetizava jovens e adultos dentro de um programa de educação popular que enfrentou à época muita resistência.

No mês seguinte, a parente modista entregava a linda roupa. O rosto da minha mãe vestida era o item mais magistral do conjunto da obra.

(*) Crônica publicada originalmente no blog “Mural da Ana Paula”, onde escrevo mensalmente nos terceiros sábados.


Desapego *

Desde o início da pandemia planejo esvaziar parte das gavetas e prateleiras do apartamento em que habito há vinte anos.

Comprei sacolas plásticas de cem litros e programei o alarme do celular para as quartas, dia espremido entre antecipações e urgências. O aviso “Desapego” começava a soar às nove em ponto, adiava duas ou três vezes, até que um imprevisto abortava a missão.

Se me pedissem uma autodefinição, “apego” constaria certamente na coluna das qualidades ou dos defeitos. Prendo-me não apenas a objetos, mas a gentes e situações, embora eu lute contra isso. Aprendi que para avançar é preciso renunciar ao que não é mais benéfico ou que não faz mais sentido.

Meu projeto do desapego ganhou força a partir da tragédia das recentes enchentes no Brasil. Cortou-me o coração ver aquelas pessoas perderem tudo; a idosa que se recusou a ficar no abrigo e voltou para sua casa em área de risco.

As cenas dramáticas me remeteram a um trecho de “O prego e o rinoceronte”, livro de ensaios da professora de literatura, Regina Dalcastagnè, que me tocou imenso: “Daí a dificuldade dos mais velhos de se desfazerem de seus objetos, especialmente quando precisam abandonar a própria casa. Cada coisa eliminada é um testemunho apagado de sua presença no mundo”.

E pensei nas minhas gavetas e prateleiras à espera do desprendimento. Livrar-se voluntariamente de alguns pertences é muito diferente de vê-los tragados pelas águas ou destruídos pelo vento e fogo, ou abandonados no rastro seco do flagelo que mutila há séculos a memória do povo nordestino.

Lembrei-me também dos semblantes de meus pais ao deixarem a casa em que viveram por quarenta anos para ficarem mais próximo das filhas adultas. Ela, sempre tão falante, emudeceu durante todo o trajeto até o prédio onde ainda mora. Ele mostrava-se resignado.

Minha mãe conseguiu reconstruir seu universo com novos objetos, enquanto meu pai buscou diariamente a antiga morada até a despedida final. Eu diria que me vejo em ambos, um pouco ontem e um tanto amanhã. Sobre o agora, tenho gavetas vazias e sacolões cheios, por fim. Há momentos em que o passado exige descarte. E o futuro grita logo ali.

* Publicado originalmente em Lugar Artevistas, blog em que escrevo mensalmente, às primeiras sextas-feiras.


O ano em que não montei a árvore de Natal *

Em 2020, por motivos compreensíveis, não desencaixotei bolas, sinos e outros adornos natalinos, rito que cumpria há 23 dezembros.

Uma tragédia sanitária sem igual corroeu as entranhas do mundo, revelando toda sorte de maldade que nos espreita.

Perdemos entes queridos, adoecemos, deixamos de fazer inúmeras coisas, e cá estamos, chegando ao fim do segundo ano de pandemia, colando os caquinhos e tentando restaurar a normalidade.

Uma breve saída à noite neste comecinho de novembro foi o bastante para perceber que o Natal já se instalou nas cercanias. Muitos prédios piscam nervosos em vários tons. Eu falei “comecinho de novembro”?

Até entendo que após quase dois anos de afetos remotos estejamos ansiosos por abraços reais, mas o respeito aos rituais é importante para a sobrevivência das culturas. Afinal, ninguém festeja aniversário meses antes da data. Parece que tudo virou comércio, consumo e lucro. Cansada disso, sabe?

Na minha infância, as luzinhas só brilhavam em dezembro. A estrela no topo da árvore era ligada apenas na véspera de Natal. À boca da noite do 24, chegávamos à casa da tia Clotilde, a irmã mais velha [e solteira] da minha mãe, uma espécie de matriarca da família e avó para mim e minha irmã.

Meus pais, ambos órfãos [meu avô paterno – único vivo – morava no interior do Ceará e raramente vinha à capital] e com somente duas filhas, atendiam com imenso gosto ao chamado da tia Clotilde, estendido a alguns aparentados e vizinhos da avenida do Imperador, região central de Fortaleza.

Com a partida da minha saudosa tia, meus pais juntaram-se às noites felizes dos meus sogros que, por serem de outro Estado, sem parentes em Fortaleza, abriam as portas aos novos amigos cearenses, todos muito bem-vindos.

Meu marido e eu adotamos o grande núcleo familiar após o falecimento do meu sogro. Com o correr dos anos, as gerações mais novas passaram a realizar suas próprias confraternizações, numa evolução natural da vida.

Neste ano espero resgatar a tradição da árvore de Natal, celebrar em grupo o amor maior, a solidariedade, a compaixão e o infinito apoio que recebi dos amigos e familiares nos dias mais difíceis.

* Publicado originalmente no Blog Lugar ArteVistas, onde escrevo mensalmente às primeiras sextas-feiras.


A tal maturidade *

Chamar alguém de imaturo é como uma ofensa inaceitável, mesmo quando o acusado tem vinte anos ou menos; que nem um herege que se recusa a “vestir a carapuça”, para evocar a expressão eclesiástica medieval que se perpetua aos dias atuais.

Estava relembrando as inúmeras vezes em que me fiei ter atingido a sensatez e o equilíbrio que caracterizam a tal maturidade.

No primeiro beijo, me considerei a própria experiência. A primeira decepção amorosa trouxe a convicção de que eu me tornara precocemente madura. O ingresso na universidade veio escoltado da certeza de vivência máxima. A graduação, a primeira grana com o meu trabalho, a gravidez dos meus filhos, as amizades desfeitas por incompatibilidade ou desamor, o falecimento do meu pai… Um rol infinito de felicidades e tristezas da fase mais jovem.

Sempre que escalava um novo degrau da maturidade, eu acreditava que seria o último, que finalmente havia alcançado o real patamar da plenitude.

Dizem que a maturidade se instala [sem quaisquer garantias, descobri aos poucos] à medida que você desconstrói e humaniza seus heróis e heroínas – pais, amigos, companheiros, mestres –, e continua a respeitá-los e admirá-los da mesma forma.

A verdade é que a maturidade está a toda hora se evadindo. Além de chegar sem avisar, parte furtiva, sem aceno ou abraço.

De repente, no esplendor da terceira idade, a gente se pega, por exemplo, julgando uma pessoa querida que não atendeu às nossas exigentes expectativas. Pronto, a danada da maturidade escapuliu de novo, levando consigo tudo aquilo que incorporamos com ela, pois nunca anda sozinha, se faz acompanhar da tolerância, resiliência, compaixão e solidariedade.

Da próxima vez que alguém lhe surpreender com uma falha ou uma decepção, reflita antes de voltar à estaca zero do crescimento humano.

Proponho, portanto, vigília permanente às constantes fugas da tal maturidade. A gente se encontra na travessia. Boa sorte pra nós.

* Publicado originalmente no Blog Lugar ArteVistas, onde escrevo mensalmente às primeiras sextas-feiras.


Prazer!

Vejo gente nova por aqui. Pensei, então, em contar um pouco sobre mim, de como me tornei escritora, e aproveito para renovar laços com as queridas e queridos de sempre.

De jovem pedagoga à jornalista tardia voaram três décadas.

Nesse meio-tempo, casei (e permaneço), fui mãe de humanos e bichinhos, servidora pública, morei em Paris uma curtíssima – mas intensa – temporada que daria tranquilamente uma série “Celma em Paris”, habitei Nova Iorque, fui executiva de marketing em empresa privada e repórter.

Até que migrei de laptop e mouse para o mundo literário.

Foi a vivência em Nova Iorque, com dois filhos menores, que rendeu memórias para o primeiro livro (“Descascando a grande maçã”), narrativa leve e bem-humorada dos perrengues na famosa ilha que nunca dorme.

E chegou o primeiro neto.

Aos sessenta, veio o segundo livro (“Viver, simplesmente”), seleção de crônicas, artigos e reportagens publicados originalmente em plataformas diversas, presente da minha editora pelo meu ingresso na década “sexy” (fazer o quê? Sou adepta de celebrações em todas as fases).

O segundo neto, digo, a primeira neta chegou enquanto eu gestava o primeiro romance (“O segredo da boneca russa”), lançado em fins de 2018.

Dois anos depois, a estreia no gênero conto com a coletânea “Confinados”, em meio ao luto coletivo da pandemia e à perda da minha única irmã para a Covid-19.

Preparo agora uma nova cria, romance ou novela, ainda não sei. Certezas, pra quê?

Como em toda trajetória, altos e baixos, perdas e ganhos, uma fratura grave no tornozelo que esfacelou ossos e mandou minha mobilidade pro espaço por meses, trazendo lágrimas e ensinamentos.

Aos 65, acredito que tenho lastro para falar da vida. A parte mais difícil é conviver respeitosamente com os contrários, ao invés de eliminá-los, como querem alguns. O que precisa ser combatido sem trégua é o mal que habita o íntimo de cada um, só esperando a hora de nos tragar, sem nos dar a chance sequer de reconhecê-lo. “– Fascismo, onde?”

É isso, gente querida. Bem-vinda ao meu universo mutante e a este lugar onde compartilho, há dez anos, o cotidiano que me encanta e inquieta.

Bom domingo!


Sonhar é resistência*

Arte da autoria das crianças Theo e Lis


Neste 2021 quero sonhar todos os sonhos impossíveis, como os autênticos sonhos devem ser.

Planar entre os pássaros como se um deles fosse. 

Correr mais veloz que o jamaicano Bolt.

Trocar de roupa em três, dois, um…

Atravessar a nado, em seis horas, o Canal da Mancha.

Bailar como Odette no Lago de Tchaikovski.

Perguntar ao meu pai o motivo da sua risada, enquanto ele se enxágua lá no chuveiro. 

Ouvir da minha irmã os perrengues hilários nas suas viagens com colegas e amigos. 

Levar a Buba e a Babu para caminhar no calçadão da Beira-mar de Fortaleza.

Dar corda na bicicletinha que ganhei da minha madrinha no aniversário de cinco anos.

Desembaraçar o cabelo sintético da minha boneca “Xodó”. 

Dividir com Lygia o prêmio sueco de literatura. 

Ser derrubada por um filhote brincalhão de Rott e não sofrer um arranhão. 

Chegar ao topo da cordilheira himalaia.

Conversar com a criança que fui um dia. 

Acordar e perceber, entre aliviada e aflita, que tudo não passou de um sonho.

Feliz 2021, metade real, metade fantasia!

****

* Publicado originalmente em 01/01/2021 no Blog Lugar ArteVistas, onde escrevo mensalmente às primeiras sextas-feiras.


Sessentíssima

Enquanto organizo o material para a coletânea que marcará minhas seis décadas de vida, acompanho nos textos o passar dos anos. É interessante observar as mudanças – positivas ou não – em nossa trajetória. Uma evolução natural.

 

Aos 60, uma pessoa é considerada nova ou velha? Depende do referencial. Na linguagem dos meus amigos mais velhos, sou um “broto”; Para os mais jovens, sou “coroa”; Pelas leis brasileiras, sou “idosa”. E haja rótulos.

 

Dia desses, fui taxada pejorativamente de “petista”. Já me pregaram também etiqueta de “ateia”. Ni l’une ni l’autre, apenas tenho um cérebro, leio sobre tudo e por isso desenvolvi algo que se chama visão crítica e racionalidade. Simples assim. Aliviada, lembro que sou feita igualmente de afeto, matéria que me mistura definitivamente ao outro.

 

Além dos tolos e dispensáveis rótulos, incomoda-me profundamente comentários simplistas ou pensamentos reducionistas sobre temas complexos, como a maneira individual de perceber o mundo e as pessoas.

 

Recentemente, uma frase nas redes sociais me chamou a atenção: “O que muda na sua vida se José ama Joaquim?”. O mesmo conceito pode ser estendido a outras áreas. O que muda na sua vida se sua amiga branca se relacionar com uma pessoa negra? O que muda na sua vida se o seu amigo rico se casar com uma moça pobre? Ou se a mãe divorciada de 50 anos da sua amiga namorar um garotão de 30? O que muda na sua vida se uma mulher na praia tirar a parte de cima do biquíni? Você, que idolatra artistas que exibem piercings e tatuagens, por que reage mal diante de familiares e amigos que usam idêntico estilo? O que muda na sua vida se o seu novo vizinho é imigrante, ou muçulmano, ou ateu, ou evangélico, ou católico, ou obeso, ou anão, ou deficiente físico/ mental, ou gosta de bichos? Em que isso lhe prejudica? A mim, absolutamente nada.

 

Os preconceitos nos sufocam e trazem sofrimento desnecessário a todos. Combatê-los é atitude democrática, cidadã e humanista. Como reagir diante de situações que consideramos injustas? O que você faria, por exemplo, se soubesse que empresas ou órgãos deixam de contratar profissionais competentes só porque são gays, ou tatuados, ou são homens que usam rabo de cavalo e brincos, ou ainda porque são mulheres, ou negros, ou passaram dos 40 anos, ou não têm religião, ou não possuem afinidade ideológica com o chefe? Denunciaria e pressionaria para que reavaliassem regras e conceitos ou, simplesmente, se calaria? Quem lucra com tais julgamentos discriminatórios? Ninguém.

 

A caminhada não é nada fácil, embora, e talvez exatamente por isso, fascinante. É um exercício de constante reflexão, de idas e vindas, de descobertas e “refazendas”, tentando acertar e consertar os erros a cada dia. Sempre argumento que mais grave do que pretender tornar-se uma pessoa virtuosa é considerar-se mais virtuoso hoje do que ontem, ou seja, melhor a cada ano que passa. Uma armadilha que captura até os mais bem intencionados. No exato instante em que me considero melhor que antes, enterro minhas pretensas virtudes no terreno movediço da prepotência e soberba, sentimentos que me afastam cada vez mais da perfeição. Doido demais, não é?

 

Então, como fugir dessa arapuca? Penso que não há muito a fazer. Arrisco sugerir que simplesmente viva e deixe os outros viverem. Em paz. Assim não vai precisar se preocupar em “melhorar”, entende? E, cá entre nós, para que mesmo ser perfeito?

 

Reconhecer minhas inúmeras falhas me traz até certo conforto, pois me recoloca na condição primeira, na minha essência humana. Preciso, contudo, admitir que me orgulho de algumas “vaidades” (quem nunca?) que, felizmente, não sumiram com o tempo: O espírito contestador, a necessidade de extravasar sentimentos ou de expressar-me sem meias palavras. Mantenho ainda de forma intacta a capacidade de me indignar, de provocar e de denunciar. E, principalmente, de amar. Esta última, espero conservar até o fim.

 

22 de julho de 2016

Crônica originalmente publicada no livro coletânea da autora “Viver, simplesmente” [Sete, 2016] 


Negar é preciso (*)

Quantas vezes você já aceitou um convite quando o seu racional lhe implorava um sonoro e firme ‘não’, só para não magoar um amigo ou para, simplesmente, não parecer antipático?

A dificuldade para dizer ‘não’ parece ser da metade da humanidade, a outra metade simplesmente fala ‘sim’. Agora, no sério. Por uma questão cultural, nós brasileiros sentimos enorme dificuldade para pronunciar essa palavra com apenas três letrinhas, mas que tem mais força do que o campeão de sílabas ‘inconstitucionalissimamente’. Deve vir daí a nossa fama de simpáticos, ‘astral’, de bem com a vida e outros rótulos que fazemos questão de manter, mesmo que nos custem muitos dissabores.

Dizer que não vai à festa de aniversário do seu amigo, ou ao fim de semana na praia com a turma, ou ainda ao programinha de sábado à noite com a galera, e mais àquela viagem com os colegas no feriadão, é mais difícil do que se pensa. Muitas vezes não vamos, mas não temos coragem de negar. Será que não é pior deixar o outro a ver navios? Sim, mil vezes sim, e nós sabemos disso, mas mesmo assim não conseguimos dizer ‘não’.

Você certamente já esteve em ambas as situações, levando um cano ou dando um bolo. E, cá entre nós, ‘cano’ e ‘bolo’ só são interessantes no dicionário etimológico. No primeiro caso, você se sente a Cinderela abandonada e no segundo, a madrasta da pobrezinha. E pensar que tudo poderia ser resolvido com um simples ‘não’, firme, sincero e suave… Impossível? Veremos.

Povos europeus, por exemplo, lidam melhor com negativas, sabem falar ‘não’ com firmeza, são mais francos e objetivos em situações do tipo. O que para nós pode soar falta de gentileza, para eles não passa de uma atitude normal adulta. É um respeito a si próprio e aos outros.

Não estou me referindo aqui aos convites indesejáveis, nem tampouco àquelas pessoas que nunca aceitam chamados. Para esses extremos, o melhor a fazer é riscar do seu mailing, antes que o sentimento de rejeição acabe por lhe levar ao primeiro consultório psiquiátrico da escassa lista dos planos de saúde, sem chance de alta nos próximos anos.

Especialistas alertam para a falsa ideia de harmonia que o ‘sim’ traz, uma vez que o conflito continua lhe perseguindo, simplesmente porque ele está dentro de você. “Por que eu não neguei logo”? “E se eu tivesse dito um ‘não’, será que eles me convidariam novamente?” É também esse receio de ser excluído do grupo e de não ser visto como um deles, que lhe faz eliminar a negativa do seu google.

Nos últimos meses tive que superar o medo de dizer ‘não’. Mergulhei de roupa e tudo em um projeto pessoal e precisei separar, na minha agenda eletrônica, as ações adiáveis das mais urgentes. Isso não significa que as primeiras tivessem menos importância para mim. Elas continuam sendo prioridades, mas naquele exato momento fui obrigada a fazer escolhas, prerrogativa de gente grande, de adultos que somos.

Com isso, deixei de comparecer a encontros mensais com queridas amigas, não pude participar de momento prazeroso com parentes que vieram de longe, dei um tempo nas atividades físicas que eu não passava sem, recusei convites bem interessantes, faltei aos almoços com familiares aos domingos…

O incrível de tudo isso é que sobrevivi e nem doeu tanto. Saber dizer ‘não’ sem agredir, explicar, desde que usando de sinceridade, que você preferiria aceitar o chamado, mas infelizmente não será possível daquela vez, também pode ajudar a lidarmos com esses conflitos e não desapontar a quem devotamos carinho e consideração. Portanto, saber dizer ‘não’ é necessário, mas precisamos ser cuidadosos com a forma de como negar, para não ferir a sensibilidade dos nossos patrícios.

Todo o treinamento recente não conseguiu me capacitar por completo. O episódio que cito a seguir me inspirou a compartilhar o tema com o caro leitor. Às voltas com a finalização do meu primeiro livro de crônicas, o tal projeto pessoal de que falei ainda há pouco, recebi dois convites carregados de afetividade, aos quais não pude negar. Um foi para participar de uma entrevista para uma revista-laboratório do curso de Jornalismo da universidade na qual me graduei. O outro, para escrever para uma bem conceituada revista nacional de moda e comportamento. Resultado: mesmo afastada por uns dias da redação, já respondi à entrevista por email e concluo agora o texto para a revista. Disse ‘sim’ a ambos, mas o fiz de bom grado, com o maior prazer, sem conflitos. É um bom sinal. Convido-o a começar!

(*) Artigo de Celma Prata publicado, originalmente, na edição de junho/2012, da Revista Moda Shoes Brasil


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