Parabéns, mãe, e obrigada!

fotoPara minha amada mãe, Clélia Prata, que hoje completa 100 anos de vida

 

A súdita mais leal

A crítica mais cortês

E a mais contestadora

A mais amorosa

A mais cuidadosa

A mais responsável

A mais condescendente

E a mais intolerante

Assim mesmo, passional a gosto

 

Gratidão ao tempo Rei

Que permitiu

Decifrar o não dito

Abrandar impulsos

Sanar dúvidas

Refazer caminhos

Amar como se deve

Sem ressentimentos

Sem cobranças

Sem julgamentos

 

Orgulho sem medida

Dessa mulher, ser humano ímpar

Parabéns pela lucidez centenária

De sofrimentos

E muita felicidade

Obrigada pelos exemplos

Pelos cuidados

Pelo amor

Pelos extremos

Pelos ensinamentos

Por mostrar que a vida

É dádiva

Obrigada por viver tanto!


Não fui pra rua

Estou sozinha no primeiro andar da Casa. Observo, do meu incômodo exílio voluntário, as manifestações “cívicas”. Que multidão é essa, minha gente? De onde vem todo esse ódio? Pessoas que pregam tolerância, compaixão, amor, solidariedade; Líderes que deveriam dar o bom exemplo. Tento entender, não consigo. Falo como cidadã comum que sou, como ser humano falível, não exerço cargo público comissionado, não sou filiada a nenhum partido político, nem votei na Dilma.

Diante de meus olhos assombrados, um festival de horrores Brasil afora.

Jovens espertos aos brados de “Estamos fazendo história”, recusando-se a estudar a história recente do país, de outro 13 de março, há cinco décadas, a apenas dois cliques no seu smartphone.

Adultos cidadãos – e, portanto, esclarecidos – estacionam seus carros nas ciclofaixas das ruas de acesso.

Nostálgicos do golpe de 1964 com faixas “Viva a Revolução!”.

Políticos corruptos com cartazes “Fora Dilma, Lula e PT”.

Empresários corruptores com camisas da CBF. Esses, pelo menos, são coerentes. A entidade máxima do futebol brasileiro está afundada em denúncias escabrosas de fraude, subornos e lavagem de dinheiro, em dobradinha com a “instituição de caridade” Fifa. Hilário, mas é verdade. É assim registrada para fugir dos altos impostos suíços.

Católicos convictos se recusam a sujar as mãos e rogam pela intercessão da virgem, “Nossa Senhora, esmaga a cabeça da Jararaca”.

Gays e “periguetes” fazem fila para tirar foto com um boneco Moro de sorriso escancarado que veste camisa estampando o rosto sereno de Bolsonaro.

Evangélicas, cujas mães, avós e bisavós conquistaram – à custa de humilhação e sofrimento – o direito ao voto e de protestar livremente nas ruas, portam cartazes “O feminismo não me representa”.

Bebês que ainda nem falam, cabecinhas amarradas com bandanas verde-amarelas, posam para selfies, com seus orgulhosos e sorridentes papais e mamães, imediatamente compartilhadas na festa das redes sociais: “Eu fui!”.

Há os sem noção que atiram para todo lado: “Contra tudo o que está errado”, e também aqueles bem-intencionados, creio, embora em número insignificante.

Colegas repórteres da grande mídia nacional, que deveriam esclarecer a população e primar pela verdade dos fatos, manipulam imagens e sonegam informações. Ok, precisam garantir o emprego, mas injúria tem limites. Cadê a dignidade? É constrangedor, humilhante. Nessa hora, sinto vergonha da profissão.

Nas redes sociais, uma foto da belíssima orla de Fortaleza com uma pergunta meio indignada, meio decepcionada: “Por que a Globo não mostrou a nossa manifestação?”. A resposta é simples: Porque não se trata de concurso de cartão postal ou de fotografia. Estamos falando do futuro de uma nação, a nossa.

Recebi inúmeros chamados do tipo “Vem pra rua!”. Não fui.

Quando eu fui pra rua defender o trânsito compartilhado, ouvi comentários irônicos, do tipo “As ruas de Fortaleza são muito estreitas para comportar ciclofaixas”. Pois, sim! Quando eu quis ir pra rua me apossar das calçadas e praças, fui destituída da ideia tresloucada e, mais, incentivada a blindar carro e portaria do condomínio. Quando eu fui pra rua pedir pela não violência e educação pública de qualidade para todos, fui taxada de “petista”, a pior das ofensas contemporâneas.

Antes de protestar nas ruas, vou tentar cumprir, pelo menos, algumas leis básicas de trânsito, como a de não dirigir depois de beber, não estacionar em vagas de idosos, não ultrapassar a velocidade mínima permitida onde não há sensores eletrônicos, não usar o GPS para fugir de blitz da lei seca, não atravessar sinais amarelos. Sabe o lema “Começar por mim”? Esse mesmo! Aquele que nossas mães nos ensinaram na infância e abandonamos não sei em que estágio da vida.

Desci para o térreo. Sem superpoderes para indicar quem quer que seja ao Paredão. Se os tivesse (os superpoderes), mudaria muita coisa. Mantenho, contudo, minhas convicções, pudores e sonhos. De um país mais justo, sem campanhas políticas milionárias, sem troca de cargos públicos como se fossem mercadorias, sem senhores e escravos.

Para concluir, não me pergunte de que lado estou. Não tenho lado, tenho coração e mente. Eu penso e sinto. Só isso.


Sem medo, sem rótulos

Naquela quinta-feira à noite, enquanto desfrutávamos com amigos de momentos agradáveis em nossa casa, em Fortaleza, um grupo de fanáticos acertava os últimos detalhes do que viria a ser o pior massacre na Paris pós-guerra.

 

Trinta dias se passaram desde a sexta-feira 13 de novembro e ainda me custa acreditar na matança de 130 pessoas inocentes e o saldo de mais de 350 feridos, muitos em estado grave. Se já é difícil acreditar, que dirá entender. Não sou capaz, por mais que tente.

 

Igual reação se manifesta em relação à matança de janeiro na redação do Charlie e no supermercado kosher. Mesmo diante das justificativas apontadas equivocadamente por algumas pessoas – as “blasfêmias” contra o profeta Maomé, no caso da barbárie do início do ano –, não há atenuantes racionais para qualquer dos acontecimentos.

 

Atentar contra os símbolos da liberdade, igualdade e fraternidade é desprezar a boa vontade e a capacidade de compreensão do mundo civilizado. Para mim, é aflitivo perceber o desafio que temos pela frente: descobrir formas possíveis de convívio com as diferenças. Ora, se já é difícil aceitar a diversidade de ideias e atitudes entre o nosso círculo íntimo de amizades, como conviver com os diferentes grupos que nos cercam? Mas precisamos tentar. Que tal começarmos pela eliminação de rótulos? “Ele/ela é gay”; “evangélica”; “periguete”; “ateu”; “negro”… As pessoas são mais do que essas rasas designações cuja única função é alimentar o preconceito.

 

Nas comunidades primitivas vivia-se em grupos fechados onde todos tinham o mesmo comportamento, eram motivados apenas por laços afetivos e partilhavam as mesmas crenças. Mas o mundo mudou, brothers, vivemos no século vinte e um, estamos (moradores de Fortaleza) a seis horas e meia de Lisboa e a sete horas de Miami. Isso significa que as distâncias e fronteiras físicas deixaram de ser empecilho para um intercâmbio cultural que só nos enriquece e acrescenta.

 

Não podemos permitir que destruam nossas conquistas democráticas, nosso direito de ir e vir, nossa liberdade de expressão e pensamento. Continuarei planejando estadias no exterior sempre que possível. Continuarei usando o metrô, o ônibus, me apossarei dos parques, ruas e calçadas. Isso vale também para o Brasil. Superar o medo é atitude das mais urgentes.


Com um pé no Douro (*)

As vindimas do Douro, entre agosto e outubro, são uma verdadeira celebração que se reinicia a cada manhã com a colheita das uvas e termina à noite com a pisa nos lagares

Rio Douro margeando encostas de Lamego cobertas de videiras

Rio Douro margeando encostas de Lamego cobertas de videiras

Na véspera de partirmos rumo ao Douro, norte de Portugal, pedi à minha pedicure: “Fran querida, capriche aí, pois esses pezinhos poderão esmagar as uvas da melhor safra de vinho tinto duriense!”.

Após um pernoite básico em Lisboa para rever velhos amigos, devorar meia dúzia dos inimitáveis pastéis de nata e escalar – de salto (vacilo!) – as ladeiras da Alfama para chorar com os maravilhosos fadistas, pegamos a autoestrada em direção à primeira região vinícola demarcada do mundo, famosa pelos seculares Vinhos do Porto e, mais recentemente, pelos vinhos de mesa. Em quatro horas, incluindo algumas paradas para abastecermos carro e estômagos, o navegador nos deixa nos jardins da bela Quinta da Pacheca, em Lamego, a poucos minutos de Peso da Régua, ou simplesmente Régua.

Vista parcial das parreiras na Quinta da Pacheca, em Lamego, Portugal

Vista parcial das parreiras na Quinta da Pacheca, em Lamego, Portugal

Recepcionados pela bem treinada equipe da vinícola, já fomos fotografando vales e paisagens. Nosso grupo era formado por 22 pessoas de várias partes do mundo, ávidas para conhecer aromas e sabores das castas mais emblemáticas da região, como as tintas Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz, e descobrir “o que é que o vinho do Douro tem”.

Ricardo de Santos, consultor da vinícola, conduzindo a prova de vinhos

Ricardo de Santos, consultor da vinícola, conduzindo a prova de vinhos

Por volta das 7 da noite, sol ainda esperto, compartilhamos longas mesas de madeira ao ar-livre, de frente para encostas cobertas de parreiras a perder de vista. Começa a prova de vinhos de mesa do Douro e Porto Vintage, conduzida pelo escanção (designação portuguesa para sommelier) Ricardo de Santos. Parênteses: Em Portugal, aprendi a lição há alguns anos ao perguntar pelo shopping mais próximo: “Aqui falamos português, senhora, o ‘centro comercial’ fica logo ali!”.

Em breve explanação sobre o Vinho do Porto, Santos esclarece algumas dúvidas recorrentes, como a de que “garrafa aberta é garrafa consumida”. Dependendo do tempo de envelhecimento, “o Vinho do Porto pode ser consumido até um ou dois anos depois de aberto, caso dos Tawnies 20 anos. Os de 10 anos suportam até seis meses abertos”. A classificação por idade do famoso licoroso, de acordo com o consultor da Pacheca, é subjetiva e obedece a regulamentos próprios. “Não se trata de idade real, 20 anos significa que o vinho se encaixa em determinadas características”.

Mais perguntas surgem entre os participantes. “E o que diferencia o Vintage e LBV (Late Bottled Vintage) dos outros vinhos do Porto?”. Santos responde relembrando uma passagem familiar: “Meu avô dizia que Vintage é quando Deus quer; os outros é quando o enólogo quer”. A última safra declarada oficialmente Vintage – um conceito de “perfeição” –, foi a de 2011. Vintage e LBV pertencem à categoria Ruby, vinhos que envelhecem bem em garrafa, sendo que a chamada “joia da coroa”, o Ruby Vintage, fica os primeiros vinte meses em barril para depois concluir o envelhecimento em garrafa; já o Ruby Late Bottled Vintage, como a tradução sugere, é engarrafado bem mais tarde – após quatro a seis anos em barril – e destinado a consumo imediato. A segunda categoria de Vinhos do Porto, quanto ao estilo de envelhecimento, pertence aos Tawnies, que ficam em barril por período superior a cinco anos até quarenta anos. A região, segundo Silva, conta com 33 mil produtores. “Os pequenos sobrevivem através da venda de uvas para os grandes”. A maioria da produção (60 % a 70 %) é “exportada para a França”, confirma o consultor.

Um dos grupos pisando uvas nos lagares da Quinta da Pacheca

Um dos grupos pisando uvas nos lagares da Quinta da Pacheca

Entre um copo e outro de branco, tinto e Vintage, nessa ordem, fomos “pegando energia”, nas palavras de Santos, para o que viria a seguir. O consultor referia-se à lagarada, uma das etapas mais esperadas da visita. Vestimos padronizados calções de brim azul, em vestiários improvisados – masculino de um lado, feminino de outro –, protegidos por singelos biombos, o que não representou qualquer problema, àquela altura a química do vinho já havia transmutado severos códigos sociais. Largamos tudo no chão e nos cabides e corremos para os lagares, portando apenas smartphones e câmeras. Impensável não registrar um momento único como aquele.

Violeiros garantem a animação da pisa da uva com músicas típicas

Violeiros garantem a animação da pisa da uva com músicas típicas

Animados violeiros nos aguardam ao redor das duas fileiras de uma dezena de enormes tanques de pedra, cada um com capacidade para uma dúzia ou mais de pessoas, garantindo coreografias originais a quem se aventurar a imergir pernas e coxas em toneladas de uvas colhidas naquela mesma manhã. Há até quem arrisque passinhos do folclórico vira. Todos, sem exceção, vão abandonando o que ainda resta de timidez e cada tanque se transforma em uma grande celebração. O casal de brasileiros Anete Borella, professora, e Alessandro Paiva, analista de sistema, de Jundiaí (SP), está em viagem de lua de mel. “Eu me emocionei com a pisa nos lagares”, afirma a simpática Anete.

Celma Prata, do AgroValor, em um dos lagares, com o casal paulista, Anete Borella e Alessandro Paiva, que viajava em de lua de mel

Celma Prata, do AgroValor, em um dos lagares, com o casal paulista, Anete Borella e Alessandro Paiva, que viajava em lua de mel

Embora existam atualmente tecnologias ultramodernas que simulam a pisa a pé, a Quinta da Pacheca conserva o modo milenar e artesanal, considerado essencial para se extrair ao máximo a cor e taninos da casca da uva. O processo completo de fabricação é fiscalizado pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), órgão público situado em Peso da Régua, responsável pelo controle da qualidade e quantidade dos vinhos do Porto, e pela proteção das denominações de origem Douro e Porto.

Adega onde foi servido o requintado jantar ao som da fadista Cristina Marques e guitarristas

Adega onde foi servido o requintado jantar ao som da fadista Cristina Marques e guitarristas

Perto das 9 da noite, recebemos jatos coletivos de água nas pernas coloridas de mosto e, recompostos, somos conduzidos, longa escadaria abaixo, até a gigantesca adega da quinta para um superbanquete regado a muito vinho e show ao vivo da jovem fadista Cristina Marques e guitarristas, de Peso da Régua, dentro do projeto “Castas do Fado”. Cinco mesas quadradas, muito bem postas, de doze lugares, cada, recebem fartas porções de patanisca de bacalhau, arroz de pato, embutidos, pães artesanais, sobremesas, cafezinho e Vinho do Porto. Um regalo! O casal lisboeta, Sofia e José João Fonseca, estreava na lagarada em comemoração às suas bodas de prata. “É a nossa primeira vez na pisa, achamos muito giro!”, dispara a feliz Sofia. A animada mesa ao lado celebrava em família “o meio século do senhor Joaquim, como se diz na Régua”, anunciava repetidamente Cristina, entre um fado e outro.

Sofia e José João Fonseca, de Lisboa, estreavam na lagarada em comemoração às suas bodas de prata

Sofia e José João Fonseca, de Lisboa, estreavam na lagarada em comemoração às suas bodas de prata

Passava das 23 horas quando nos despedimos. Após demorado banho, deito na esperança de um dia me deliciar com o vinho feito por esses pezinhos que ainda não desbotaram totalmente. Franzinha, só você pra dar um jeito!

****

Agradecemos à equipe da Quinta da Pacheca pela forma gentil com que fomos recebidos.
http://www.quintadapacheca.com

(*) Matéria publicada originalmente no Jornal AgroValor_Edição_115_setembro_2015
http://www.agrovalor.com.br

Crédito fotos: Celma Prata/AgroValor


Carta para Theo

Você ainda não pode entender o significado das palavras, mas já é capaz de sentir a intensidade do amor e de como é maravilhoso chegar a um lugar onde se é muito bem-vindo.

Nesses últimos seis meses, você vem, a cada dia, conquistando novas liberdades. Comovo-me com o seu enorme esforço na tentativa de se sustentar sobre mãos e joelhos rechonchudos a fim de explorar objetos, espaços e distâncias que devem lhe parecer gigantescos e instransponíveis. Sei, é duro, mas é também estimulante e desafiador.

Agora está prestes a conhecer o sabor de novas comidinhas que provavelmente lhe acompanharão por toda a vida. Veja a mim, beirando os sessenta, e não vislumbro outro jantar que não seja a minha deliciosa e saudável sopinha. Ainda que seja só de segunda a quarta. Portanto, é melhor que se acostume logo e para sempre.

O mundo é cheio de contradições, meu lindo Theo, mas é também um lugar de muitas alegrias. E de tomadas de decisão também. Você terá que fazer escolhas simplistas, entre o Bem e o Mal, por exemplo, mas a maioria delas passa longe do maniqueísmo limitador. Falo de coisas mais práticas, do dia a dia, como ter que optar entre esportes radicais e meia maratonas, entre filmes europeus e americanos, entre música pop e eletrônica, entre esquiar e “snowboardear“, entre curtir uma praia ou velejar no mar a sessenta por hora, entre jornalismo e direito. Na dúvida, tente um meio termo, o seu próprio. Pode radicalizar também, mas que seja temporário, dê logo um jeito de se aprumar novamente.

E quando ganhar um irmãozinho ou irmãzinha, cuide bem dele ou dela, briguem, mas não demorem a fazer as pazes, ame-o/a, ele ou ela estará sempre ali, ao longo da caminhada. E se o/a irmãozinho/a não vier, “adote” o/a primo/a, o/a colega da escola ou o/a amigo/a da natação. Não queira viver sem amigos. Esforce-se, pelo menos. A amizade é algo nobre, que nos deixa mais vivos.

Estude, leia muito, adquira cultura, viaje, abra a mente, livre-se dos preconceitos de toda espécie, descubra as diferentes formas de vivência tão ou mais interessantes que a sua. Concordo, nada é garantido, a vida não é um tratado de lógica, mas quem foca nos objetivos aumenta as chances de cruzar de vez em quando com a tão almejada “sorte”.

No futuro, escolha alguém sensível para construir um projeto de vida em comum, que valorize coisas que o dinheiro compra, mas também aquelas que esnobam o vil metal. E, sim, tenha filhos, biológicos ou não, a maior prova de que você acredita na humanidade e mantém a esperança na existência.

O conselho a seguir vai ser fácil, fácil, basta deixar fluir a vocação: amplie sua família com, pelo menos, um bichinho de estimação. Toda a sua autossuficiência humana e racional ainda não bastará nos momentos de fragilidade que certamente virão.

Ia esquecendo! Acredite em Papai Noel, a metáfora-mãe de todas as miragens e ilusões. Mas, à medida que for atingindo graus crescentes de maturidade, liberte-se de todas elas. Quando restar apenas você e você, aí sim, terá conquistado a tão sonhada plenitude. E não precisa ficar angustiado por isso. Garanto-lhe que vale a pena!

Para terminar, cuide da saúde, não fume e beba “moderamente” (acho horrível essa palavra, mas todo conselho tem um quê de caretice, ainda mais vindo de vó).

Vida longa e saudável para você, meu neto amado!


Eu sou a liberdade, “mas”…

prata-na-crônica

Há muitos significados em “Je suis Charlie”. Para mim, o principal deles chama-se liberdade.

Está na essência humana a necessidade de ser livre. E isso vai muito além de estar do lado de fora das barras de ferro ou muros altos e cercas elétricas de uma penitenciária.

Falo da liberdade para pensar e falar o que bem quiser e agir como lhe der na telha. E assumir as consequências, é claro, sejam quais forem. Mas ninguém falou que era fácil ser livre. E não é mesmo!

Difícil e incompreensível para mim é ver tanta gente que se autodeclara livre, humana e solidária, afirmar que “não apoia o massacre do jornal semanário de Paris, Charlie Hebdo”, que o ato é “injustificável”, blá, blá, blá, masah, obsceno “mas”!“compreende” a atitude dos terroristas, responsabilizando as vítimas pelo próprio assassinato, como se o ato de “desenhar” pudesse…

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Eu sou a liberdade, “mas”…

Há muitos significados em “Je suis Charlie”. Para mim, o principal deles chama-se liberdade.

Está na essência humana a necessidade de ser livre. E isso vai muito além de estar do lado de fora das barras de ferro ou muros altos e cercas elétricas de uma penitenciária.

Falo da liberdade para pensar e falar o que bem quiser e agir como lhe der na telha. E assumir as consequências, é claro, sejam quais forem. Mas ninguém falou que era fácil ser livre. E não é mesmo!

Difícil e incompreensível para mim é ver tanta gente que se autodeclara livre, humana e solidária, afirmar que “não apoia o massacre do jornal semanário de Paris, Charlie Hebdo”, que o ato é “injustificável”, blá, blá, blá, masah, obsceno “mas”!“compreende” a atitude dos terroristas, responsabilizando as vítimas pelo próprio assassinato, como se o ato de “desenhar” pudesse ser comparado ao ato de “matar”.

Como defendo a total e irrestrita liberdade de expressão – não apenas por ser jornalista, mas principalmente por ser cidadã livre –, tenho que ler e ouvir disparates desse tipo. Sorte minha que não preciso concordar. Sorte deles que não sou nem radical nem fundamentalista, senão a minha ferramenta de escrita poderia facilmente se transformar em arma letal direcionada para quem ousasse discordar de mim.

O pensamento dessas pessoas “compreensivas” com atos assassinos chancela atitudes das mais diabólicas. Nessa linha, até Hitler pode ser justificado, pois ele certamente tinha suas razões para construir campos de concentração para matar ciganos, deficientes físicos, homossexuais, judeus e outros seres “imperfeitos”.

Qual será a próxima exigência dos fundamentalistas? Como questiona o colega Plínio Bortolotti (em seu blog de 17/01), seria “proibir mulheres de biquine nas praias para não ofender o profeta?” E aí? Você vestiria suas filhas de burca? Give me a break, please!

São os cartunistas e seus desenhos que denunciam de forma satírica a opressão e as ideologias radicais exterminadoras da diversidade de pensamentos e ideias. São os cartunistas que estimulam a reflexão, que nos fazem exercitar a liberdade de pensar e de discordar seja lá de quem for. Para que você tenha o direito de xingar nas redes sociais os partidos políticos, seu e dos outros, de xingar a presidenta do seu país, de fazer troça de pessoas públicas, sem ter que vir um radical descarregar um fuzil automático em você.

Não é bom ser livre? Não é bom viver numa democracia? Então, caros, pensem duas vezes antes de dizer que “não são” Charlie. Não dá para dizer que defende a liberdade, “mas” que entende os motivos dos assassinos. Uma coisa ou outra.

Dedico esse texto aos meus filhos, para que fujam da liberdade meia-boca e possam usufruir de todas as alegrias e tristezas desse ato.


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Jornalista que flerta com o mundo da moda desde criança, voltou ao mundo dos blogs para saciar a vontade de escrever sobre os temas que mais gosta de ler e pesquisar sobre. Cresceu assitindo ao programa "Fashion File" com Tim Blanks, assina uma coluna de moda semanal no jornal cearense O Povo há mais de três anos e neste espaço vai dividir um pouco de seus guilty pleasures.

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