Arquivo da categoria: Jornal AgroValor

Com um pé no Douro (*)

As vindimas do Douro, entre agosto e outubro, são uma verdadeira celebração que se reinicia a cada manhã com a colheita das uvas e termina à noite com a pisa nos lagares

Rio Douro margeando encostas de Lamego cobertas de videiras

Rio Douro margeando encostas de Lamego cobertas de videiras

Na véspera de partirmos rumo ao Douro, norte de Portugal, pedi à minha pedicure: “Fran querida, capriche aí, pois esses pezinhos poderão esmagar as uvas da melhor safra de vinho tinto duriense!”.

Após um pernoite básico em Lisboa para rever velhos amigos, devorar meia dúzia dos inimitáveis pastéis de nata e escalar – de salto (vacilo!) – as ladeiras da Alfama para chorar com os maravilhosos fadistas, pegamos a autoestrada em direção à primeira região vinícola demarcada do mundo, famosa pelos seculares Vinhos do Porto e, mais recentemente, pelos vinhos de mesa. Em quatro horas, incluindo algumas paradas para abastecermos carro e estômagos, o navegador nos deixa nos jardins da bela Quinta da Pacheca, em Lamego, a poucos minutos de Peso da Régua, ou simplesmente Régua.

Vista parcial das parreiras na Quinta da Pacheca, em Lamego, Portugal

Vista parcial das parreiras na Quinta da Pacheca, em Lamego, Portugal

Recepcionados pela bem treinada equipe da vinícola, já fomos fotografando vales e paisagens. Nosso grupo era formado por 22 pessoas de várias partes do mundo, ávidas para conhecer aromas e sabores das castas mais emblemáticas da região, como as tintas Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz, e descobrir “o que é que o vinho do Douro tem”.

Ricardo de Santos, consultor da vinícola, conduzindo a prova de vinhos

Ricardo de Santos, consultor da vinícola, conduzindo a prova de vinhos

Por volta das 7 da noite, sol ainda esperto, compartilhamos longas mesas de madeira ao ar-livre, de frente para encostas cobertas de parreiras a perder de vista. Começa a prova de vinhos de mesa do Douro e Porto Vintage, conduzida pelo escanção (designação portuguesa para sommelier) Ricardo de Santos. Parênteses: Em Portugal, aprendi a lição há alguns anos ao perguntar pelo shopping mais próximo: “Aqui falamos português, senhora, o ‘centro comercial’ fica logo ali!”.

Em breve explanação sobre o Vinho do Porto, Santos esclarece algumas dúvidas recorrentes, como a de que “garrafa aberta é garrafa consumida”. Dependendo do tempo de envelhecimento, “o Vinho do Porto pode ser consumido até um ou dois anos depois de aberto, caso dos Tawnies 20 anos. Os de 10 anos suportam até seis meses abertos”. A classificação por idade do famoso licoroso, de acordo com o consultor da Pacheca, é subjetiva e obedece a regulamentos próprios. “Não se trata de idade real, 20 anos significa que o vinho se encaixa em determinadas características”.

Mais perguntas surgem entre os participantes. “E o que diferencia o Vintage e LBV (Late Bottled Vintage) dos outros vinhos do Porto?”. Santos responde relembrando uma passagem familiar: “Meu avô dizia que Vintage é quando Deus quer; os outros é quando o enólogo quer”. A última safra declarada oficialmente Vintage – um conceito de “perfeição” –, foi a de 2011. Vintage e LBV pertencem à categoria Ruby, vinhos que envelhecem bem em garrafa, sendo que a chamada “joia da coroa”, o Ruby Vintage, fica os primeiros vinte meses em barril para depois concluir o envelhecimento em garrafa; já o Ruby Late Bottled Vintage, como a tradução sugere, é engarrafado bem mais tarde – após quatro a seis anos em barril – e destinado a consumo imediato. A segunda categoria de Vinhos do Porto, quanto ao estilo de envelhecimento, pertence aos Tawnies, que ficam em barril por período superior a cinco anos até quarenta anos. A região, segundo Silva, conta com 33 mil produtores. “Os pequenos sobrevivem através da venda de uvas para os grandes”. A maioria da produção (60 % a 70 %) é “exportada para a França”, confirma o consultor.

Um dos grupos pisando uvas nos lagares da Quinta da Pacheca

Um dos grupos pisando uvas nos lagares da Quinta da Pacheca

Entre um copo e outro de branco, tinto e Vintage, nessa ordem, fomos “pegando energia”, nas palavras de Santos, para o que viria a seguir. O consultor referia-se à lagarada, uma das etapas mais esperadas da visita. Vestimos padronizados calções de brim azul, em vestiários improvisados – masculino de um lado, feminino de outro –, protegidos por singelos biombos, o que não representou qualquer problema, àquela altura a química do vinho já havia transmutado severos códigos sociais. Largamos tudo no chão e nos cabides e corremos para os lagares, portando apenas smartphones e câmeras. Impensável não registrar um momento único como aquele.

Violeiros garantem a animação da pisa da uva com músicas típicas

Violeiros garantem a animação da pisa da uva com músicas típicas

Animados violeiros nos aguardam ao redor das duas fileiras de uma dezena de enormes tanques de pedra, cada um com capacidade para uma dúzia ou mais de pessoas, garantindo coreografias originais a quem se aventurar a imergir pernas e coxas em toneladas de uvas colhidas naquela mesma manhã. Há até quem arrisque passinhos do folclórico vira. Todos, sem exceção, vão abandonando o que ainda resta de timidez e cada tanque se transforma em uma grande celebração. O casal de brasileiros Anete Borella, professora, e Alessandro Paiva, analista de sistema, de Jundiaí (SP), está em viagem de lua de mel. “Eu me emocionei com a pisa nos lagares”, afirma a simpática Anete.

Celma Prata, do AgroValor, em um dos lagares, com o casal paulista, Anete Borella e Alessandro Paiva, que viajava em de lua de mel

Celma Prata, do AgroValor, em um dos lagares, com o casal paulista, Anete Borella e Alessandro Paiva, que viajava em lua de mel

Embora existam atualmente tecnologias ultramodernas que simulam a pisa a pé, a Quinta da Pacheca conserva o modo milenar e artesanal, considerado essencial para se extrair ao máximo a cor e taninos da casca da uva. O processo completo de fabricação é fiscalizado pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), órgão público situado em Peso da Régua, responsável pelo controle da qualidade e quantidade dos vinhos do Porto, e pela proteção das denominações de origem Douro e Porto.

Adega onde foi servido o requintado jantar ao som da fadista Cristina Marques e guitarristas

Adega onde foi servido o requintado jantar ao som da fadista Cristina Marques e guitarristas

Perto das 9 da noite, recebemos jatos coletivos de água nas pernas coloridas de mosto e, recompostos, somos conduzidos, longa escadaria abaixo, até a gigantesca adega da quinta para um superbanquete regado a muito vinho e show ao vivo da jovem fadista Cristina Marques e guitarristas, de Peso da Régua, dentro do projeto “Castas do Fado”. Cinco mesas quadradas, muito bem postas, de doze lugares, cada, recebem fartas porções de patanisca de bacalhau, arroz de pato, embutidos, pães artesanais, sobremesas, cafezinho e Vinho do Porto. Um regalo! O casal lisboeta, Sofia e José João Fonseca, estreava na lagarada em comemoração às suas bodas de prata. “É a nossa primeira vez na pisa, achamos muito giro!”, dispara a feliz Sofia. A animada mesa ao lado celebrava em família “o meio século do senhor Joaquim, como se diz na Régua”, anunciava repetidamente Cristina, entre um fado e outro.

Sofia e José João Fonseca, de Lisboa, estreavam na lagarada em comemoração às suas bodas de prata

Sofia e José João Fonseca, de Lisboa, estreavam na lagarada em comemoração às suas bodas de prata

Passava das 23 horas quando nos despedimos. Após demorado banho, deito na esperança de um dia me deliciar com o vinho feito por esses pezinhos que ainda não desbotaram totalmente. Franzinha, só você pra dar um jeito!

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Agradecemos à equipe da Quinta da Pacheca pela forma gentil com que fomos recebidos.
http://www.quintadapacheca.com

(*) Matéria publicada originalmente no Jornal AgroValor_Edição_115_setembro_2015
http://www.agrovalor.com.br

Crédito fotos: Celma Prata/AgroValor


O lado atrevido da ‘Foire’ (*)

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A velha dama se renova e se deixa seduzir pelos prazeres que fizeram a fama da cidade do amor e dos amantes

O espaço ocupou irrisórios três por cento da área total da Feira Internacional de Paris (‘Foire de Paris’), exposição que acontece há 110 anos na capital francesa, durante doze dias, entre final de abril e começo de maio, mas foi o suficiente para dar uma sacudida no esqueleto centenário de um dos principais eventos da Ville Lumière.

Proibido a menores de 16 anos, o estreante ‘Espace Coquin’ (‘Espaço Atrevido’, em tradução livre) destinava-se a adultos interessados em conhecer e testar as novidades que podem dar uma apimentada nas relações amorosas entre quatro paredes.

No comando do local, uma jovem representante do colunismo erótico francês, Camille Emmanuelle, 33, que havia acabado de lançar, em Paris, um pequeno guia da capital francesa (‘Paris-Couche-Toi-Là’, ainda sem tradução para o português, algo como ‘Paris na Cama’), com cerca de sessenta endereços sugestivos de prazer e sedução. A moça garante que testou todos eles, de cursos e estabelecimentos de lazer a produtos, filmes e livros.

Em entrevista à CB News, Camille afirma que tem observado, nos últimos tempos, uma busca por maior equilíbrio no campo sexual. “As pessoas não querem mais sexo-tabu, mas também não querem sentir prazer sexual a qualquer preço, induzidas por publicidades fantasiosas, como ter três amantes, cinco orgasmos por dia ou 23 brinquedinhos sexuais. Os casais [hetero ou homo] procuram informações claras, simples e sem culpa.”

A pitada de ousadia na tradicionalíssima feira teve a total aprovação daqueles mais afoitos que não hesitaram em cruzar a criativa fachada produzida pelo designer Fred Bernard, o mesmo que ilustrou a obra de Camille. “É uma boa ideia! Mesmo que se possa encontrar sextoys na Internet, aqui a gente pode tocá-los e testá-los”, foi o comentário de uma visitante na faixa dos 40 anos.

No recinto ‘atrevido’ podia-se encontrar de brinquedos eróticos e cremes afrodisíacos a lingeries sensuais e livros temáticos para despertar a sensualidade que, segundo Camille, corre sério risco de ficar adormecida diante da correria e da mesmice do cotidiano. Junto às demonstrações das marcas expositoras, o erotismo também embalava shows de humor e magia, aulas de iniciação à pole dance e oficinas de escrita, leitura e poesia para os curiosos visitantes.

Curiosidade saciada e sensualidade despertada, é hora de explorar os outros noventa e sete por cento da “Foire”, como a exposição é chamada familiarmente pelos parisienses.

Sinalização colorida no piso e esteiras rolantes facilitam o passeio pelos cinco continentes. Os números são superlativos. Cerca de mil expositores com 3.500 marcas dispostas em uma área coberta de 220 mil m2. Mais de seiscentos mil visitantes absorvendo as últimas tendências em decoração, artesanato, moda, lazer e gastronomia, das mais diversas procedências. Sofisticação e tecnologia nas cozinhas planejadas e nas coberturas retráteis para piscinas. Mimos franceses feitos à mão, como as marionetes réplicas do ‘Gato de Botas’ ou do ‘Lobo Mau’, bonecas com cabeça e membros em porcelana e tronco em seda pura, além de delicadas luminárias de mesa ao estilo da norte-americana Tiffany. Sessenta shows musicais divertem os mais animados.

Enquanto pequenos grupos observam as talentosas mãos, em ação, de artistas plásticos e artesãos de vários países, outros degustam os melhores vinhos, destilados, queijos, embutidos e patês do mundo. E os divinos chocolates belgas. E as levíssimas crêpes e galettes francesas. Ofertas gastronômicas tentadoras, em torno de R$ 25, como o sanduíche (na baguette francesa, bien sûr!) de foie gras de pato, de Landes, acompanhado de uma taça de vinho branco Pacherenc de Vic Bilh, ambas regiões ao sudoeste da França.

Para Carine Preterre, diretora do evento, a Feira Internacional de Paris reúne tanto as grandes inovações como as pequenas curiosidades do mundo, “que tornam a vida mais bonita, útil e agradável”, declarou por ocasião da abertura prestigiada por Anne Hidalgo, em seu primeiro ato oficial como prefeita recém-eleita de Paris.

Espera-se que o ‘Espace Coquin’ tenha vindo para ficar. Ano que vem, quem sabe, novas filas de ‘atrevidos’ se formarão, ansiosas para desafiar a rotina e manter a sensualidade sempre alerta.

Como acontece desde a fundação do AgroValor, em 2006, este veículo mais uma vez se fez presente ao evento parisiense que cresce a cada edição. O toque indesejado deste ano ficou com a suspensão de ingressos-cortesia para a mídia estrangeira. Seriam os novos e rigorosos ventos econômicos europeus?

PROGRAME-SE PARA 2015
Feira Internacional de Paris
29 de abril a 10 de maio
Parque de Exposições da Porta de Versalhes
http://www.foiredeparis.fr

(*) Artigo de Celma Prata, originalmente publicado na Ed. 102 (agosto/2014), do jornal AgroValor
Ilustração: Lincoln Souza


Thiago Amazonas de Melo

Não acreditem em nada do que eu digo aqui. Isso não é um diário. Eu minto.

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