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Em busca do livro perdido

Quando o escritor francês Marcel Proust descreve em sua obra-prima o enxame de sentimentos que atacou o personagem no exato instante em que provou um inocente bolinho molhado no chá, a gente se transporta à própria infância à procura das nossas pequenas “madeleines”.

O gatilho da memória afetiva é acionado quando um aroma, um sabor, uma melodia ou um objeto nos insere involuntariamente em situações, épocas ou rincões esquecidos.

A essa altura, eu pergunto ao querido leitor ou leitora: Qual a sua “madeleine”?

Para a professora cearense Ana Cély Rocha Aguiar, a chave que destranca o seu passado é um livro de paradeiro desconhecido que pertencera ao seu pai, homem que cultivava o hábito da partilha de leitura com familiares e amigos, falecido quando Ana Cély, a caçula das filhas, tinha apenas 3 anos de idade.

O mundo de Ana Cély girou, girou e girou. Deixou a cidade natal, graduou-se em Letras, foi aprovada em concurso público para professora, exerceu o magistério, casou-se, foi mãe de duas meninas e um menino, e peregrinou por várias cidades brasileiras graças à carreira militar do marido, até que, em 1976, retorna ao Ceará e se matricula na pós-graduação do curso de Letras.

Ao manusear as primeiras páginas de um livro adquirido por sugestão do seu orientador, sensações indescritíveis a moveram, de súbito, para a saleta da estante da casa dos pais, onde seus sete irmãos liam fascinados ou escutavam as narrações da mãe amorosa sobre as vivências do marido falecido tão precocemente, uma forma de preservar a memória familiar. A pequenina Ana Cély sobe, então, numa cadeira e tenta pegar “o mais pesado entre os livros numerosos da estante”.

A partir dessa experiência sensorial, Ana Cély não se separou mais da magnífica obra intitulada “Dicionário Prático Ilustrado”, uma espécie de enciclopédia condensada que contém o essencial em vários campos do conhecimento, editada pela Livraria Lello, de Portugal.

Embora em diferente edição, o reencontro com o livro tão amado que não via desde a juventude permitiu à Ana Cély resgatar parte importante da própria história.


O estilista (*)

Remexendo nos tesouros da minha saudosa mãe, encontrei um velho croqui de vestido de festa.

Lembrei-me então de um dos passeios mais gostosos da infância, ali pelos meus seis, sete anos: acompanhar minha mãe à loja de tecidos, promessa de bodas à vista.

Descansadas do almoço, tomávamos o ônibus – a alegria estreava ao sentar à janela – para o centro da cidade e à tardinha meu pai nos resgatava de carro.

Ao chegarmos à loja, eu largava sua mão firme e rodopiava por entre cânions coloridos que exalavam química misturada a cheiro de campo, ao menos era assim que meu narizinho farejava as peças empilhadas de algodão tingido.

De longe eu avistava a mesa do estilista, onde uma fila de senhoras já se formava. Quando, finalmente, minha mãe lhe detalhava a ocasião festiva, começava a parte mais emocionante.

Antes de iniciar o traçado a lápis, ele apontava o grafite até a perfeição. A partir dali, eu flutuava numa sucessão de camadas que se distendiam ou secavam conforme o grau de requinte da festa. Uma vez ou outra ele pegava a borracha e sumia com uma nesga da saia rodada ou uma trinca de nervuras do corpete.

Eu me asfixiava ante aquele corpo sem rosto, cinturinha de pilão e busto prestes a esgarçar a transparência. “Faz logo o rosto!”, eu suplicava em voz silenciosa. A respiração só cadenciava após a subida do longo pescoço que sustentaria o belo perfil com coque na nuca. Um derradeiro apontamento para finalizar o risco e passar aos lápis de cor. E haja magia no preenchimento de pregas, babados e plissados.

O vendedor aguardava impaciente com a régua metro. Ao talho no tecido fluido para o desfio, meus olhinhos fotografavam aquela trilha intermitente devorada sem dó pela tesoura amolada. Se fosse pano rústico, minha face se transfigurava sob o rasgão frenético.

Voltávamos para casa a tempo de a minha mãe jantar para ainda cumprir o terceiro turno em uma escola pública, onde ela alfabetizava jovens e adultos dentro de um programa de educação popular que enfrentou à época muita resistência.

No mês seguinte, a parente modista entregava a linda roupa. O rosto da minha mãe vestida era o item mais magistral do conjunto da obra.

(*) Crônica publicada originalmente no blog “Mural da Ana Paula”, onde escrevo mensalmente nos terceiros sábados.


Desapego *

Desde o início da pandemia planejo esvaziar parte das gavetas e prateleiras do apartamento em que habito há vinte anos.

Comprei sacolas plásticas de cem litros e programei o alarme do celular para as quartas, dia espremido entre antecipações e urgências. O aviso “Desapego” começava a soar às nove em ponto, adiava duas ou três vezes, até que um imprevisto abortava a missão.

Se me pedissem uma autodefinição, “apego” constaria certamente na coluna das qualidades ou dos defeitos. Prendo-me não apenas a objetos, mas a gentes e situações, embora eu lute contra isso. Aprendi que para avançar é preciso renunciar ao que não é mais benéfico ou que não faz mais sentido.

Meu projeto do desapego ganhou força a partir da tragédia das recentes enchentes no Brasil. Cortou-me o coração ver aquelas pessoas perderem tudo; a idosa que se recusou a ficar no abrigo e voltou para sua casa em área de risco.

As cenas dramáticas me remeteram a um trecho de “O prego e o rinoceronte”, livro de ensaios da professora de literatura, Regina Dalcastagnè, que me tocou imenso: “Daí a dificuldade dos mais velhos de se desfazerem de seus objetos, especialmente quando precisam abandonar a própria casa. Cada coisa eliminada é um testemunho apagado de sua presença no mundo”.

E pensei nas minhas gavetas e prateleiras à espera do desprendimento. Livrar-se voluntariamente de alguns pertences é muito diferente de vê-los tragados pelas águas ou destruídos pelo vento e fogo, ou abandonados no rastro seco do flagelo que mutila há séculos a memória do povo nordestino.

Lembrei-me também dos semblantes de meus pais ao deixarem a casa em que viveram por quarenta anos para ficarem mais próximo das filhas adultas. Ela, sempre tão falante, emudeceu durante todo o trajeto até o prédio onde ainda mora. Ele mostrava-se resignado.

Minha mãe conseguiu reconstruir seu universo com novos objetos, enquanto meu pai buscou diariamente a antiga morada até a despedida final. Eu diria que me vejo em ambos, um pouco ontem e um tanto amanhã. Sobre o agora, tenho gavetas vazias e sacolões cheios, por fim. Há momentos em que o passado exige descarte. E o futuro grita logo ali.

* Publicado originalmente em Lugar Artevistas, blog em que escrevo mensalmente, às primeiras sextas-feiras.


Caminhabilidade: você sabe o que é? *

Quem duvidou do surgimento de novos conceitos de vida e bem-estar a partir da pandemia e seus períodos de confinamento, trago algumas considerações que observei informalmente nas vozes das grandes cidades.

Um quintal, sacada ou parquinho, por mínimos que sejam, viraram objeto de desejo dos habitantes de moradias compactas.

Em paralelo, renasceu o velho clamor brasileiro sobre a dificuldade de deslocamento para realizar as tarefas cotidianas mais simples.

Gastamos horas preciosas no trânsito para ir à padaria, farmácia, mercadinho, academia, banco, escola, livraria ou loja de roupa, quando poderíamos usar as próprias passadas, bicicleta ou patinete, se houvesse um bom planejamento urbano.

Quando uma cidade privilegia a escala humana, ou seja, dispõe de um traçado que facilita o acesso a lugares básicos e necessários, denominamos isso de “caminhabilidade”, uma concepção bonita e moderna que se vale de uma aptidão tão antiga quanto a humanidade: as passadas como meio de mobilidade antes do advento dos primeiros transportes.

Ao que parece, as pernas estão pedindo o retorno à primazia. Para tal, precisamos de calçadas largas e adaptadas, bairros com infraestrutura, ciclofaixas nas principais vias, ruas seguras e iluminadas, pequenos parques ao longo dos percursos que convidem a um breve descanso, além de transporte público confortável. Infelizmente, os maiores centros urbanos brasileiros trafegam na contramão desse ideal.

À medida que urbanistas do mundo inteiro alertam para o esgotamento do automóvel como solução de locomoção urbana, grupos pró-carros exigem o resgate dos asfaltos em metrópoles que já priorizam o pedestre, como Paris e Nova Iorque. Lidar com pensamentos divergentes é parte do processo de convivência, mas não podemos abdicar dos inegáveis benefícios que as cidades “caminháveis” proporcionam à nossa saúde mental e física.

E você? Apoiaria o uso do automóvel apenas para situações emergenciais ou extensos trajetos, à moda das cidades mais desenvolvidas do planeta? Enquanto reflete, vou ali comprar o pão de cada dia. A pé, claro!

* Texto publicado originalmente no “Mural da Ana Paula” [https://linktr.ee/muraldaanapaula], onde escrevo mensalmente nos terceiros sábados.


Pequenos votos de Ano Novo

Pequenos votos de Ano Novo

https://lugarartevistas.wordpress.com/2022/01/07/pequenos-votos-de-ano-novo/
— Ler em lugarartevistas.wordpress.com/2022/01/07/pequenos-votos-de-ano-novo/


“Viver é melhor que sonhar” *

Sonho com as coisas mais bizarras, adquiro superpoderes, me crescem asas potentes no lugar de braços frágeis, perco a roupa, não encontro a porta do banheiro, e por aí vai.

Noite dessas, sonhei com um jabuti. Fiquei cismada, uma vez que o bichinho de carapaça não costuma rastejar em habitats de vidro e concreto. Um amigo brincou para apostar no jacaré ou na cobra, segundo ele os que melhor se afinam na bolsa contraventora.

Em vez da fezinha transgressora, fiz uma breve consulta virtual sobre o seu significado onírico e deparei-me com vários conceitos positivos: “longevidade”; “tenacidade”; “felicidade”.

Felicidade é tudo, né? Não, não é. Desde a fala de uma filósofa contemporânea acerca das armadilhas que minam sociedades negadoras do sofrimento e da energia própria da vida, venho tentando driblar a alegria gratuita, a autoajuda enganosa, enfim, a obrigação de ser feliz o tempo inteiro. Mesmo com toda a carga, é inspirador encarar nossas aflições com coragem e transformá-las em algo útil a outros.

Para suportar a dor pela perda da minha única irmã e demais vítimas da Covid-19, coloquei mente e corpo ao capricho das letras, feito náufrago que se agarra à tábua na fantasia do resgate. Foi nesse cenário de tormenta que nasceu “Confinados”, coletânea de contos lançada um ano atrás.

Em maio último, minha editora submeteu o livro ao crivo do maior prêmio da literatura brasileira. Cheguei a duvidar das chances de uma pequena casa editorial e de uma autora tardia e pouco conhecida. Mas não custava sonhar, apesar do alerta do poeta.

Semirreclusa, prossegui de olhos bem abertos, cuidando dos meus, irrigando a esperança neste combalido país e no restante do planeta redondo, e atenta aos sobreviventes para além da minha soleira lustrosa.

Até que um par de dias após sonhar com o jabuti, fui surpreendida com a notícia de “Confinados” no rol dos dez finalistas do cobiçado prêmio. O aplicativo do celular lotou de mensagens. Abri a do amigo brincalhão: “E aí, jogou? Que bicho deu?”. Digitei com a mais genuína das alegrias em dois longos anos: “Deu Jabuti!”. E exagerei nos emojis de risos e bichinhos cascudos.

* Publicado originalmente no blog Lugar ArteVistas, onde escrevo mensalmente às primeiras sextas-feiras.


O ano em que não montei a árvore de Natal *

Em 2020, por motivos compreensíveis, não desencaixotei bolas, sinos e outros adornos natalinos, rito que cumpria há 23 dezembros.

Uma tragédia sanitária sem igual corroeu as entranhas do mundo, revelando toda sorte de maldade que nos espreita.

Perdemos entes queridos, adoecemos, deixamos de fazer inúmeras coisas, e cá estamos, chegando ao fim do segundo ano de pandemia, colando os caquinhos e tentando restaurar a normalidade.

Uma breve saída à noite neste comecinho de novembro foi o bastante para perceber que o Natal já se instalou nas cercanias. Muitos prédios piscam nervosos em vários tons. Eu falei “comecinho de novembro”?

Até entendo que após quase dois anos de afetos remotos estejamos ansiosos por abraços reais, mas o respeito aos rituais é importante para a sobrevivência das culturas. Afinal, ninguém festeja aniversário meses antes da data. Parece que tudo virou comércio, consumo e lucro. Cansada disso, sabe?

Na minha infância, as luzinhas só brilhavam em dezembro. A estrela no topo da árvore era ligada apenas na véspera de Natal. À boca da noite do 24, chegávamos à casa da tia Clotilde, a irmã mais velha [e solteira] da minha mãe, uma espécie de matriarca da família e avó para mim e minha irmã.

Meus pais, ambos órfãos [meu avô paterno – único vivo – morava no interior do Ceará e raramente vinha à capital] e com somente duas filhas, atendiam com imenso gosto ao chamado da tia Clotilde, estendido a alguns aparentados e vizinhos da avenida do Imperador, região central de Fortaleza.

Com a partida da minha saudosa tia, meus pais juntaram-se às noites felizes dos meus sogros que, por serem de outro Estado, sem parentes em Fortaleza, abriam as portas aos novos amigos cearenses, todos muito bem-vindos.

Meu marido e eu adotamos o grande núcleo familiar após o falecimento do meu sogro. Com o correr dos anos, as gerações mais novas passaram a realizar suas próprias confraternizações, numa evolução natural da vida.

Neste ano espero resgatar a tradição da árvore de Natal, celebrar em grupo o amor maior, a solidariedade, a compaixão e o infinito apoio que recebi dos amigos e familiares nos dias mais difíceis.

* Publicado originalmente no Blog Lugar ArteVistas, onde escrevo mensalmente às primeiras sextas-feiras.


A tal maturidade *

Chamar alguém de imaturo é como uma ofensa inaceitável, mesmo quando o acusado tem vinte anos ou menos; que nem um herege que se recusa a “vestir a carapuça”, para evocar a expressão eclesiástica medieval que se perpetua aos dias atuais.

Estava relembrando as inúmeras vezes em que me fiei ter atingido a sensatez e o equilíbrio que caracterizam a tal maturidade.

No primeiro beijo, me considerei a própria experiência. A primeira decepção amorosa trouxe a convicção de que eu me tornara precocemente madura. O ingresso na universidade veio escoltado da certeza de vivência máxima. A graduação, a primeira grana com o meu trabalho, a gravidez dos meus filhos, as amizades desfeitas por incompatibilidade ou desamor, o falecimento do meu pai… Um rol infinito de felicidades e tristezas da fase mais jovem.

Sempre que escalava um novo degrau da maturidade, eu acreditava que seria o último, que finalmente havia alcançado o real patamar da plenitude.

Dizem que a maturidade se instala [sem quaisquer garantias, descobri aos poucos] à medida que você desconstrói e humaniza seus heróis e heroínas – pais, amigos, companheiros, mestres –, e continua a respeitá-los e admirá-los da mesma forma.

A verdade é que a maturidade está a toda hora se evadindo. Além de chegar sem avisar, parte furtiva, sem aceno ou abraço.

De repente, no esplendor da terceira idade, a gente se pega, por exemplo, julgando uma pessoa querida que não atendeu às nossas exigentes expectativas. Pronto, a danada da maturidade escapuliu de novo, levando consigo tudo aquilo que incorporamos com ela, pois nunca anda sozinha, se faz acompanhar da tolerância, resiliência, compaixão e solidariedade.

Da próxima vez que alguém lhe surpreender com uma falha ou uma decepção, reflita antes de voltar à estaca zero do crescimento humano.

Proponho, portanto, vigília permanente às constantes fugas da tal maturidade. A gente se encontra na travessia. Boa sorte pra nós.

* Publicado originalmente no Blog Lugar ArteVistas, onde escrevo mensalmente às primeiras sextas-feiras.


Prazer!

Vejo gente nova por aqui. Pensei, então, em contar um pouco sobre mim, de como me tornei escritora, e aproveito para renovar laços com as queridas e queridos de sempre.

De jovem pedagoga à jornalista tardia voaram três décadas.

Nesse meio-tempo, casei (e permaneço), fui mãe de humanos e bichinhos, servidora pública, morei em Paris uma curtíssima – mas intensa – temporada que daria tranquilamente uma série “Celma em Paris”, habitei Nova Iorque, fui executiva de marketing em empresa privada e repórter.

Até que migrei de laptop e mouse para o mundo literário.

Foi a vivência em Nova Iorque, com dois filhos menores, que rendeu memórias para o primeiro livro (“Descascando a grande maçã”), narrativa leve e bem-humorada dos perrengues na famosa ilha que nunca dorme.

E chegou o primeiro neto.

Aos sessenta, veio o segundo livro (“Viver, simplesmente”), seleção de crônicas, artigos e reportagens publicados originalmente em plataformas diversas, presente da minha editora pelo meu ingresso na década “sexy” (fazer o quê? Sou adepta de celebrações em todas as fases).

O segundo neto, digo, a primeira neta chegou enquanto eu gestava o primeiro romance (“O segredo da boneca russa”), lançado em fins de 2018.

Dois anos depois, a estreia no gênero conto com a coletânea “Confinados”, em meio ao luto coletivo da pandemia e à perda da minha única irmã para a Covid-19.

Preparo agora uma nova cria, romance ou novela, ainda não sei. Certezas, pra quê?

Como em toda trajetória, altos e baixos, perdas e ganhos, uma fratura grave no tornozelo que esfacelou ossos e mandou minha mobilidade pro espaço por meses, trazendo lágrimas e ensinamentos.

Aos 65, acredito que tenho lastro para falar da vida. A parte mais difícil é conviver respeitosamente com os contrários, ao invés de eliminá-los, como querem alguns. O que precisa ser combatido sem trégua é o mal que habita o íntimo de cada um, só esperando a hora de nos tragar, sem nos dar a chance sequer de reconhecê-lo. “– Fascismo, onde?”

É isso, gente querida. Bem-vinda ao meu universo mutante e a este lugar onde compartilho, há dez anos, o cotidiano que me encanta e inquieta.

Bom domingo!


Todos os dias são passado *

A uma semana de entregar uma nova crônica para o “ArteVistas”, busco inspiração em fotos antigas de família.

Bem que eu gostaria de escrever algo leve e atual, mas em tempos de afastamento social e pouca empatia – mesmo atenuados pela brisa acolhedora de agosto no meu sertão praieiro –, o passado se mostra o melhor parceiro.

Lembro-me de uma entrevista em que o escritor amazonense, Milton Hatoum, afirma que “a literatura trabalha e reaviva o passado”. Portanto, não o lastimo, pelo contrário, louvo o passado; ele nos permite brincar com as palavras na tentativa de decifrar a alma humana.

Pego, então, os álbuns de fotografias e vou carimbando minhas digitais nas velhas páginas da infância, adolescência e juventude.

Estou nos braços da minha mãe, à frente do meu saudoso pai, boquinha prestes a soprar a primeira velinha. Uso um lindo vestido de organza azul feito pela parente modista, em perfeita composição com o laço da cabeça. Meninas vestiam azul às vésperas de 1960.

Aposto todas as velinhas sucessoras, que minha mãe não fez ali um apelo genérico, do tipo: “Que minha filha seja feliz!”. Arisca e cuidadosa como ela só, não submeteria o futuro da caçula a interpretações de divindades já tão sobrecarregadas de pedidos. Certamente encomendou os mínimos detalhes em silêncio, conforme a tradição: “Saúde, profissão digna, autossuficência, casamento por amor e filhos saudáveis”. Nessa ordem. Desejo de mãe é sagrado.

Salto treze anos e caio nas areias escaldantes do Pecém, jangadas ao fundo. Eu, irmã e primas. Férias de verão. Falar em verão no Nordeste é igual a “subir pra cima” ou “entrar pra dentro”. Não está de todo errado, mas é “over”, segundo os colonizados chiques. Excesso de coisa nenhuma.

Quatro temporadas depois e eis-me fantasiada de havaiana com uma querida amiga. Aquele carnaval ouviu meu grito de maioridade. Foi-se o arroubo juvenil, permanece a longeva amizade.

Devolvo o passado à estante e retomo a criação sem pressa do livro de gênero ainda indefinido, uma novela, talvez? Alterno com a leitura de um clássico literário. Estamos sempre trazendo o ontem. E lembrei-me novamente do grande Hatoum.

*Publicado originalmente no blog Lugar ArteVistas, onde escrevo mensalmente às primeiras sextas-feiras.


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