Feira ao sul do Tejo

Um dos principais eventos agropecuários de Portugal atrai negócios que movimentam a economia da rica região do Alentejo

(Enviada especial a Estremoz, Portugal)


(Foto 1)

Uma canção romântica embalava os visitantes que chegavam para o terceiro dia da Fiape 2017, na cidade de Estremoz, sudeste de Portugal.

Apuro o ouvido, algo me soa familiar: o sotaque do cantor. “Meu ar, meu chão é você. Mesmo quando fecho os olhos, posso te ver…”. O que leva uma feira rural, ao sul do Tejo, a incluir brasileiros na playlist? Arrisco perguntar a uma local se, por acaso, saberia quem estava cantando. A rapariga me olha com ar de espanto, balançando negativamente a cabeça. Ora, se você, que é brasileira, não sabe, que direi eu!, seu semblante parecia falar.

Utilizo o potente wifi do parque de exposições e faço um google com os versos da tal balada. Milhares de resultados expõem “Sem ar”, do cantor carioca D’Black, considerado um dos fenômenos de 2008 na internet, por ter alcançado rapidamente mais de quarenta milhões de audições, segundo a gravadora do artista.

Chega de digressões. Hora de trabalhar. Este é o terceiro ano em que a equipe do AgroValor visita a Fiape – Feira Internacional Agropecuária de Estremoz, apontada como uma das mais importantes iniciativas do setor, realizada de 27 de abril a 1º de maio.

Em sua 31ª edição, a Fiape apresenta números que impressionam. Conforme seus organizadores, mais de 60 mil visitantes convergiram ao Parque de Feiras e Exposições Engenheiro André de Brito Tavares, nos cinco dias do evento, para conferir os 450 expositores, nas áreas de pecuária, maquinário agrícola, comércio e indústria, artesanato, produtos regionais e comercialização de automóveis. Uma vasta programação cultural oferecia ainda palestras e espetáculos musicais.

Um dos certames nacionais da pecuária mais aguardados era o de ovinos Île-de-France, que teve início às 10h30, do dia 29 (sábado). José Romão (da Romão & Folque), criador e diretor técnico da raça, destacou a importância do concurso para o aperfeiçoamento da genética e reconheceu a evolução da feira nos últimos anos. “A Fiape melhorou muito depois que veio para este recinto”, anuncia Romão, referindo-se à excelente estrutura do parque de exposições de Estremoz. O especialista adianta ao AgroValor que confirmou convite para participar da Expointer, em Esteio (RS), em agosto próximo.


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Visitantes de várias regiões de Portugal, além de outros provenientes da Espanha e Brasil, vieram apreciar os rebanhos, o artesanato, os vinhos, o azeite e a gastronomia. Um grupo de turistas brasileiros, que visitava Estremoz pela primeira vez, aproveitou para conhecer a feira. Ficaram surpresos com o vigor do evento realizado em uma cidade pequena para os padrões brasileiros, com população inferior a 15 mil habitantes, mas com forte potencial de negócios. Izabel e Osler Machado, empresários de Fortaleza, provaram os deliciosos enchidos, o presunto Pata Negra, os pães, os vinhos, a enorme variedade de frutos secos do Alentejo e só tinham elogios. “Achei bastante interessante, pois dá oportunidade também aos pequenos produtores; muito organizado; o segmento de ovinos é muito rico. Tive a chance de conhecer um Agronegócio desenvolvido por outro país”, afirma Machado.

(FOTO 3)

O empresário brasileiro Antônio Bitar, da Fazenda Libanus, em Paracuru, Ceará, produtora de ovinos, cachaças artesanais e ovos de galinha caipira, frequenta a Fiape desde 2007. “Cresceu muito em estrutura, desde a primeira vez em que aqui estive, há dez anos. A manutenção da qualidade dos produtos é outro fator a destacar”, atesta Bitar, com satisfação, sobre a evolução do evento.

(FOTO 4)

Realizada paralelamente à Fiape, a 35ª Feira de Artesanato de Estremoz reafirmou sua potencialidade, com 120 expositores nos mais variados estilos e materiais. Isabel e José Diamantino – ele, de tradicional família no ramo da ouriversaria –, consideram o evento um dos mais organizados do país, com bom número de visitantes e igual nível de vendas. Essa é a terceira vez que o casal expõe no Alentejo. “Somos ricos de autoestrada, temos prazer em conhecer as terras e a gastronomia de outras regiões”, declara Diamantino, que viajou de carro com a mulher por três horas, desde Gondomar – no distrito de Porto, norte do país, trazendo belas peças para apresentar na feira.

(FOTO 5)

As inesperadas baixas temperaturas para a época, cerca de 11º C, com algumas pancadas de chuva e ventanias, surpreenderam alguns expositores. A principal queixa referia-se às condições desfavoráveis de tempo para os setores cujos estandes fixaram-se ao ar-livre.“Participamos desta feira há doze anos. Neste ano, o clima não ajudou, vamos esperar que melhore até amanhã [domingo]”, lamentava Maria João, funcionária da Carola & Borralho, produtora de artigos em pele de ovelha, como calçados, vestuário, acessórios e decoração, situada em Monforte, no Alto Alentejo.


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Além de mostras e atividades diurnas, os shows musicais da Fiape movimentaram as noites da pequenina Estremoz, que teve sua população multiplicada no final de semana prolongado, devido ao feriado do Dia do Trabalhador (1º de maio) ter caído em uma segunda-feira. Bandas, cantores e DJ’s dividiram os palcos, com ritmos que iam do pop rock a hip hop e rap, além de música eletrônica, grupos folclóricos e, claro, o belo fado.

Cruzo novamente com o grupo de turistas brasileiros. Estavam de saída para a Quinta Monte da Azinheira, na vizinha Arcos, onde almoçariam com a família Cabaço, fabricante dos estrelados vinhos Monte dos Cabaços. Seriam recebidos por Margarida e Joaquim Cabaço, ela a chef do tradicional Restaurante São Rosas, que funcionou até dezembro último no interior das muralhas do centro histórico, ao lado da Pousada Castelo de Estremoz. Pelo grau de ansiedade do grupo, podia-se antever o banquete alentejano harmonizado com vinhos Monte dos Cabaços que deve ter se estendido até a noite.

Recomeçam as divagações. Difícil concentrar-se nesse ambiente de cheiros e sabores inigualáveis. Hora de provar as delícias do Alentejo. Quem já saboreou uma Bochecha de Porco Preto assada ao forno com migas de brócolis, acompanhado de uma taça de Margarida Alicante Bouschet 2010, pode me entender perfeitamente.

Serviço

31ª Fiape e 35ª Feira de Artesanato

Anualmente, no final de abril (Em 2017: 27 abril a 1 de maio)

Parque de Feiras e Exposições Eng. André de Brito Tavares

Estremoz – Portugal

Organizadas pela Câmara Municipal de Estremoz, em parceria com a Acore – Associação de Criadores de Ovinos da Região de Estremoz, com o apoio de diversas entidades.

http://www.cm-estremoz.pt/evento/fiape

Onde se hospedar

Pousada Castelo de Estremoz

Largo Dom Diniz

Estremoz

http://www.pousadas.pt/pt/hotel/pousada-estremoz

Onde comer

Mercearia Gadanha

Largo Dragões de Olivença, 84-A

Estremoz

Fecha segunda-feira

http://www.merceariagadanha.pt

Vinícola a visitar

Vinhos Monte dos Cabaços

Monte da Azinheira

Arcos – Estremoz

http://www.montedoscabacos.com


Crédito Fotos: AgroValor

(FOTO 1) Estremoz. Entrada principal do Parque de Exposições, onde se realizaram a 31ª Fiape e a 35ª Feira de Artesanato

(FOTO 2) Especialista. José Romão, diretor técnico da Île-de-France, em ação durante o concurso da raça

(FOTO 3) Turismo rural. Izabel e Osler Machado, de Fortaleza, em passeio pela região do Alentejo

(FOTO 4) Assiduidade. Antônio Bitar, empresário brasileiro do Agronegócio, conferindo a Fiape pela terceira vez

(FOTO 5) Aventura. Casal de ourives, Isabel e José Diamantino, atravessaram o país para expor em Estremoz

(FOTO 6) Frio. Maria João, expositora de artesanato, acredita que o clima diminuiu o fluxo de visitantes


Ser Fortalezense

Não é só sobre ter uma certidão de nascimento em cartório.

É sobre acolher forasteiros e fazê-los sentir como se em casa estivessem.

É absorver a cultura interiorana de pais e avós, e construir a sua própria.

É sobre a habilidade de profissionalizar o humor, desafiando adversidades.

É definir o seu próprio sotaque a partir da mistura de vários.

É desejar 365 dias ensolarados por ano, mesmo reconhecendo a necessidade de uma boa chuva.

É sobre saber transformar o martírio de revolucionários em Passeio da esperança para as novas gerações.

É preferir morar junto ao mar, contrariando a ideologia rural do “quanto mais longe do litoral, melhor”.

É sobre evocar o feminismo das heroínas emblemáticas de Rachel de Queiroz.

É agir de forma possessiva, quase infantil, apontando os defeitos sem permitir que estranhos o imitem.

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

É sobre ter a honra de partilhar com José de Alencar o berço natal, a primeira luz.

É apoderar-se de valiosos equipamentos culturais, de teatros a praças, como se privados fossem.

É sobre alimentar o espírito com a irreverência dos jovens padeiros literários.

É rejeitar o descaso com a tragédia da seca, por atrair a fome, o fanatismo religioso e a reinvenção do cangaço.

É sobre indignar-se com demonstrações de baixa afetividade de migrantes e imigrantes.

É sobre sonhar com igualdade social, do Bom Jardim ao Meireles, porque ninguém sobrevive sem uma utopia.

É tecer loas a outras cidades e manter a sua no topo das maravilhosas.

É sobre celebrar 291 anos com orgulho, confiança e luta.

É respeitar os símbolos da ancestralidade negra e índia.

É reescrever a História com caligrafia holandesa, portuguesa, universal, ou ainda brasileira e mesmo cearense de outras plagas.

É ser, sobretudo, um forte, força, fortificação, Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção.


A mais transformadora das paixões

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“Livros não mudam o mundo,

quem muda o mundo são as pessoas.

Os livros só mudam as pessoas.”

 

Atribui-se ao poeta Mário Quintana a citação acima. Autoral ou anônima, é indiscutível que ela nos leva a refletir sobre o poder transformador da leitura, além de sugerir que vivemos – nós e os livros – em incessante processo evolutivo.

 

Estudiosos acreditam que estamos testemunhando e protagonizando uma das maiores revoluções desde a invenção da escrita em papel. Referimo-nos àquelas advindas das tecnologias digitais e eletrônicas. Um momento de inúmeras interrogações acerca do tipo de leitura que o futuro próximo nos reserva.

 

Um dos autores contemporâneos que melhor fundamenta a evolução dos suportes de leitura e sua influência sobre a nossa maneira de compreender um texto, um livro – e, por consequência, o mundo à nossa volta –, é o escritor argentino Alberto Manguel. Em sua obra mais conhecida, Uma História da Leitura (1997), ele defende que o embate entre o livro impresso e o digital repete um fenômeno já ocorrido no passado, quando da passagem da transmissão oral para o texto escrito.

 

Na entrevista que abre a quinta edição da Revista SAL, as associadas Cybele Pontes e Emelvira Sá demonstram estar atentas a tais mudanças e aproveitam para expor, dentre outras questões importantes, suas ideias quanto à citada transição em curso.

 

Para expressar a metamorfose operada em nossa mente a partir do hábito da leitura, a talentosa ilustradora Rebeca Melo inspirou-se na borboleta – considerada o símbolo da transformação – para criar a capa e as imagens do miolo desta edição. Após um longo processo evolutivo, a lagarta rompe o casulo, libera as asas e se transforma em uma bela borboleta, uma alusão ao poder transformador da leitura para a construção de uma visão crítica que nos eleva à condição de condutores da nossa própria história.

 

Sentimo-nos honradas em contar com a participação de escritores convidados que prestigiam permanentemente a SAL, como Fernanda Quinderé e Lúcio Alcântara (poesia), Olga Sawary (conto), Socorro Acioli (crônica), além do saudoso poeta Antero Coelho Neto, uma das maiores perdas afetivas e literárias de 2016.

 

Das queridas companheiras da SAL, a arte de Côca Torquato e Terry Araújo nos convida à reflexão e nos presenteia com o belo; Os artigos de Bernadete Bezerra e Vera Moraes transmitem a sensibilidade aguçada das duas intelectuais; Os contos de Lourdinha Leite Barbosa e Thereza Leite preenchem o nosso imaginário; As crônicas de Ana Maria Jereissati, Celma Prata, Constança Távora, Cybele Pontes e Margarida Magalhães nos aproximam de experiências únicas protagonizadas pelas autoras; O discurso de Suzana Ribeiro indica o sentimento respeitoso da grande dama da SAL para com a academia literária mais antiga do Brasil; Os ensaios de Angela Gutiérrez e Regina Fiúza confirmam sua riqueza acadêmica; A poesia de Beatriz Alcântara, Dina Avesque, Emelvira Sá, Giselda Medeiros, Neide Azevedo, Révia Herculano e Rita Araújo alimenta o nosso espírito e transborda em pura emoção. A nossa inesquecível Aíla Pereira, que partiu em 2015, se faz presente através de tocante homenagem in memoriam.

 

Todas essas pessoas carregam em comum a paixão pelos livros – independentemente do formato em que se apresentem –, atitude que as transforma e, por conseguinte, transforma o mundo, como profere a frase inicial creditada ao “poeta das coisas simples”, assim chamado por sua imensa habilidade em abordar a complexidade de forma singela.

 

Neste ano em que a SAL completa 55 anos de ininterrupta atuação na formação de bibliotecas para as comunidades sem acesso a livros – sua principal missão –, recorremos novamente a Manguel, quando reconhece a importância da leitura para o desenvolvimento de um povo: “Uma sociedade pode existir – existem muitas, de fato – sem escrever, mas nenhuma sociedade pode existir sem ler”.

 

Conservemos, pois, nossas bibliotecas reais e afetivas, pois são elas que determinam a nossa identidade e cidadania, além de promoverem a nossa contínua evolução. E que as borboletas do conhecimento continuem com seu revoluteio a fecundar mentes e corações.

***

Editorial da Revista SAL (Sociedade Amigas do Livro)_biênio 2016-2018, editada por Celma Prata, dezembro/2016

Ilustração de capa por Rebeca Melo


Sessentíssima

Enquanto organizo o material para a coletânea que marcará minhas seis décadas de vida, acompanho nos textos o passar dos anos. É interessante observar as mudanças – positivas ou não – em nossa trajetória. Uma evolução natural.

 

Aos 60, uma pessoa é considerada nova ou velha? Depende do referencial. Na linguagem dos meus amigos mais velhos, sou um “broto”; Para os mais jovens, sou “coroa”; Pelas leis brasileiras, sou “idosa”. E haja rótulos.

 

Dia desses, fui taxada pejorativamente de “petista”. Já me pregaram também etiqueta de “ateia”. Ni l’une ni l’autre, apenas tenho um cérebro, leio sobre tudo e por isso desenvolvi algo que se chama visão crítica e racionalidade. Simples assim. Aliviada, lembro que sou feita igualmente de afeto, matéria que me mistura definitivamente ao outro.

 

Além dos tolos e dispensáveis rótulos, incomoda-me profundamente comentários simplistas ou pensamentos reducionistas sobre temas complexos, como a maneira individual de perceber o mundo e as pessoas.

 

Recentemente, uma frase nas redes sociais me chamou a atenção: “O que muda na sua vida se José ama Joaquim?”. O mesmo conceito pode ser estendido a outras áreas. O que muda na sua vida se sua amiga branca se relacionar com uma pessoa negra? O que muda na sua vida se o seu amigo rico se casar com uma moça pobre? Ou se a mãe divorciada de 50 anos da sua amiga namorar um garotão de 30? O que muda na sua vida se uma mulher na praia tirar a parte de cima do biquíni? Você, que idolatra artistas que exibem piercings e tatuagens, por que reage mal diante de familiares e amigos que usam idêntico estilo? O que muda na sua vida se o seu novo vizinho é imigrante, ou muçulmano, ou ateu, ou evangélico, ou católico, ou obeso, ou anão, ou deficiente físico/ mental, ou gosta de bichos? Em que isso lhe prejudica? A mim, absolutamente nada.

 

Os preconceitos nos sufocam e trazem sofrimento desnecessário a todos. Combatê-los é atitude democrática, cidadã e humanista. Como reagir diante de situações que consideramos injustas? O que você faria, por exemplo, se soubesse que empresas ou órgãos deixam de contratar profissionais competentes só porque são gays, ou tatuados, ou são homens que usam rabo de cavalo e brincos, ou ainda porque são mulheres, ou negros, ou passaram dos 40 anos, ou não têm religião, ou não possuem afinidade ideológica com o chefe? Denunciaria e pressionaria para que reavaliassem regras e conceitos ou, simplesmente, se calaria? Quem lucra com tais julgamentos discriminatórios? Ninguém.

 

A caminhada não é nada fácil, embora, e talvez exatamente por isso, fascinante. É um exercício de constante reflexão, de idas e vindas, de descobertas e “refazendas”, tentando acertar e consertar os erros a cada dia. Sempre argumento que mais grave do que pretender tornar-se uma pessoa virtuosa é considerar-se mais virtuoso hoje do que ontem, ou seja, melhor a cada ano que passa. Uma armadilha que captura até os mais bem intencionados. No exato instante em que me considero melhor que antes, enterro minhas pretensas virtudes no terreno movediço da prepotência e soberba, sentimentos que me afastam cada vez mais da perfeição. Doido demais, não é?

 

Então, como fugir dessa arapuca? Penso que não há muito a fazer. Arrisco sugerir que simplesmente viva e deixe os outros viverem. Em paz. Assim não vai precisar se preocupar em “melhorar”, entende? E, cá entre nós, para que mesmo ser perfeito?

 

Reconhecer minhas inúmeras falhas me traz até certo conforto, pois me recoloca na condição primeira, na minha essência humana. Preciso, contudo, admitir que me orgulho de algumas “vaidades” (quem nunca?) que, felizmente, não sumiram com o tempo: O espírito contestador, a necessidade de extravasar sentimentos ou de expressar-me sem meias palavras. Mantenho ainda de forma intacta a capacidade de me indignar, de provocar e de denunciar. E, principalmente, de amar. Esta última, espero conservar até o fim.

 

22 de julho de 2016

Crônica originalmente publicada no livro coletânea da autora “Viver, simplesmente” [Sete, 2016] 


Parabéns, mãe, e obrigada!

fotoPara minha amada mãe, Clélia Prata, que hoje completa 100 anos de vida

 

A súdita mais leal

A crítica mais cortês

E a mais contestadora

A mais amorosa

A mais cuidadosa

A mais responsável

A mais condescendente

E a mais intolerante

Assim mesmo, passional a gosto

 

Gratidão ao tempo Rei

Que permitiu

Decifrar o não dito

Abrandar impulsos

Sanar dúvidas

Refazer caminhos

Amar como se deve

Sem ressentimentos

Sem cobranças

Sem julgamentos

 

Orgulho sem medida

Dessa mulher, ser humano ímpar

Parabéns pela lucidez centenária

De sofrimentos

E muita felicidade

Obrigada pelos exemplos

Pelos cuidados

Pelo amor

Pelos extremos

Pelos ensinamentos

Por mostrar que a vida

É dádiva

Obrigada por viver tanto!


Não fui pra rua

Estou sozinha no primeiro andar da Casa. Observo, do meu incômodo exílio voluntário, as manifestações “cívicas”. Que multidão é essa, minha gente? De onde vem todo esse ódio? Pessoas que pregam tolerância, compaixão, amor, solidariedade; Líderes que deveriam dar o bom exemplo. Tento entender, não consigo. Falo como cidadã comum que sou, como ser humano falível, não exerço cargo público comissionado, não sou filiada a nenhum partido político, nem votei na Dilma.

Diante de meus olhos assombrados, um festival de horrores Brasil afora.

Jovens espertos aos brados de “Estamos fazendo história”, recusando-se a estudar a história recente do país, de outro 13 de março, há cinco décadas, a apenas dois cliques no seu smartphone.

Adultos cidadãos – e, portanto, esclarecidos – estacionam seus carros nas ciclofaixas das ruas de acesso.

Nostálgicos do golpe de 1964 com faixas “Viva a Revolução!”.

Políticos corruptos com cartazes “Fora Dilma, Lula e PT”.

Empresários corruptores com camisas da CBF. Esses, pelo menos, são coerentes. A entidade máxima do futebol brasileiro está afundada em denúncias escabrosas de fraude, subornos e lavagem de dinheiro, em dobradinha com a “instituição de caridade” Fifa. Hilário, mas é verdade. É assim registrada para fugir dos altos impostos suíços.

Católicos convictos se recusam a sujar as mãos e rogam pela intercessão da virgem, “Nossa Senhora, esmaga a cabeça da Jararaca”.

Gays e “periguetes” fazem fila para tirar foto com um boneco Moro de sorriso escancarado que veste camisa estampando o rosto sereno de Bolsonaro.

Evangélicas, cujas mães, avós e bisavós conquistaram – à custa de humilhação e sofrimento – o direito ao voto e de protestar livremente nas ruas, portam cartazes “O feminismo não me representa”.

Bebês que ainda nem falam, cabecinhas amarradas com bandanas verde-amarelas, posam para selfies, com seus orgulhosos e sorridentes papais e mamães, imediatamente compartilhadas na festa das redes sociais: “Eu fui!”.

Há os sem noção que atiram para todo lado: “Contra tudo o que está errado”, e também aqueles bem-intencionados, creio, embora em número insignificante.

Colegas repórteres da grande mídia nacional, que deveriam esclarecer a população e primar pela verdade dos fatos, manipulam imagens e sonegam informações. Ok, precisam garantir o emprego, mas injúria tem limites. Cadê a dignidade? É constrangedor, humilhante. Nessa hora, sinto vergonha da profissão.

Nas redes sociais, uma foto da belíssima orla de Fortaleza com uma pergunta meio indignada, meio decepcionada: “Por que a Globo não mostrou a nossa manifestação?”. A resposta é simples: Porque não se trata de concurso de cartão postal ou de fotografia. Estamos falando do futuro de uma nação, a nossa.

Recebi inúmeros chamados do tipo “Vem pra rua!”. Não fui.

Quando eu fui pra rua defender o trânsito compartilhado, ouvi comentários irônicos, do tipo “As ruas de Fortaleza são muito estreitas para comportar ciclofaixas”. Pois, sim! Quando eu quis ir pra rua me apossar das calçadas e praças, fui destituída da ideia tresloucada e, mais, incentivada a blindar carro e portaria do condomínio. Quando eu fui pra rua pedir pela não violência e educação pública de qualidade para todos, fui taxada de “petista”, a pior das ofensas contemporâneas.

Antes de protestar nas ruas, vou tentar cumprir, pelo menos, algumas leis básicas de trânsito, como a de não dirigir depois de beber, não estacionar em vagas de idosos, não ultrapassar a velocidade mínima permitida onde não há sensores eletrônicos, não usar o GPS para fugir de blitz da lei seca, não atravessar sinais amarelos. Sabe o lema “Começar por mim”? Esse mesmo! Aquele que nossas mães nos ensinaram na infância e abandonamos não sei em que estágio da vida.

Desci para o térreo. Sem superpoderes para indicar quem quer que seja ao Paredão. Se os tivesse (os superpoderes), mudaria muita coisa. Mantenho, contudo, minhas convicções, pudores e sonhos. De um país mais justo, sem campanhas políticas milionárias, sem troca de cargos públicos como se fossem mercadorias, sem senhores e escravos.

Para concluir, não me pergunte de que lado estou. Não tenho lado, tenho coração e mente. Eu penso e sinto. Só isso.


Sem medo, sem rótulos

Naquela quinta-feira à noite, enquanto desfrutávamos com amigos de momentos agradáveis em nossa casa, em Fortaleza, um grupo de fanáticos acertava os últimos detalhes do que viria a ser o pior massacre na Paris pós-guerra.

 

Trinta dias se passaram desde a sexta-feira 13 de novembro e ainda me custa acreditar na matança de 130 pessoas inocentes e o saldo de mais de 350 feridos, muitos em estado grave. Se já é difícil acreditar, que dirá entender. Não sou capaz, por mais que tente.

 

Igual reação se manifesta em relação à matança de janeiro na redação do Charlie e no supermercado kosher. Mesmo diante das justificativas apontadas equivocadamente por algumas pessoas – as “blasfêmias” contra o profeta Maomé, no caso da barbárie do início do ano –, não há atenuantes racionais para qualquer dos acontecimentos.

 

Atentar contra os símbolos da liberdade, igualdade e fraternidade é desprezar a boa vontade e a capacidade de compreensão do mundo civilizado. Para mim, é aflitivo perceber o desafio que temos pela frente: descobrir formas possíveis de convívio com as diferenças. Ora, se já é difícil aceitar a diversidade de ideias e atitudes entre o nosso círculo íntimo de amizades, como conviver com os diferentes grupos que nos cercam? Mas precisamos tentar. Que tal começarmos pela eliminação de rótulos? “Ele/ela é gay”; “evangélica”; “periguete”; “ateu”; “negro”… As pessoas são mais do que essas rasas designações cuja única função é alimentar o preconceito.

 

Nas comunidades primitivas vivia-se em grupos fechados onde todos tinham o mesmo comportamento, eram motivados apenas por laços afetivos e partilhavam as mesmas crenças. Mas o mundo mudou, brothers, vivemos no século vinte e um, estamos (moradores de Fortaleza) a seis horas e meia de Lisboa e a sete horas de Miami. Isso significa que as distâncias e fronteiras físicas deixaram de ser empecilho para um intercâmbio cultural que só nos enriquece e acrescenta.

 

Não podemos permitir que destruam nossas conquistas democráticas, nosso direito de ir e vir, nossa liberdade de expressão e pensamento. Continuarei planejando estadias no exterior sempre que possível. Continuarei usando o metrô, o ônibus, me apossarei dos parques, ruas e calçadas. Isso vale também para o Brasil. Superar o medo é atitude das mais urgentes.


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