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Etna aos 40


Pisar no solo do vulcão ativo mais alto da Europa foi a parte mais incrível da aventura de comemorar quarenta anos de casados

 
“Vamos conhecer a Sicília?”. Meu marido vinha há tempos propondo uma visita à ilha italiana, a maior do Mar Mediterrâneo.

Nos últimos 25 anos, fomos algumas vezes à Itália, sempre para curtíssimas temporadas, o que nos obrigava a eleger apenas uma região por vez. Assim, estivemos no Lácio, Vêneto, Toscana, Ligúria e Piemonte. A Sicília sempre ficava para a viagem seguinte.

Em todas elas, bebidas e comidas lideraram nossa curiosidade, por considerarmos ser essa a forma mais prazerosa de conhecer a cultura e hábitos locais. Ele, mais interessado nos ingredientes e modo de preparo dos pratos principais e harmonizações; eu, focada nos doces, sorvetes e sobremesas. Em nossos roteiros, portanto, nunca faltam passeios por mercados e feiras-livres e muita conversa com produtores. Adianto logo que não somos especialistas, longe disso, mas apreciamos vinhos e novos sabores.

Dizem que aromas e sabores recuperam memórias que se supunham esquecidas. E deve ser mesmo verdade. Em todas as nossas viagens, há sempre uma comida ou bebida que nos marcou.

Da nossa estreia em terras italianas, em 1992, pelo Lácio, lembramos o personalíssimo Spaghetti alla carbonara, entre copos de vinho branco Frascati, feito com uvas Malvasia.

Da viagem seguinte, para a região do Vêneto, guardamos os sabores divinos do Tiramissu, do risoto com pancetta e ervilha, e do fígado acebolado, com taças transbordantes de Valpolicella, uva Corvina.

Permanecem em nossa lembrança o gosto dos azeites da Toscana, onde estivemos em 2004, além dos queijos de ovelha e da tradicional Bisteca fiorentina – um exclusivo corte da costela de boi da raça Chianina que agrega três carnes: filé, contrafilé e alcatra –, arrematados com vinhos Brunello e Chianti, ambos de uvas Sangiovese.

Sempre que sinto cheiro de manjericão, me vem à mente o prato que comemos, em 2013, na Ligúria, região produtora da erva. O pouco tempo passado em Savona – parte do nosso roteiro marítimo pelo Mediterrâneo – foi suficiente para comprovarmos o motivo da região ser conhecida como “terra do pesto”. Todos os cardápios trazem Trofie al Pesto, uma massa de formato pequeno, fininho e torcido, servida ao molho que tem por base o manjericão. Nas taças, um bom vinho Cinque Terre, elaborado a partir de castas como a Vermentino.

E foi também entre produtores locais e expositores da Feira Internacional da Trufa Branca de Alba, no Piemonte, que nos deliciamos, há um ano, com raspas da caríssima trufa branca – de aroma inigualável – sobre singelos ovos fritos ou talharim fresco, saboreados com vinhos Barolo e Barbaresco, da uva Nebiollo. Em Alba, viramos “caçadores” de trufas, guiados por um Trifulau, especialista que conduz cães farejadores pelos campos úmidos em busca do valioso fungo.

Finalmente, neste novembro, o nosso sonho Siciliano materializou-se em fartura de ricotas, arancini, frutos do mar, berinjelas fritas, além de doces maravilhosos, como o cannoli, a cassata e a granita com brioche até no café da manhã.

Graças à diversidade do solo vulcânico da ilha, muita pesquisa e tecnologia de ponta a serviço de produtores conscientes, os vinhos da Sicília têm conquistado mercado e muitos apreciadores. Degustamos taças e mais taças do Etna Bianco, composto pelas uvas Carricante e Catarratto, e do tinto Nero D´Avola, da casta Nerello Mascalese. O vinho fortificado Marsala estava presente ao final das refeições.

Testemunha soberana de toda essa orgia enogastronômica, o Etna nos fisgou desde a primeira espiada através da janelinha do avião, quando sobrevoávamos suas impressionantes crateras para o pouso no aeroporto de Catânia, de onde partimos imediatamente de carro para conhecer a esplêndida costa leste siciliana. Programamos o gigante de 3.330 metros de altitude para o último dia de nossa viagem.

De volta à Catânia, após cinco dias de andanças e curtições, estávamos prontos para a façanha que coroaria a comemoração dos nossos quarenta anos juntos.

Foi quando os planos começaram a ruir. Se fôssemos supersticiosos, teríamos desistido. A agência cancelou, de última hora, a visita guiada, com a justificativa de que o guia sofrera, lamentavelmente, um acidente e não havia tempo para substituí-lo. O clima não estava favorável, a previsão era de chuva e muitas nuvens. Para completar, era o dia da Festa dei Morti.

Persistentes, soubemos pela gentil recepcionista do nosso hotel que havia um transporte diário para o Etna, saindo às 11h30 da Piazza Duomo – a dois passos dali – e retornando às 18h. Teriam ainda lugares disponíveis? Corremos para lá e nos deparamos com uma jardineira. “Será uma boa ideia?”, meu companheiro perguntou. Compramos os últimos dois lugares por setenta euros. A aventura estava apenas começando.

O trajeto sinuoso e íngreme de uma hora e meia até a primeira etapa – as chamadas Crateras Silvestri, a 1.900 metros de altitude – antecipava as intensas emoções que nos aguardavam. Mas nada é comparável a caminhar naquela imensidão silenciosa de crateras que mais parecem “uma paisagem lunar”, como bem definiu Patrícia Kalil, do blog Descobrindo a Sicília.

Valeu cada minuto de frio – com temperaturas próximas a zero grau –, os ventos fortes e os solados pretos – antes brancos – dos tênis. Brindamos no Refúgio Sapienza – o pequeno complexo turístico com restaurante e lojinhas – com taças de vinho rosso do Etna. No retorno, sol se pondo, “ônibus” com cortinas de plástico abaixadas para nos proteger do vento gelado, tivemos a certeza de que tínhamos vivido um dos dias mais incríveis da nossa duradoura união.


OS PAIS NÃO DEVERIAM MORRER (*)

Meu pai viveu oitenta agostos.

 
Ele partiu às vésperas do seu aniversário e do Dia dos Pais. O vozerio alegre de familiares queridos deu lugar ao doído luto. Percebi, com tristeza, que a expressão “matar a saudade” virou desejo irrealizável.

 

Pego-me refletindo sobre a linha cheia de arrodeios que é a vida. Entre o início e o fim, uma infinidade de pontos vão traçando nossa caminhada. Nem sempre podemos mudar o rumo, retornar à largada, desviar de perigos ou pegar atalhos seguros.

 

Pudera eu, em um desses pontos, rever, por um segundo que fosse, o seu jeito simples, gentil e agregador e, de quebra, ouvir o seu gargalhar solitário.

 

– Está rindo do quê, pai?

 

Eu já conhecia a resposta, mas perguntava assim mesmo, para que ele pudesse reviver episódios divertidos da infância sertaneja.

 

No seu mês de agosto, em tripla homenagem, vou deixar a alegria embalar as lembranças de momentos inesquecíveis compartilhados.

 

A saudade será eterna, assim como o meu amor por ele.

 

*Publicado originalmente no jornal O Povo (agosto/2017), caderno especial “Pai, Beleza & Poesia”, editado pela jornalista Lêda Maria Feitosa Souto


A pequena mais que notável (*)

Diante de uma linda gravura afixada no quadro negro da sala de aula, que mostrava a imagem de uma casinha branca com janelas azuis, a criança de sete anos escreveu algo inesperado. Ao invés de descrever a ilustração, como lhe pedira a freira, seus olhinhos infantis atravessaram as paredes da casinha e se compadeceram com o sofrimento de uma menininha porque no dia seguinte iria ao dentista.

O episódio pode ter sido uma epifania para a futura poetisa cearense Rita de Cássia Araújo, nascida em 15 de janeiro de 1941, primeira dos oito filhos de Neomísia Oliveira Fernandes e Milton Amaral Fernandes, que enfeitou com lacinhos e rendinhas o cotidiano dos avós maternos, até então repleto de netos homens. Pelo lado paterno, foi a responsável pela estreia dos avós no sentimento imortalizado em tocante texto de Rachel de Queiroz (“Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu (…)”, em A arte de ser avó), transformando a vida de toda a família Fernandes.

A criança sensível, que começou a ler aos cinco anos e já demonstrava, aos sete, vocação para as letras, sofreu muito cedo a primeira grande perda: a morte da querida avó paterna. A felicidade da menininha tão amada e aguardada foi novamente sabotada pelo surgimento de grave enfermidade do pai. As duas fatalidades a marcariam indefinidamente.

Da infância em cidade do interior à mudança definitiva para Fortaleza, intercalada por temporadas de férias escolares em São Paulo, foram muitos os percalços até alcançar os dias atuais. Da mística Canindé, no semiárido cearense, onde o flagelo da seca não consegue destruir a fé do povo, Rita de Cássia conserva valores e ensinamentos humanísticos: a espiritualidade e humildade franciscanas. E da maior metrópole brasileira, a poetisa eternizou gratidão em versos de 2004 que homenageiam o pai e sua cidade de adoção, que completava 450 anos:

“(…) Pai humilde e guerreiro,
guardei nossas palavras e sonhos,
hoje mesmo distante sinto o perfume
das flores e dos frutos maduros.
Vontade de estar contigo!
A ti cidade querida, parabéns.
És meu aconchego, meu lado familiar.
Pai e mãe no campo Santo de Congonhas.
Seja bendita, benditos sejam teus filhos
verdadeiros ou de adoção.
Viva! Viva! Viva!” (“A São Paulo e a meu pai, com amor”)

O casamento precoce, aos dezessete anos, com o futuro arquiteto Nearco Araújo, e a chegada dos dois filhos resgataram a alegria de viver e renovaram suas esperanças no mundo. Como na maioria das trajetórias dos casais, a etapa seguinte foi marcada pelo crescimento profissional de ambos e os cuidados com a educação de Helena, economista, e de Nearco Filho, engenheiro, que lhe deram três netos de comprovada sensibilidade artística: Beatriz (Bia), que faz doutorado em Moda e Design, em Londres; Pedro, jornalista, que realiza mestrado em São Paulo; e Joana, professora de dança e nutricionista, que cursa pós-graduação em Fortaleza. A relação com os filhos e netos é baseada na troca natural de afetos e respeito mútuo. São tantas as afinidades que a avó Rita condiciona a realização afetiva e profissional dos netos à coroação da própria existência.

Rita de Cássia sempre esteve ligada à cultura, desde o primeiro emprego, como guia de museu, que lhe aguçou sentidos e aptidões enquanto a preparava para assumir maiores responsabilidades como funcionária da Universidade Federal do Ceará, na área da Tecnologia da Informação, onde atuou com brilhantismo até se aposentar, em 1992. Sua caminhada literária é alimentada igualmente pela fiel devoção a anjos divinos. Todos em casa tinham um santo de proteção, o seu era o Anjo da Guarda, tema central de uma obra apresentada pelo imortal Artur Eduardo Benevides, o aclamado “Príncipe dos Poetas Cearenses”.

A inspiração chega sorrateira, sem aviso prévio ou necessidade de estímulos externos, surpreendendo a criança atrás do guarda-roupa, sentada em um banquinho, para escapar da implicância das irmãs com sua mania de escrever. Ou apanhando de surpresa a jovem mãe no anonimato do estacionamento da escola dos filhos, registrando emoções no papel, enquanto aguardava o término da aula. Ela assegura que a poesia é vital à sua sobrevivência em todas as circunstâncias e fases.

Reconhece, com certo pesar, que publicou tardiamente o primeiro livro (Cores, em 1984), que considera a maior conquista profissional. A partir daí, felizmente, não parou mais: Essência (1987); Sementes (1990); Unguentos (1994); Cartas e Poemas ao Anjo da Guarda (1997); Mulher e Terra (2000); Manga Madura (2004); Por Detrás das Gavetas (2008); Cajueiro Florido (2012); e, o mais recente, Palavras (2016), em comemoração aos seus 75 anos de vida e aos oitenta do marido.

Elege a formatura dos herdeiros como o principal marco na sua maturidade, satisfação comparável apenas à concretização da tão sonhada viagem à China, em companhia do marido. A explicação para tamanha admiração pelo país asiático encontra-se na capacidade imaginativa da criança que um dia se tornaria respeitada poetisa. Desde a mais tenra idade, quando ouvia alguém proferir a velha expressão “Vá pra China!” a uma pessoa de comportamento indesejável, a menina educada no rigor cristão associava o tal lugar ao inferno, destino das almas penadas. Foi graças aos esclarecimentos de uma amiga da família, Alba Veloso, professora de Geografia, que a pequena Rita pôde desconstruir a imagem diabólica e passar a cultuar o país de tradição milenar. A aposentadoria lhe trouxe, finalmente, as condições financeiras necessárias para realizar o sonho antigo.

Na posição de grande admiradora da filosofia oriental chinesa, Rita de Cássia experimentou momentos de profundo enlevo, como na visita ao mausoléu do imperador Qin Shihuang (260-210 a.C.) – monumento equiparável em importância às Pirâmides de Gizé (Egito) e ao Taj Mahal (Índia) –, na cidade de Xi’an, a 1.200 quilômetros de Pequim. Acreditava-se à época que, ao deixar a vida terrena, podia-se levar para o plano posterior tudo o que se julgasse de enorme valia. Para o monarca, a preciosidade maior era seu exército. Ele mandou construir, portanto, uma tumba gigantesca com milhares de soldados moldados em terracota, em tamanho real, cada um com uma fisionomia única e vestidos de maneira distinta. O tesouro foi descoberto, casualmente, em março de 1974, cerca de 2.200 anos depois de construído, e ficou conhecido popularmente como Guerreiros de Xi’an.

Em vez das figuras demoníacas do imaginário infantil, a mulher madura vivenciou na China as mais sublimes sensações. Emocionou-se às lágrimas ao pisar a Praça da Paz Celestial, no centro político de Pequim, palco do massacre do governo para conter a maior manifestação popular contra o Partido Comunista Chinês (PCC), entre abril e junho de 1989, liderada por jovens universitários que reivindicavam liberdade de imprensa e de expressão, e protestavam contra a repressão aos direitos individuais e das precárias condições sociais.

A criadora de belos poemas contemporâneos, que nutre profunda admiração pela obra de Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, autores de diferentes escolas e procedências, guarda com carinho e orgulho a carta manuscrita do amigo Drummond, confirmando-a poetisa. Como ainda duvidar do seu talento? A modéstia, contudo, a impediu por muito tempo de revelar o “veredito” do poeta mineiro, com quem manteve regular correspondência que ela finalizava sempre com “Um caloroso abraço”. Leitora contumaz, planeja para breve devorar a vasta produção do saudoso poeta mato-grossense Manuel de Barros, cuja simplicidade era comparada às virtudes atribuídas a São Francisco, santo de referência de Rita de Cássia.

Como ativista cultural, ela participa de várias entidades literárias, a exemplo da Sociedade Amigas do Livro (SAL), da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB), da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Fortalezense de Letras (AFL) e da Rede de Escritoras Brasileiras (REBRA).

A poetisa retribui a generosidade da vida com cidadania e altruísmo. Nas típicas manhãs nordestinas, com brisas que tentam, em vão, abrandar o calor que transpassa as grossas paredes históricas do Palácio da Luz, no centro de Fortaleza, ela pisa respeitosamente a ampla passarela de parquet e, observada por olhos imortais, dirige-se à sala da biblioteca onde, entre pilhas de livros e revistas, é auxiliada por um pequeno e motivado grupo.

É nesse solene ambiente cultural que Rita de Cássia cumpre a bela tarefa voluntária de formação de bibliotecas para comunidades sem acesso aos livros, principal missão da Sociedade Amigas do Livro, uma das quatorze entidades literárias cearenses abrigadas no palacete edificado por volta de 1781, atual sede da Academia Cearense de Letras, a mais antiga instituição do gênero no país, fundada em 15 de agosto de 1894. No currículo da equipe liderada por Rita, já constam 65 bibliotecas instaladas na capital e municípios do interior do estado.

Quando não está transformando pensamentos e devoções em poesias ou organizando e restaurando livros doados, Rita de Cássia se diverte crochetando lindas peças, arte que aprendeu na infância com a vovó Bela (Isabel Amaral Fernandes), mãe de seu pai, sucedida pela irmã Honorina na formação moral e educacional da neta. A tia Teté, como os filhos da poetisa a chamavam, morou com a família da sobrinha-neta até falecer e foi sua maior referência afetiva. É esse amor ao próximo que ela procura praticar, inspirada em seres de espírito elevado, voltando-se principalmente àquelas pessoas que carecem de pequenos gestos amigos, como um simples e fraterno abraço. No outro extremo da condição humana, a poetisa lamenta a disseminação das guerras e a ambição desmedida, equiparando-as às piores maldades e causas dos maiores infortúnios da humanidade.

A autodeclarada ausência de vaidade, representada pelos cabelos curtinhos e naturais, sem qualquer coloração química, é contestada por um único excesso: anéis. Um monte deles. O estilo rendeu-lhe o apelido carinhoso de “Maria Bonita”, dado por uma das netas. A designação a faz sorrir, enquanto gesticula mãos adornadas de belos aros que ganha todos os anos do marido, seu companheiro nessas quase seis décadas.

Entre as situações que a deixam feliz e risonha, estão as mais singelas, como quando reúne os netos ou entrega uma biblioteca da SAL. Tristeza mesmo ela sente ao tomar conhecimento de alguém doente, sem condições financeiras para custear o tratamento. A serenidade que a distingue, todavia, é colocada à prova perante o caos doméstico, embora se esforce para ser tolerante com os auxiliares do lar. A única frustração pessoal é não ter tido a oportunidade de concluir o curso superior, devido à jornada dupla de trabalho para ajudar nas despesas familiares, ainda que se considere vencedora com a formação no curso normal, antigo magistério.

Na fila de autógrafos do seu primeiro livro de poesias estava a mestra que, naquele longínquo dia, quando a menina Rita de Cássia se viu refletida no interior da casinha branca de portas azuis, vaticinou que ela seria escritora. Comovida com o reencontro surpreendente, não pôde evitar a lembrança traumática da extração do seu dentinho de leite, com o sangue jorrando sobre o vestidinho cor de rosa, cheio de bolinhas.

Admite com certa tristeza a resistente aversão a procedimentos odontológicos. À naturalidade com que expõe um traço vulnerável, ela acrescenta outras características marcantes: alegre e pequena. A estatura atrai diminutivos carinhosos. Engana-se, porém, quem associa altura a vigor. Na essência, Ritinha é grandiosa como as suas mensagens poéticas, fértil como as sementes que germinam na natureza, doce como a manga madura, frondosa como o cajueiro florido, misteriosa como o conteúdo de gavetas secretas, e eternamente saudosa da sua sofrida Canindé:

“(…) Procuro no final da tarde
​​​antes da lua clarear
o céu azulado da minha terra.
Nada encontro
Além da terra seca,
quase sem vida. (…)” (“No baú…”, em “Palavras”, 2016)

A menina alfabetizada em casa, aos cinco anos de idade, pelas tias professoras, era o orgulho do pai, que não perdia a oportunidade de exibir aos amigos os dotes da pequena leitora que, mesmo a contragosto, lia em voz alta o jornal O Santuário de São Francisco das Chagas, para deleite geral. A mulher que desde criança tem um anjo para chamar de “seu” dedica imensurável amor à família, valoriza as origens e confia na proteção divina. Com um olho no trançado do crochê e outro na tevê, alternando com a leitura de um bom livro, ela segue gestando emoções. Tendo a inspiração permanentemente à espreita, a qualquer momento pode surgir um novo livro de poemas. Cuidadosa no falar, entrega-se sem parcimônia a instantes reflexivos para se autodefinir doida e meia, em meio a um sorriso maroto. Sim, a vida para a poetisa que persegue os sonhos com a paciência dos obstinados pode ser encarada também de forma divertida. Aos comuns mortais, resta-nos aplaudir sua abençoada “loucura”.

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*Publicado originalmente na revista Policromias, da AJEB.


Ser Fortalezense

Não é só sobre ter uma certidão de nascimento em cartório.

É sobre acolher forasteiros e fazê-los sentir como se em casa estivessem.

É absorver a cultura interiorana de pais e avós, e construir a sua própria.

É sobre a habilidade de profissionalizar o humor, desafiando adversidades.

É definir o seu próprio sotaque a partir da mistura de vários.

É desejar 365 dias ensolarados por ano, mesmo reconhecendo a necessidade de uma boa chuva.

É sobre saber transformar o martírio de revolucionários em Passeio da esperança para as novas gerações.

É preferir morar junto ao mar, contrariando a ideologia rural do “quanto mais longe do litoral, melhor”.

É sobre evocar o feminismo das heroínas emblemáticas de Rachel de Queiroz.

É agir de forma possessiva, quase infantil, apontando os defeitos sem permitir que estranhos o imitem.

É sobre ter a honra de partilhar com José de Alencar o berço natal, a primeira luz.

É apoderar-se de valiosos equipamentos culturais, de teatros a praças, como se privados fossem.

É sobre alimentar o espírito com a irreverência dos jovens padeiros literários.

É rejeitar o descaso com a tragédia da seca, por atrair a fome, o fanatismo religioso e a reinvenção do cangaço.

É sobre indignar-se com demonstrações de baixa afetividade de migrantes e imigrantes.

É sobre sonhar com igualdade social, do Bom Jardim ao Meireles, porque ninguém sobrevive sem uma utopia.

É tecer loas a outras cidades e manter a sua no topo das maravilhosas.

É sobre celebrar 291 anos com orgulho, confiança e luta.

É respeitar os símbolos da ancestralidade negra e índia.

É reescrever a História com caligrafia holandesa, portuguesa, universal, ou ainda brasileira e mesmo cearense de outras plagas.

É ser, sobretudo, um forte, força, fortificação, Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção.


Sessentíssima

Enquanto organizo o material para a coletânea que marcará minhas seis décadas de vida, acompanho nos textos o passar dos anos. É interessante observar as mudanças – positivas ou não – em nossa trajetória. Uma evolução natural.

 

Aos 60, uma pessoa é considerada nova ou velha? Depende do referencial. Na linguagem dos meus amigos mais velhos, sou um “broto”; Para os mais jovens, sou “coroa”; Pelas leis brasileiras, sou “idosa”. E haja rótulos.

 

Dia desses, fui taxada pejorativamente de “petista”. Já me pregaram também etiqueta de “ateia”. Ni l’une ni l’autre, apenas tenho um cérebro, leio sobre tudo e por isso desenvolvi algo que se chama visão crítica e racionalidade. Simples assim. Aliviada, lembro que sou feita igualmente de afeto, matéria que me mistura definitivamente ao outro.

 

Além dos tolos e dispensáveis rótulos, incomoda-me profundamente comentários simplistas ou pensamentos reducionistas sobre temas complexos, como a maneira individual de perceber o mundo e as pessoas.

 

Recentemente, uma frase nas redes sociais me chamou a atenção: “O que muda na sua vida se José ama Joaquim?”. O mesmo conceito pode ser estendido a outras áreas. O que muda na sua vida se sua amiga branca se relacionar com uma pessoa negra? O que muda na sua vida se o seu amigo rico se casar com uma moça pobre? Ou se a mãe divorciada de 50 anos da sua amiga namorar um garotão de 30? O que muda na sua vida se uma mulher na praia tirar a parte de cima do biquíni? Você, que idolatra artistas que exibem piercings e tatuagens, por que reage mal diante de familiares e amigos que usam idêntico estilo? O que muda na sua vida se o seu novo vizinho é imigrante, ou muçulmano, ou ateu, ou evangélico, ou católico, ou obeso, ou anão, ou deficiente físico/ mental, ou gosta de bichos? Em que isso lhe prejudica? A mim, absolutamente nada.

 

Os preconceitos nos sufocam e trazem sofrimento desnecessário a todos. Combatê-los é atitude democrática, cidadã e humanista. Como reagir diante de situações que consideramos injustas? O que você faria, por exemplo, se soubesse que empresas ou órgãos deixam de contratar profissionais competentes só porque são gays, ou tatuados, ou são homens que usam rabo de cavalo e brincos, ou ainda porque são mulheres, ou negros, ou passaram dos 40 anos, ou não têm religião, ou não possuem afinidade ideológica com o chefe? Denunciaria e pressionaria para que reavaliassem regras e conceitos ou, simplesmente, se calaria? Quem lucra com tais julgamentos discriminatórios? Ninguém.

 

A caminhada não é nada fácil, embora, e talvez exatamente por isso, fascinante. É um exercício de constante reflexão, de idas e vindas, de descobertas e “refazendas”, tentando acertar e consertar os erros a cada dia. Sempre argumento que mais grave do que pretender tornar-se uma pessoa virtuosa é considerar-se mais virtuoso hoje do que ontem, ou seja, melhor a cada ano que passa. Uma armadilha que captura até os mais bem intencionados. No exato instante em que me considero melhor que antes, enterro minhas pretensas virtudes no terreno movediço da prepotência e soberba, sentimentos que me afastam cada vez mais da perfeição. Doido demais, não é?

 

Então, como fugir dessa arapuca? Penso que não há muito a fazer. Arrisco sugerir que simplesmente viva e deixe os outros viverem. Em paz. Assim não vai precisar se preocupar em “melhorar”, entende? E, cá entre nós, para que mesmo ser perfeito?

 

Reconhecer minhas inúmeras falhas me traz até certo conforto, pois me recoloca na condição primeira, na minha essência humana. Preciso, contudo, admitir que me orgulho de algumas “vaidades” (quem nunca?) que, felizmente, não sumiram com o tempo: O espírito contestador, a necessidade de extravasar sentimentos ou de expressar-me sem meias palavras. Mantenho ainda de forma intacta a capacidade de me indignar, de provocar e de denunciar. E, principalmente, de amar. Esta última, espero conservar até o fim.

 

22 de julho de 2016

Crônica originalmente publicada no livro coletânea da autora “Viver, simplesmente” [Sete, 2016] 


Carta para Theo

Você ainda não pode entender o significado das palavras, mas já é capaz de sentir a intensidade do amor e de como é maravilhoso chegar a um lugar onde se é muito bem-vindo.

Nesses últimos seis meses, você vem, a cada dia, conquistando novas liberdades. Comovo-me com o seu enorme esforço na tentativa de se sustentar sobre mãos e joelhos rechonchudos a fim de explorar objetos, espaços e distâncias que devem lhe parecer gigantescos e instransponíveis. Sei, é duro, mas é também estimulante e desafiador.

Agora está prestes a conhecer o sabor de novas comidinhas que provavelmente lhe acompanharão por toda a vida. Veja a mim, beirando os sessenta, e não vislumbro outro jantar que não seja a minha deliciosa e saudável sopinha. Ainda que seja só de segunda a quarta. Portanto, é melhor que se acostume logo e para sempre.

O mundo é cheio de contradições, meu lindo Theo, mas é também um lugar de muitas alegrias. E de tomadas de decisão também. Você terá que fazer escolhas simplistas, entre o Bem e o Mal, por exemplo, mas a maioria delas passa longe do maniqueísmo limitador. Falo de coisas mais práticas, do dia a dia, como ter que optar entre esportes radicais e meia maratonas, entre filmes europeus e americanos, entre música pop e eletrônica, entre esquiar e “snowboardear“, entre curtir uma praia ou velejar no mar a sessenta por hora, entre jornalismo e direito. Na dúvida, tente um meio termo, o seu próprio. Pode radicalizar também, mas que seja temporário, dê logo um jeito de se aprumar novamente.

E quando ganhar um irmãozinho ou irmãzinha, cuide bem dele ou dela, briguem, mas não demorem a fazer as pazes, ame-o/a, ele ou ela estará sempre ali, ao longo da caminhada. E se o/a irmãozinho/a não vier, “adote” o/a primo/a, o/a colega da escola ou o/a amigo/a da natação. Não queira viver sem amigos. Esforce-se, pelo menos. A amizade é algo nobre, que nos deixa mais vivos.

Estude, leia muito, adquira cultura, viaje, abra a mente, livre-se dos preconceitos de toda espécie, descubra as diferentes formas de vivência tão ou mais interessantes que a sua. Concordo, nada é garantido, a vida não é um tratado de lógica, mas quem foca nos objetivos aumenta as chances de cruzar de vez em quando com a tão almejada “sorte”.

No futuro, escolha alguém sensível para construir um projeto de vida em comum, que valorize coisas que o dinheiro compra, mas também aquelas que esnobam o vil metal. E, sim, tenha filhos, biológicos ou não, a maior prova de que você acredita na humanidade e mantém a esperança na existência.

O conselho a seguir vai ser fácil, fácil, basta deixar fluir a vocação: amplie sua família com, pelo menos, um bichinho de estimação. Toda a sua autossuficiência humana e racional ainda não bastará nos momentos de fragilidade que certamente virão.

Ia esquecendo! Acredite em Papai Noel, a metáfora-mãe de todas as miragens e ilusões. Mas, à medida que for atingindo graus crescentes de maturidade, liberte-se de todas elas. Quando restar apenas você e você, aí sim, terá conquistado a tão sonhada plenitude. E não precisa ficar angustiado por isso. Garanto-lhe que vale a pena!

Para terminar, cuide da saúde, não fume e beba “moderamente” (acho horrível essa palavra, mas todo conselho tem um quê de caretice, ainda mais vindo de vó).

Vida longa e saudável para você, meu neto amado!


Que delícia de cama!

A cama é o melhor lugar para se fazer amor. Mais confortável, pelo menos. Se é que alguém pensa em conforto nessa hora… Mas, enfim, a meu ver, ainda não inventaram local mais adequado. E para dormir, também.

Quem está apostando que eu estou querendo mesmo é abordar finalidades menos óbvias para a cama… Bingo!

Basta acompanhar o folhetim global das nove da noite (pronto, falei, sou noveleira de crachazinho, assumo) para ver a delícia que é se esparramar sobre uma super king size com as irmãs, filhas ou amigas, para falar bobagens, rir ou, mesmo, chorar. Não que não se possa, eventualmente, juntar marido, filhos e irmãos, mas esse é um universo, preferencialmente, feminino.

E de universo feminino, o Maneco (Manoel Carlos, o autor da novela) entende. Os homens do Maneco nunca têm o mesmo carisma das mulheres. Engana-se quem pensa que é pura jogada de marketing para fisgar o público de novela, que se presume ser predominantemente feminino. Essa ideia é coisa do passado. Hoje, os homens curtem tanto quanto.

Para o autor de “Em Família”, que afirma ter sido criado só por mulheres e ter tido um excelente pai-ausente, as relações femininas são mais ricas e importantes que as masculinas. Além disso, ele acredita que as mulheres são bem mais confessionais que os homens, estes não querem – ou não conseguem – verbalizar o que sentem.

Talvez venha daí a importância da “cama-amiga” nos cenários das suas novelas, atuando como personagem na trama. As mulheres da família da atual protagonista estão sempre se reunindo na cama para bater papo, os mais diversos. No início, eram apenas as três irmãs. Agora, passados vinte anos na história, entraram no clima outras personagens.

As cenas são adoráveis! Diante delas, me reporto ao passado. Que menina adolescente nunca passou horas a fio com as amigas na cama narrando os acontecimentos da festinha da noite anterior? E ao presente: não conto as vezes que fiquei – e ainda fico, quando a vida nos permite – conversando com minha filha na minha cama.

Funciona mais ou menos como um “divã-rosa” de psicanalista, com três enormes vantagens: as “sessões” não têm hora nem dia marcados para acontecer; você não precisa anotar na agenda algo que lhe afligiu demais naquele dia e que, muitas vezes, na semana seguinte já perdeu a importância. E a terceira, é “de grátis”!


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Universo mágico da leitura

Isabelle Leal

Jornalista que flerta com o mundo da moda desde criança, voltou ao mundo dos blogs para saciar a vontade de escrever sobre os temas que mais gosta de ler e pesquisar sobre. Cresceu assitindo ao programa "Fashion File" com Tim Blanks, assina uma coluna de moda semanal no jornal cearense O Povo há mais de três anos e neste espaço vai dividir um pouco de seus guilty pleasures.

Mariel Fernandes

A vista do meu ponto e outros pontos de vista

Riksaint Space

Um espaço dedicado às energias renováveis.

Dully Pepper24H

Arte pelo Amor, Arte pelo Mundo, Arte pela Paz!

Estalos da Vida

As vezes a felicidade começa em um estalo!

Sobre os dias

sensações, vinhos e faltas.

Vila das Noivas

por Ingrid Martins e Aline Farias