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Sessentíssima

Enquanto organizo o material para a coletânea que marcará minhas seis décadas de vida, acompanho nos textos o passar dos anos. É interessante observar as mudanças – positivas ou não – em nossa trajetória. Uma evolução natural.

 

Aos 60, uma pessoa é considerada nova ou velha? Depende do referencial. Na linguagem dos meus amigos mais velhos, sou um “broto”; Para os mais jovens, sou “coroa”; Pelas leis brasileiras, sou “idosa”. E haja rótulos.

 

Dia desses, fui taxada pejorativamente de “petista”. Já me pregaram também etiqueta de “ateia”. Ni l’une ni l’autre, apenas tenho um cérebro, leio sobre tudo e por isso desenvolvi algo que se chama visão crítica e racionalidade. Simples assim. Aliviada, lembro que sou feita igualmente de afeto, matéria que me mistura definitivamente ao outro.

 

Além dos tolos e dispensáveis rótulos, incomoda-me profundamente comentários simplistas ou pensamentos reducionistas sobre temas complexos, como a maneira individual de perceber o mundo e as pessoas.

 

Recentemente, uma frase nas redes sociais me chamou a atenção: “O que muda na sua vida se José ama Joaquim?”. O mesmo conceito pode ser estendido a outras áreas. O que muda na sua vida se sua amiga branca se relacionar com uma pessoa negra? O que muda na sua vida se o seu amigo rico se casar com uma moça pobre? Ou se a mãe divorciada de 50 anos da sua amiga namorar um garotão de 30? O que muda na sua vida se uma mulher na praia tirar a parte de cima do biquíni? Você, que idolatra artistas que exibem piercings e tatuagens, por que reage mal diante de familiares e amigos que usam idêntico estilo? O que muda na sua vida se o seu novo vizinho é imigrante, ou muçulmano, ou ateu, ou evangélico, ou católico, ou obeso, ou anão, ou deficiente físico/ mental, ou gosta de bichos? Em que isso lhe prejudica? A mim, absolutamente nada.

 

Os preconceitos nos sufocam e trazem sofrimento desnecessário a todos. Combatê-los é atitude democrática, cidadã e humanista. Como reagir diante de situações que consideramos injustas? O que você faria, por exemplo, se soubesse que empresas ou órgãos deixam de contratar profissionais competentes só porque são gays, ou tatuados, ou são homens que usam rabo de cavalo e brincos, ou ainda porque são mulheres, ou negros, ou passaram dos 40 anos, ou não têm religião, ou não possuem afinidade ideológica com o chefe? Denunciaria e pressionaria para que reavaliassem regras e conceitos ou, simplesmente, se calaria? Quem lucra com tais julgamentos discriminatórios? Ninguém.

 

A caminhada não é nada fácil, embora, e talvez exatamente por isso, fascinante. É um exercício de constante reflexão, de idas e vindas, de descobertas e “refazendas”, tentando acertar e consertar os erros a cada dia. Sempre argumento que mais grave do que pretender tornar-se uma pessoa virtuosa é considerar-se mais virtuoso hoje do que ontem, ou seja, melhor a cada ano que passa. Uma armadilha que captura até os mais bem intencionados. No exato instante em que me considero melhor que antes, enterro minhas pretensas virtudes no terreno movediço da prepotência e soberba, sentimentos que me afastam cada vez mais da perfeição. Doido demais, não é?

 

Então, como fugir dessa arapuca? Penso que não há muito a fazer. Arrisco sugerir que simplesmente viva e deixe os outros viverem. Em paz. Assim não vai precisar se preocupar em “melhorar”, entende? E, cá entre nós, para que mesmo ser perfeito?

 

Reconhecer minhas inúmeras falhas me traz até certo conforto, pois me recoloca na condição primeira, na minha essência humana. Preciso, contudo, admitir que me orgulho de algumas “vaidades” (quem nunca?) que, felizmente, não sumiram com o tempo: O espírito contestador, a necessidade de extravasar sentimentos ou de expressar-me sem meias palavras. Mantenho ainda de forma intacta a capacidade de me indignar, de provocar e de denunciar. E, principalmente, de amar. Esta última, espero conservar até o fim.

 

22 de julho de 2016

Crônica originalmente publicada no livro coletânea da autora “Viver, simplesmente” [Sete, 2016] 


Carta para Theo

Você ainda não pode entender o significado das palavras, mas já é capaz de sentir a intensidade do amor e de como é maravilhoso chegar a um lugar onde se é muito bem-vindo.

Nesses últimos seis meses, você vem, a cada dia, conquistando novas liberdades. Comovo-me com o seu enorme esforço na tentativa de se sustentar sobre mãos e joelhos rechonchudos a fim de explorar objetos, espaços e distâncias que devem lhe parecer gigantescos e instransponíveis. Sei, é duro, mas é também estimulante e desafiador.

Agora está prestes a conhecer o sabor de novas comidinhas que provavelmente lhe acompanharão por toda a vida. Veja a mim, beirando os sessenta, e não vislumbro outro jantar que não seja a minha deliciosa e saudável sopinha. Ainda que seja só de segunda a quarta. Portanto, é melhor que se acostume logo e para sempre.

O mundo é cheio de contradições, meu lindo Theo, mas é também um lugar de muitas alegrias. E de tomadas de decisão também. Você terá que fazer escolhas simplistas, entre o Bem e o Mal, por exemplo, mas a maioria delas passa longe do maniqueísmo limitador. Falo de coisas mais práticas, do dia a dia, como ter que optar entre esportes radicais e meia maratonas, entre filmes europeus e americanos, entre música pop e eletrônica, entre esquiar e “snowboardear“, entre curtir uma praia ou velejar no mar a sessenta por hora, entre jornalismo e direito. Na dúvida, tente um meio termo, o seu próprio. Pode radicalizar também, mas que seja temporário, dê logo um jeito de se aprumar novamente.

E quando ganhar um irmãozinho ou irmãzinha, cuide bem dele ou dela, briguem, mas não demorem a fazer as pazes, ame-o/a, ele ou ela estará sempre ali, ao longo da caminhada. E se o/a irmãozinho/a não vier, “adote” o/a primo/a, o/a colega da escola ou o/a amigo/a da natação. Não queira viver sem amigos. Esforce-se, pelo menos. A amizade é algo nobre, que nos deixa mais vivos.

Estude, leia muito, adquira cultura, viaje, abra a mente, livre-se dos preconceitos de toda espécie, descubra as diferentes formas de vivência tão ou mais interessantes que a sua. Concordo, nada é garantido, a vida não é um tratado de lógica, mas quem foca nos objetivos aumenta as chances de cruzar de vez em quando com a tão almejada “sorte”.

No futuro, escolha alguém sensível para construir um projeto de vida em comum, que valorize coisas que o dinheiro compra, mas também aquelas que esnobam o vil metal. E, sim, tenha filhos, biológicos ou não, a maior prova de que você acredita na humanidade e mantém a esperança na existência.

O conselho a seguir vai ser fácil, fácil, basta deixar fluir a vocação: amplie sua família com, pelo menos, um bichinho de estimação. Toda a sua autossuficiência humana e racional ainda não bastará nos momentos de fragilidade que certamente virão.

Ia esquecendo! Acredite em Papai Noel, a metáfora-mãe de todas as miragens e ilusões. Mas, à medida que for atingindo graus crescentes de maturidade, liberte-se de todas elas. Quando restar apenas você e você, aí sim, terá conquistado a tão sonhada plenitude. E não precisa ficar angustiado por isso. Garanto-lhe que vale a pena!

Para terminar, cuide da saúde, não fume e beba “moderamente” (acho horrível essa palavra, mas todo conselho tem um quê de caretice, ainda mais vindo de vó).

Vida longa e saudável para você, meu neto amado!


Que delícia de cama!

A cama é o melhor lugar para se fazer amor. Mais confortável, pelo menos. Se é que alguém pensa em conforto nessa hora… Mas, enfim, a meu ver, ainda não inventaram local mais adequado. E para dormir, também.

Quem está apostando que eu estou querendo mesmo é abordar finalidades menos óbvias para a cama… Bingo!

Basta acompanhar o folhetim global das nove da noite (pronto, falei, sou noveleira de crachazinho, assumo) para ver a delícia que é se esparramar sobre uma super king size com as irmãs, filhas ou amigas, para falar bobagens, rir ou, mesmo, chorar. Não que não se possa, eventualmente, juntar marido, filhos e irmãos, mas esse é um universo, preferencialmente, feminino.

E de universo feminino, o Maneco (Manoel Carlos, o autor da novela) entende. Os homens do Maneco nunca têm o mesmo carisma das mulheres. Engana-se quem pensa que é pura jogada de marketing para fisgar o público de novela, que se presume ser predominantemente feminino. Essa ideia é coisa do passado. Hoje, os homens curtem tanto quanto.

Para o autor de “Em Família”, que afirma ter sido criado só por mulheres e ter tido um excelente pai-ausente, as relações femininas são mais ricas e importantes que as masculinas. Além disso, ele acredita que as mulheres são bem mais confessionais que os homens, estes não querem – ou não conseguem – verbalizar o que sentem.

Talvez venha daí a importância da “cama-amiga” nos cenários das suas novelas, atuando como personagem na trama. As mulheres da família da atual protagonista estão sempre se reunindo na cama para bater papo, os mais diversos. No início, eram apenas as três irmãs. Agora, passados vinte anos na história, entraram no clima outras personagens.

As cenas são adoráveis! Diante delas, me reporto ao passado. Que menina adolescente nunca passou horas a fio com as amigas na cama narrando os acontecimentos da festinha da noite anterior? E ao presente: não conto as vezes que fiquei – e ainda fico, quando a vida nos permite – conversando com minha filha na minha cama.

Funciona mais ou menos como um “divã-rosa” de psicanalista, com três enormes vantagens: as “sessões” não têm hora nem dia marcados para acontecer; você não precisa anotar na agenda algo que lhe afligiu demais naquele dia e que, muitas vezes, na semana seguinte já perdeu a importância. E a terceira, é “de grátis”!


Seis ponto zero ou “uma espécie de amor que nunca morre”

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Se tudo correr conforme o esperado, dentro de dois anos e meio completo sessenta anos de existência. Mas não é de mim que quero falar.

Comemoramos ontem os 60 anos de uma pessoa muito querida. Ao assistir ao vídeo produzido por amigas de juventude da aniversariante, pude perceber o que representam seis décadas na vida de alguém.

Aquela garota das imagens na tela, tão leve e despreocupada quanto as duas lindas crianças presentes à festa, vai assumindo novos papéis: de namorada, de mulher, de esposa, de mãe, de sogra, de novamente companheira do marido, só os dois…

Mas o que realmente me chamou a atenção foi que, na grande maioria das imagens, os amigos estavam presentes. Os mesmos. Primeiro, em grupos de jovens, depois, todos com filhos pequenos, em seguida, adolescentes e, por fim, adultos. E retornam os grupos de amigos, agora pessoas já maduras, em casais ou só as mulheres.

A única conclusão a que se pode chegar é que a amizade é, realmente, “uma espécie de amor que nunca morre”, como registrou, com sabedoria e sensibilidade, o jornalista e escritor gaúcho Mário Quintana, em uma das crônicas reunidas na coletânea “Porta Giratória”.

Parabéns, querida Sílvia, que você continue cultivando sentimentos sublimes. Felicito também suas amigas de longa data e as mais recentes também, onde me incluo. Sinto-me gratificada em, nesses quase dez anos, fazer parte desse universo maravilhoso que se chama ‘Amigas Para Sempre’.

Beijos.


Luz, luminosa, lúcida, Lúcia…

Há quem defenda que são os nomes que nos escolhem. E não o contrário. Quem conheceu a jovial senhora de Messejana confirma a tese sem necessidade de testes científicos.

Nada é inédito ou superlativo quando se trata dessa “grande dama”, “verdadeira instituição”, “senhora da história”, “sábia”, “iluminada”, “forte”, “acolhedora”…

Mesmo que tudo já tenha sido dito, tenho algo particular a acrescentar. Sua maior qualidade era fazer com que cada um se sentisse único. Não me refiro à arte de receber a todos indistintamente. Isso ela também sabia fazer como ninguém, sempre generosa em sua mesa, gestos e palavras.

Foi dela o primeiro telefonema de parabéns pelo meu último aniversário. Ligou-me às oito da manha, eu estava tomando café. Perguntou pelo meu marido, meu filho, minha nora, minha filha e meu genro, citando todos os nomes. “Será que ela fica consultando uma agenda com os nomes?”, eu me perguntava, cismada. E repetia o teste. De vez em quando eu telefonava de surpresa e ela já ia debulhando toda a família. Admirável!

A última vez que subi os degraus da varanda da casa da lagoa em direção à sua cadeira de balanço, de onde liderava tudo e a todos com firmeza e carisma, sua saudação soou forte e acolhedora: “Ô, minha filha, estava com uma saudade danada de você!”

Sei que cada um que a conheceu tem uma ou várias passagens para provar o quanto privava da sua amizade. Não importa… Mas comigo bem que era diferente. Eu era única!

Quem fica com saudade sou eu, somos nós, dona Lúcia. Para sempre.


De madame à doméstica

Você ainda é jovem, saudável, sem deficiência física ou outras necessidades especiais, sem filhos ou idosos dependentes em casa… Então, para que depender de empregados domésticos?

Se alguém me fizesse uma pergunta dessas um ano atrás, eu mandaria o inquisidor para o centro da fogueira de uma faxina doméstica.

Conversando ontem com uma querida amiga sobre minhas aventuras na minha mais nova função, demos boas risadas e resolvi registrar aqui minha evolução na arte de cuidar de uma casa, sem descuidar de mim e da minha profissão.

Corria de tarefas do lar como o diabo da cruz. Fazer a cama? Nunquinha! Limpar a gordura do fogão depois de uma fritura? Nem pensar! Preparar uma simples salada crua? No way! Colocar a roupa suja na máquina ‘lava e seca’? E a louça suja na lavadora? Cortar as frutas? Esquentar um congelado para almoçar ou jantar? Fazer a feira? E por aí vai… Cada pergunta dessas equivalia a um calafrio na espinha. Thriller!!!

Apesar de já ter morado em países que, há muito, libertaram as suas escravas domésticas, eu não sabia o que era ficar sem uma no Brasil. Até que minha última funcionária resolveu se casar e não trabalhar aos sábados. Sugeri, então, que fosse cuidar da própria casa, que eu cuidaria da minha. Nada a ver com a PEC que aterroriza as madames brasileiras. Foi bem antes.

O fato é que, há seis meses, me vi órfã e desamparada, mas decidida a conquistar minha autossuficiência doméstica. Reequipei a cozinha com todos os eletros modernos, me informei sobre congelados, reaprendi a fazer arroz, comprei luvas e dúzias e dúzias de papel-toalha.

Fiz workshop de tudo. A primeira vez que tentei vestir o edredon da minha cama super king size, me enrolei toda e sumi no meio de capas e panos. “Cadê você?”, meu marido gritou de lá. “Aqui, dentro do edredon!”, respondi sufocada. E o arroz ficou salgado… Tinha esquecido do poder desse pozinho. Uma colher das de sobremesa, e duas semanas de arroz foi todo pra lixeira. Enchi demais a lavadora de roupa, quando cheguei para almoçar, a cozinha estava alagada. Meu marido esqueceu o grill ligado e o apartamento quase incendiou. Esses fabricantes não entendem nada de rotina doméstica, como é que produzem um troço que não se autodesliga? Se alguém souber de alguma sanduicheira inteligente, compartilhe a dica, please!

Criada e (des)educada para não entrar na cozinha, tive que lutar por meus direitos domésticos. Estou a cada dia mais ‘safa’ e independente. Permaneço apenas com uma quinzenalista para limpar as vidraças, tirar o excesso de pó dos móveis e piso, além de passar o aspirador nos tapetes, porque nesses quesitos não obtive a média necessária. Fui reprovada com louvor!


Eu nasci há 17 anos

Fui adotada, aos dois meses de idade, por uma família que me acolheu com muito amor.
Fui recebida por uma menininha de 10 anos, que me pegou no colo e me deu o carinho que todo ser necessita.
De todos de casa, recebi afeto, cuidados, alimentos, remédios e ensinamentos.
Eu os vi indo embora por um tempo.
Eu os vi voltar para sempre.
Compartilhei todos os momentos, tristes ou alegres, da minha ‘família’.
Eu vi meu ‘irmão’ tornar-se homem feito, namorar, ganhar a vida e se casar.
Eu vi minha ‘irmã’ trocar os brinquedos pelas festinhas, se formar e se casar.
Eu vi meu ‘avô’ falecer.
Eu vi minha filhinha ir-se para sempre.
Eu vi meu ‘pai’ fazer 60 anos.
Vivi momentos marcantes do meu país e do mundo.
Eu vi um índio Pataxó ser queimado vivo por cinco jovens da classe média alta de Brasília.
Eu vi o Brasil e o ‘Fenômeno’ amarelarem na Copa de 1998, enquanto eu dava à luz.
Eu vi a virada do milênio e o Bug ser transformado em piada.
Eu vi a esquerda política brasileira eleger e reeleger, democraticamente, um Presidente da classe operária.
Eu vi o atentado às Torres Gêmeas.
Eu vi o Brasil, finalmente, ser pentacampeão mundial de futebol em 2002.
Eu vi ser eleito o primeiro Presidente negro dos EUA.
Eu vi a crise financeira dos EUA e da Europa respingar por todo o planeta.
Eu vi ser eleita a primeira mulher Presidente do Brasil.
Dei muito trabalho, chateações, preocupações, essas coisas comuns a todos os ‘filhos’, principalmente quando estava apertada e não dava tempo de chegar ao ‘banheiro’.
Mas eles sempre me fizeram sentir amada, respeitada e me fizeram acreditar que eu lhes dava muita, muita alegria.
Até das pessoas que não curtiam muito o meu jeito de ser, tive demonstrações de afeto.
Fiquei idosa, cansada, frágil e doente. Sentia-me como se tivesse 120 anos e os médicos garantiam que tinha mesmo.
Não chorem, não lamentem pelo que deixaram de fazer ou não puderam fazer, lembrem-se de mim com alegria, é a melhor forma de me homenagear.
Da sempre de vocês,
Buba
foto (15)


Viver, simplesmente

Desculpem, sei que o tema não é dos mais felizes para um domingo, mas a vida é feita de alegrias e tristezas… Há vários dias – semanas, talvez – que havia escrito essas linhas e me faltou ânimo para postá-las. Talvez porque quando escrevemos assumimos responsabilidades éticas, e sei bem o peso do que isso significa… Enfim, divido agora com vocês os meus inquietantes pensamentos…

Ultimamente, tenho me tomado de reflexões sobre o melhor modo de levar a vida. Se o das pessoas que não se apegam a nada ou ninguém, ou se o daquelas que se achegam a tudo e todos, seja um filho, um neto, um animal de estimação, uma prática religiosa ou esportiva, uma profissão, um hobby, um amigo, aos pais, enfim, a qualquer coisa ou ser que esteja ao seu alcance.

Viver desapegadamente para não sofrer com afastamentos ou viver intensamente e sofrer – mais intensamente ainda – com os afastamentos inevitáveis? Fiz essa pergunta dia desses para alguém bem próximo e a singeleza da resposta me surpreendeu: “Viver, simplesmente”.

Quem primeiro definiu o ciclo vital dos seres vivos (nascem, desenvolvem-se, reproduzem-se, envelhecem e morrem) esqueceu de inserir uma palavrinha sugestiva de ‘possibilidade’ entre a exatidão dos verbos. Quem garante que o ser vivo – seja gente, bicho ou planta – vai morrer só depois de velho? A lógica é que tudo que nasce, morre, seja novo ou velho. É tão óbvio!

Então, por que esse enorme sofrimento gerado pela condição natural de finitude? Dizem que só as mentes doentias convivem com tranquilidade ante a certeza da morte. Da sua própria e da dos outros. E a questão se agrava mais ainda quando se trata de mortes prematuras. Ou seja, o que não se aceita é morrer jovem. Velho pode.

Os episódios que desencadearam essas perturbadoras considerações foram duas recentes cerimônias fúnebres: de um homem quase centenário e de outro mal saído da adolescência. A comoção era inversamente proporcional ao tempo de vida dos dois. Na missa do velho, os filhos, netos e bisnetos – e alguns amigos – rezavam serenamente. Na do jovem, a igreja estava repleta de pessoas desesperadas e inconformadas.

Como foi possível à humanidade evoluir a ponto de aceitar, com naturalidade, o falecimento de pessoas idosas, mas quando se trata da morte de crianças e jovens, ainda não conseguimos sair do jardim de infância? “É porque foge à ordem natural da vida!”, alguém pode dizer. Mas a ordem natural é somente uma: nascer e morrer. A distância entre esses dois pontos não está garantida em nenhum manual de sobrevivência. Então, por que não há uma preparação para aceitar? Seria o caso de criar disciplinas nas escolas sobre o tema para acabar com esse medo irracional até da palavra ‘morte’ e do que ela significa?

A Tanatologia, ciência relativamente nova que estuda a nossa relação com as perdas – incluída aí a mais traumática delas: a morte –, afirma que o sentimento ou ‘luto’ causado pelo desaparecimento de um ente querido – potencializado, quando em caso de mortes prematuras – lidera a lista dos maiores sofrimentos de grande parte da humanidade. Mesmo para os que afirmam crer na eternidade da alma, a dor da perda – de um filho, por exemplo – é insuportável e, muitas vezes, insuperável.

O fato é que a morte ainda é um grande tabu para a cultura ocidental contemporânea. Não conseguimos lidar bem com ela. É tudo, menos ‘natural’. Há pessoas que não gostam nem de pronunciar o vocábulo de cinco letrinhas, que vão substituindo por expressões populares, algumas até engraçadas: “entregar a alma a Deus”, “derradeira viagem”, “a indesejada da gente”, “virar estrelinha”, “ir pro céu”… E haja um caminhão funerário de ‘eufemismos’ meio tortos.

Quanto mais evoluída a ciência, quanto mais descobertas, menos se aceita que a vida tem um ciclo que vai ser cumprido de qualquer jeito. Essa é a condição humana que equipara todos nós.

Ao sair da missa de 7º dia do velho senhor, ouvi um comentário que tive que concordar: “Morrer velho, nem os filhos choram…”. E eu já me transportava quarenta anos à frente, vendo meus filhos não derramarem uma lágrima sequer no meu velório. Mas por que isso me incomodou? Não chorar, não se desesperar com a morte, não seria o ideal? Caramba! Seria maravilhoso se conseguíssemos alcançar essa serenidade.

Foi quando lembrei de um trecho do romance “O Vendedor de Sonhos”, do psiquiatra e escritor Augusto Cury, quando o personagem principal dá um ‘choque de lucidez’ nas pessoas que choravam inconformadas em um velório, ao afirmar que o desespero não honra quem partiu. Em vez disso, deve-se relembrar suas ações e o que significaram na vida de cada um. Esta, sim, uma verdadeira homenagem.

Sei, alguns podem dizer que isso é papo de autoajuda, até concordo, mas que faz sentido, faz. O luto nunca vai deixar de existir, é claro! Então, não seria razoável que as pessoas seguissem vivendo suas novas realidades sem tanto sofrimento? A vida nos reserva muitas delas.

Não me sinto imune, e também não escondo o medo, mas gostaria muito de aprender a encarar a morte de uma forma mais natural. Aceitar que tudo se acaba, que nada é para sempre. E viver, simplesmente.


Para elas, para nós

Ontem almocei com amigas queridas. Era o dia atribuído às mulheres e sua luta por igualdade.

Recebi flores virtuais, várias mensagens positivas, e até uma foto com o Richard Gere segurando… O quê mesmo? Ah! Uma rosa vermelha… Também, com um mensageiro desses, quem presta atenção na flor, né? Brincadeirinha, viu, marido?

Passamos ótimos momentos, escutei histórias interessantes, conversamos sobre essas coisas que as amigas falam: família, filhos, companheiros, bichos de estimação, viagens, só amenidades.

Comentei que ainda precisamos de muitas conquistas que realmente justifiquem tanta comemoração. Salários equiparados aos dos homens, por exemplo, para ficar só no campo financeiro. E maturidade por parte de ex-companheiros para aceitar o final dos relacionamentos sem ter que atentar contra a vida da mulher.

Uma das amigas lembrou que já conquistamos muito. É verdade. E pude constatar isso, horas depois, ao assistir o último capítulo da telenovela das seis horas de uma rede de tevê. No folhetim de época (início do século 20), a jovem mãe solteira teve que esconder a maternidade até do próprio filho, para que todos pudessem viver em paz – ela inclusive. E a orgulhosa e perversa baronesa adúltera, que merecia todos os castigos – mas aqui não se trata disso –, foi exilada à força pelo marido traído, sem as roupas caras e as joias idem, nos confins do sertão.

Realmente muita coisa mudou desde então, embora muita gente ainda não saiba o porquê desse Dia Internacional da Mulher. Há mais de 150 anos, uma centena e meia de operárias nova-iorquinas foram trancadas na fábrica onde trabalhavam e queimadas pelos patrões, com a conivência da polícia, por reivindicarem condições de trabalho mais parecidas com as dos homens e jornada diária de dez (!) horas. Era o dia 8 de março de 1857.

Meu desejo é que nunca seja esquecida a luta daquelas mulheres – e de outras ativistas de todos os tempos – pelos direitos de todas nós. Direitos simples, como o de escrever sobre o tema, sem ter que pedir permissão ao pai, irmão, namorado ou marido. Todas as mensagens e flores são para elas.


Letícia, a única inocente

Classificaram o episódio de “fatalidade”. Fatalidade significa, de acordo com os dicionários, “destino inevitável”.

Responsabilizaram a Prefeitura, o motorista do ônibus que atropelou (e fugiu, apavorado, depois se apresentou às autoridades), a empresa de ônibus (que continuou rodando o veículo), o transporte alternativo precário (as tais vans ou topics sem qualquer segurança para os passageiros) e a via pública sem sinalização adequada.

Querem encontrar culpados? Comecemos pelas regras (ou a ausência delas) das escolas públicas, que permitem que crianças pequenas cheguem ou saiam desacompanhadas.

É tão óbvio, mas ninguém – nem a escola, nem a comunidade – admitiu que uma criança de sete anos não deveria atravessar a rua sozinha. Não poderia ir à escola desacompanhada. Os pais ou responsáveis não deveriam permitir; A escola não deveria aceitar. Sem falar que os perigos não se restringem a atropelamentos. Existem ainda os raptos, estupros, exposição a drogas, e por aí vai…

O.k.! Vamos reivindicar mais sinalização defronte às escolas (faixas de pedestres, os desmoralizados fotossensores, quebra-molas etc.), mas que tal também desenvolver programas onde pais voluntários possam auxiliar nessas ações? Sim, primeiro, porque é compromisso da família participar da vida escolar e, depois, porque o primeiro argumento torto do Poder Público para não cumprir seu dever será o da eterna carência da mão de obra de porteiros, seguranças e guardas de trânsito…

Pobre Letícia, a menininha Pitaguary morta por atropelamento ontem (quarta-feira, 10), antevéspera do dia das crianças, em Maracanaú (região metropolitana de Fortaleza), quando tentava atravessar a rua sozinha, em frente à sua escola. Não, não foi uma fatalidade. Sua morte poderia ter sido evitada. Que não tenha sido em vão.

(Foto: TV Verdes Mares/Reprodução)


Thiago Amazonas de Melo

Não acreditem em nada do que eu digo aqui. Isso não é um diário. Eu minto.

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