Arquivo da categoria: crônicas

Inspiração pra que te quero

“Em que você se inspira para criar suas narrativas?”

Essa é a pergunta que mais tenho ouvido de leitores do meu romance “O Segredo da Boneca Russa”.

“Sinceramente, não sei”, respondo, diante do semblante desapontado do interlocutor.

Entendo que é natural querer saber de onde vem a inspiração dos escritores. Eu também tenho essa curiosidade. Mas tudo o que posso dizer é que as minhas “inspirações” não têm fórmula pronta. Um simples passeio de bike pode transformar tudo.

Lembro que, em 2014, eu estava em Paris iniciando a criação da personagem-narradora, Joëlle, e saía diariamente no final da tarde – de bike ou a pé – para dar uma relaxada.

Em uma dessas escapadas, cheguei ao Jardin du Luxembourg e não quis devolver a bike na estação velib que fica bem ao lado. Então, tive que caminhar empurrando a bicicleta, já que não é permitido pedalar dentro no parque.

Foi exatamente esse detalhe que me permitiu observar melhor uma das mais espetaculares esculturas do local. Eu já estava cansada e resolvi sentar em uma das cadeiras que circundam a Fonte Médici. Encostei a bike na grade da fonte e, nesse momento, aproximou-se um jovem casal. Eles ficaram abraçados em silêncio admirando a bela obra.

A visão dos dois apaixonados diante de Acis e Galatea inspirou-me a criar André, o namorado que Joëlle deixou em Paris quando partiu com a mãe para o Brasil. “Caminhamos de mãos dadas até a Fonte Médici, um lugar que eu considerava mágico. (pág. 92)

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

De outra vez, eu caminhava pela rue Fleurus quando reparei em um grupinho animado de turistas fotografando em frente a um prédio. Diminuí o passo para observá-los discretamente. Falavam em inglês e apontavam para uma placa na fachada. Quando eles se afastaram, pude ler que ali havia morado Gertrude Stein. Resolvi incluir o fato no trajeto diário da sonhadora Joëlle. (pág. 141)

Enfim, caminhando ou pedalando, a tal “inspiração” me chega da forma mais inesperada. Penso que tem mais a ver com intuição, sensibilidade, de enxergar a complexidade da vida em situações aparentemente banais. É isso.


O olhar mais doce que eu já vi

Em memória de Luiza Bitar, que nos deixou no último domingo

Mães são sagradas.

Avós são sagradas em dobro.

Minha sogra era assim, transbordava bondade, nobreza e generosidade, qualidades divinais.

Amor incondicional aos quatro filhos.

Carinho extremado aos dez netos.

E os nove bisnetinhos que lhe chegaram só recentemente ainda tiveram a dádiva de serem admirados pelos olhos mais doces que eu já vi. A longa enfermidade não tirou-lhes a doçura, apenas silenciou seus lábios, prova de que o amor verdadeiro não precisa de palavras.

Completava a beleza interior com o cuidado com a aparência. Trazia os lábios sempre preenchidos com a cor preferida de batom. Não podiam faltar também o aroma do jasmim e aquele creme antirrugas que trazíamos das viagens.

Feliz de quem desfrutava da sua casa e do seu colo. Ali encontrava carinho e uma fartura de quibes e charutinhos preparados por suas generosas e hábeis mãos. Nunca comíamos o suficiente. “Sirva-se mais um pouquinho, minha filha, você não comeu nada! Então, não gostou!”, eu já ficava esperando a sua afetuosa repreensão. Logo aprendi a deixar um espaço para poder repetir porções dos seus famosos quitutes libaneses e paraenses.

Realizei o seu sonho de ter nos braços o primeiro netinho, filho do seu primeiro filho. “Vovó só me faz contente!” foi uma das primeiras frases que ele lhe falou e que a senhora replicou durante anos, entre comovida e orgulhosa. Hoje é ele quem reconta a própria declaração infantil e acrescenta que o amor de seus avós foi o maior amor que ele já presenciou. Que sorte a dos meus filhos e sobrinhos!

A senhora teve os melhores filhos do mundo e isso tem pouco a ver com sorte. De forma natural e espontânea eles apenas praticam seus ensinamentos e exemplos, da senhora e do meu saudoso sogro, Seu Joel, multiplicando naturalmente o amor generoso que receberam.

Quando o seu grande e único amor partiu, a senhora quis acompanhá-lo, mas provou mais uma vez sua fortaleza e permaneceu 22 anos conosco. Agora vocês dois estão no mesmo plano novamente. Cumpriram lindamente sua missão, colocando o amor sempre acima de tudo. Que o exemplo dos dois permaneça nos inspirando a todos. Continuem nos olhando com doçura. Da nossa parte, prometemos continuar honrando o seu legado.


Tempo certo para tudo*  

“Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.”

(Eclesiastes 3)

 

Três reflexões sobre o tempo aparecem em três diferentes textos desta edição da Revista SAL. Trata-se de duas crônicas – de Eliana David e de Izabel Machado – e um meditativo ensaio literário de Regina Fiúza.

As três integrantes da Sociedade Amigas do Livro (SAL) abordam, sob diferentes perspectivas, a importância da temática que ocupa a mente de filósofos e pensadores de todas as eras, desde Agostinho de Hipona (354-430), conhecido mundialmente como Santo Agostinho, conforme declarou na obra autobiográfica Confissões: “Se ninguém me faz a pergunta ‘O que é o tempo?’, eu sei a resposta; mas, no momento em que tento explicar, deixo de sabê-la”.

A instigante reflexão filosófica agostiniana sobre a função do tempo pode ser aplicada a outros temas tão comuns quanto essenciais, como a arte em suas diversas expressões.

Qual o papel, por exemplo, da literatura em nossa vida? Há espaço para os livros em nosso atribulado cotidiano? De que forma os livros transformam a contemporaneidade? Como justificar o crescente desinteresse público pelos livros [segundo estudos], quando as obras literárias seguem proporcionando alegria, entretenimento e conhecimento a milhares, ajudando inclusive na superação de tristezas e perdas?

Faz-se necessário lembrar que há tempo certo para tudo, de acordo com a citação inicial desta peça editorial, um trecho do livro bíblico Eclesiastes.

Tempo de amar e doar. O amor à literatura é o principal motor da Sociedade Amigas do Livro, entidade fundada há 57 anos, em Fortaleza, com a missão de democratizar o acesso à leitura através da formação e doação de bibliotecas às mais distantes e carentes comunidades do nosso Estado.

Tempo de reconhecer. A sexta edição da Revista SAL – veículo que registra o trabalho sociocultural das nossas associadas – reitera a solidez do projeto literário idealizado por Beatriz Alcântara que enriquece a edição com duas tocantes poesias, ao lado das companheiras Giselda Medeiros, Lourdinha Leite Barbosa – que nos representa a todas na poesia Canto de amor à Suzana, declaração fraterna à querida Suzana Ribeiro, fundadora e decana da SAL –, Révia Herculano e Neide Azevedo, esta última vencedora do Prêmio Osmundo Pontes de Literatura 2017, na categoria.

Tempo de homenagear. O perfil biográfico da inesquecível poeta Rita de Cássia Araújo, falecida em 5 de junho do corrente ano, abre a edição 2018/2020 da Revista SAL, onde Celma Prata rende um tributo à querida companheira do livro.

Tempo de deleitar-se. Côca Torquato, artista plástica dotada de profunda sensibilidade e reconhecido talento, criou as belas e exclusivas ilustrações de capa e miolo desta edição. É também da sua autoria um dos encartes destacáveis, onde manifesta orgulhosamente suas raízes nordestinas; o segundo encarte é da igualmente talentosa Terry Araújo, ceramista que se apresenta aqui com nova expressão artística: o bordado literário.

Tempo de recordar e aplaudir. Edyr Rolim participa com a indicação de comovente poesia da saudosa Nadir Papi de Saboya. Outras queridas companheiras nos brindam com brilhantes textos acadêmicos e literários: Angela Gutiérrez, Dina Avesque e Nadja Moreira. Juntem-se o palpitante conto de Thereza Leite e as interessantes crônicas de Bernadete Bezerra, Cybele Pontes, Ester Weyne e Marilena Campos, além do expressivo ensaio de Vera Moraes sobre o romance Paisagem com dromedário, da escritora Carola Saavedra.

A advogada Carolina Torquato nos honra com um reflexivo artigo: Seremos uma antítese de nós mesmos?

Tempo de sonhar com os novos tempos que virão. Que venha uma infinidade de livros que nos permita sonhar com um mundo onde todos são livres e respeitados. Que o tempo de guerra e ódio dê lugar ao tempo de amor e paz. Feliz Natal e Próspero Ano Novo!

 

*Texto publicado originalmente no Editorial da Revista SAL, edição No 6, dezembro/2018.


Etna aos 40


Pisar no solo do vulcão ativo mais alto da Europa foi a parte mais incrível da aventura de comemorar quarenta anos de casados

 
“Vamos conhecer a Sicília?”. Meu marido vinha há tempos propondo uma visita à ilha italiana, a maior do Mar Mediterrâneo.

Nos últimos 25 anos, fomos algumas vezes à Itália, sempre para curtíssimas temporadas, o que nos obrigava a eleger apenas uma região por vez. Assim, estivemos no Lácio, Vêneto, Toscana, Ligúria e Piemonte. A Sicília sempre ficava para a viagem seguinte.

Em todas elas, bebidas e comidas lideraram nossa curiosidade, por considerarmos ser essa a forma mais prazerosa de conhecer a cultura e hábitos locais. Ele, mais interessado nos ingredientes e modo de preparo dos pratos principais e harmonizações; eu, focada nos doces, sorvetes e sobremesas. Em nossos roteiros, portanto, nunca faltam passeios por mercados e feiras-livres e muita conversa com produtores. Adianto logo que não somos especialistas, longe disso, mas apreciamos vinhos e novos sabores.

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

Dizem que aromas e sabores recuperam memórias que se supunham esquecidas. E deve ser mesmo verdade. Em todas as nossas viagens, há sempre uma comida ou bebida que nos marcou.

Da nossa estreia em terras italianas, em 1992, pelo Lácio, lembramos o personalíssimo Spaghetti alla carbonara, entre copos de vinho branco Frascati, feito com uvas Malvasia.

Da viagem seguinte, para a região do Vêneto, guardamos os sabores divinos do Tiramissu, do risoto com pancetta e ervilha, e do fígado acebolado, com taças transbordantes de Valpolicella, uva Corvina.

Permanecem em nossa lembrança o gosto dos azeites da Toscana, onde estivemos em 2004, além dos queijos de ovelha e da tradicional Bisteca fiorentina – um exclusivo corte da costela de boi da raça Chianina que agrega três carnes: filé, contrafilé e alcatra –, arrematados com vinhos Brunello e Chianti, ambos de uvas Sangiovese.

Sempre que sinto cheiro de manjericão, me vem à mente o prato que comemos, em 2013, na Ligúria, região produtora da erva. O pouco tempo passado em Savona – parte do nosso roteiro marítimo pelo Mediterrâneo – foi suficiente para comprovarmos o motivo da região ser conhecida como “terra do pesto”. Todos os cardápios trazem Trofie al Pesto, uma massa de formato pequeno, fininho e torcido, servida ao molho que tem por base o manjericão. Nas taças, um bom vinho Cinque Terre, elaborado a partir de castas como a Vermentino.

E foi também entre produtores locais e expositores da Feira Internacional da Trufa Branca de Alba, no Piemonte, que nos deliciamos, há um ano, com raspas da caríssima trufa branca – de aroma inigualável – sobre singelos ovos fritos ou talharim fresco, saboreados com vinhos Barolo e Barbaresco, da uva Nebiollo. Em Alba, viramos “caçadores” de trufas, guiados por um Trifulau, especialista que conduz cães farejadores pelos campos úmidos em busca do valioso fungo.

Finalmente, neste novembro, o nosso sonho Siciliano materializou-se em fartura de ricotas, arancini, frutos do mar, berinjelas fritas, além de doces maravilhosos, como o cannoli, a cassata e a granita com brioche até no café da manhã.

Graças à diversidade do solo vulcânico da ilha, muita pesquisa e tecnologia de ponta a serviço de produtores conscientes, os vinhos da Sicília têm conquistado mercado e muitos apreciadores. Degustamos taças e mais taças do Etna Bianco, composto pelas uvas Carricante e Catarratto, e do tinto Nero D´Avola, da casta Nerello Mascalese. O vinho fortificado Marsala estava presente ao final das refeições.

Testemunha soberana de toda essa orgia enogastronômica, o Etna nos fisgou desde a primeira espiada através da janelinha do avião, quando sobrevoávamos suas impressionantes crateras para o pouso no aeroporto de Catânia, de onde partimos imediatamente de carro para conhecer a esplêndida costa leste siciliana. Programamos o gigante de 3.330 metros de altitude para o último dia de nossa viagem.

De volta à Catânia, após cinco dias de andanças e curtições, estávamos prontos para a façanha que coroaria a comemoração dos nossos quarenta anos juntos.

Foi quando os planos começaram a ruir. Se fôssemos supersticiosos, teríamos desistido. A agência cancelou, de última hora, a visita guiada, com a justificativa de que o guia sofrera, lamentavelmente, um acidente e não havia tempo para substituí-lo. O clima não estava favorável, a previsão era de chuva e muitas nuvens. Para completar, era o dia da Festa dei Morti.

Persistentes, soubemos pela gentil recepcionista do nosso hotel que havia um transporte diário para o Etna, saindo às 11h30 da Piazza Duomo – a dois passos dali – e retornando às 18h. Teriam ainda lugares disponíveis? Corremos para lá e nos deparamos com uma jardineira. “Será uma boa ideia?”, meu companheiro perguntou. Compramos os últimos dois lugares por setenta euros. A aventura estava apenas começando.

O trajeto sinuoso e íngreme de uma hora e meia até a primeira etapa – as chamadas Crateras Silvestri, a 1.900 metros de altitude – antecipava as intensas emoções que nos aguardavam. Mas nada é comparável a caminhar naquela imensidão silenciosa de crateras que mais parecem “uma paisagem lunar”, como bem definiu Patrícia Kalil, do blog Descobrindo a Sicília.

Valeu cada minuto de frio – com temperaturas próximas a zero grau –, os ventos fortes e os solados pretos – antes brancos – dos tênis. Brindamos no Refúgio Sapienza – o pequeno complexo turístico com restaurante e lojinhas – com taças de vinho rosso do Etna. No retorno, sol se pondo, “ônibus” com cortinas de plástico abaixadas para nos proteger do vento gelado, tivemos a certeza de que tínhamos vivido um dos dias mais incríveis da nossa duradoura união.


OS PAIS NÃO DEVERIAM MORRER (*)

Meu pai viveu oitenta agostos.

 
Ele partiu às vésperas do seu aniversário e do Dia dos Pais. O vozerio alegre de familiares queridos deu lugar ao doído luto. Percebi, com tristeza, que a expressão “matar a saudade” virou desejo irrealizável.

 

Pego-me refletindo sobre a linha cheia de arrodeios que é a vida. Entre o início e o fim, uma infinidade de pontos vão traçando nossa caminhada. Nem sempre podemos mudar o rumo, retornar à largada, desviar de perigos ou pegar atalhos seguros.

 

Pudera eu, em um desses pontos, rever, por um segundo que fosse, o seu jeito simples, gentil e agregador e, de quebra, ouvir o seu gargalhar solitário.

 

– Está rindo do quê, pai?

 

Eu já conhecia a resposta, mas perguntava assim mesmo, para que ele pudesse reviver episódios divertidos da infância sertaneja.

 

No seu mês de agosto, em tripla homenagem, vou deixar a alegria embalar as lembranças de momentos inesquecíveis compartilhados.

 

A saudade será eterna, assim como o meu amor por ele.

 

*Publicado originalmente no jornal O Povo (agosto/2017), caderno especial “Pai, Beleza & Poesia”, editado pela jornalista Lêda Maria Feitosa Souto


A pequena mais que notável (*)

Diante de uma linda gravura afixada no quadro negro da sala de aula, que mostrava a imagem de uma casinha branca com janelas azuis, a criança de sete anos escreveu algo inesperado. Ao invés de descrever a ilustração, como lhe pedira a freira, seus olhinhos infantis atravessaram as paredes da casinha e se compadeceram com o sofrimento de uma menininha porque no dia seguinte iria ao dentista.

O episódio pode ter sido uma epifania para a futura poetisa cearense Rita de Cássia Araújo, nascida em 15 de janeiro de 1941, primeira dos oito filhos de Neomísia Oliveira Fernandes e Milton Amaral Fernandes, que enfeitou com lacinhos e rendinhas o cotidiano dos avós maternos, até então repleto de netos homens. Pelo lado paterno, foi a responsável pela estreia dos avós no sentimento imortalizado em tocante texto de Rachel de Queiroz (“Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu (…)”, em A arte de ser avó), transformando a vida de toda a família Fernandes.

A criança sensível, que começou a ler aos cinco anos e já demonstrava, aos sete, vocação para as letras, sofreu muito cedo a primeira grande perda: a morte da querida avó paterna. A felicidade da menininha tão amada e aguardada foi novamente sabotada pelo surgimento de grave enfermidade do pai. As duas fatalidades a marcariam indefinidamente.

Da infância em cidade do interior à mudança definitiva para Fortaleza, intercalada por temporadas de férias escolares em São Paulo, foram muitos os percalços até alcançar os dias atuais. Da mística Canindé, no semiárido cearense, onde o flagelo da seca não consegue destruir a fé do povo, Rita de Cássia conserva valores e ensinamentos humanísticos: a espiritualidade e humildade franciscanas. E da maior metrópole brasileira, a poetisa eternizou gratidão em versos de 2004 que homenageiam o pai e sua cidade de adoção, que completava 450 anos:

“(…) Pai humilde e guerreiro,
guardei nossas palavras e sonhos,
hoje mesmo distante sinto o perfume
das flores e dos frutos maduros.
Vontade de estar contigo!
A ti cidade querida, parabéns.
És meu aconchego, meu lado familiar.
Pai e mãe no campo Santo de Congonhas.
Seja bendita, benditos sejam teus filhos
verdadeiros ou de adoção.
Viva! Viva! Viva!” (“A São Paulo e a meu pai, com amor”)

O casamento precoce, aos dezessete anos, com o futuro arquiteto Nearco Araújo, e a chegada dos dois filhos resgataram a alegria de viver e renovaram suas esperanças no mundo. Como na maioria das trajetórias dos casais, a etapa seguinte foi marcada pelo crescimento profissional de ambos e os cuidados com a educação de Helena, economista, e de Nearco Filho, engenheiro, que lhe deram três netos de comprovada sensibilidade artística: Beatriz (Bia), que faz doutorado em Moda e Design, em Londres; Pedro, jornalista, que realiza mestrado em São Paulo; e Joana, professora de dança e nutricionista, que cursa pós-graduação em Fortaleza. A relação com os filhos e netos é baseada na troca natural de afetos e respeito mútuo. São tantas as afinidades que a avó Rita condiciona a realização afetiva e profissional dos netos à coroação da própria existência.

Rita de Cássia sempre esteve ligada à cultura, desde o primeiro emprego, como guia de museu, que lhe aguçou sentidos e aptidões enquanto a preparava para assumir maiores responsabilidades como funcionária da Universidade Federal do Ceará, na área da Tecnologia da Informação, onde atuou com brilhantismo até se aposentar, em 1992. Sua caminhada literária é alimentada igualmente pela fiel devoção a anjos divinos. Todos em casa tinham um santo de proteção, o seu era o Anjo da Guarda, tema central de uma obra apresentada pelo imortal Artur Eduardo Benevides, o aclamado “Príncipe dos Poetas Cearenses”.

A inspiração chega sorrateira, sem aviso prévio ou necessidade de estímulos externos, surpreendendo a criança atrás do guarda-roupa, sentada em um banquinho, para escapar da implicância das irmãs com sua mania de escrever. Ou apanhando de surpresa a jovem mãe no anonimato do estacionamento da escola dos filhos, registrando emoções no papel, enquanto aguardava o término da aula. Ela assegura que a poesia é vital à sua sobrevivência em todas as circunstâncias e fases.

Reconhece, com certo pesar, que publicou tardiamente o primeiro livro (Cores, em 1984), que considera a maior conquista profissional. A partir daí, felizmente, não parou mais: Essência (1987); Sementes (1990); Unguentos (1994); Cartas e Poemas ao Anjo da Guarda (1997); Mulher e Terra (2000); Manga Madura (2004); Por Detrás das Gavetas (2008); Cajueiro Florido (2012); e, o mais recente, Palavras (2016), em comemoração aos seus 75 anos de vida e aos oitenta do marido.

Elege a formatura dos herdeiros como o principal marco na sua maturidade, satisfação comparável apenas à concretização da tão sonhada viagem à China, em companhia do marido. A explicação para tamanha admiração pelo país asiático encontra-se na capacidade imaginativa da criança que um dia se tornaria respeitada poetisa. Desde a mais tenra idade, quando ouvia alguém proferir a velha expressão “Vá pra China!” a uma pessoa de comportamento indesejável, a menina educada no rigor cristão associava o tal lugar ao inferno, destino das almas penadas. Foi graças aos esclarecimentos de uma amiga da família, Alba Veloso, professora de Geografia, que a pequena Rita pôde desconstruir a imagem diabólica e passar a cultuar o país de tradição milenar. A aposentadoria lhe trouxe, finalmente, as condições financeiras necessárias para realizar o sonho antigo.

Na posição de grande admiradora da filosofia oriental chinesa, Rita de Cássia experimentou momentos de profundo enlevo, como na visita ao mausoléu do imperador Qin Shihuang (260-210 a.C.) – monumento equiparável em importância às Pirâmides de Gizé (Egito) e ao Taj Mahal (Índia) –, na cidade de Xi’an, a 1.200 quilômetros de Pequim. Acreditava-se à época que, ao deixar a vida terrena, podia-se levar para o plano posterior tudo o que se julgasse de enorme valia. Para o monarca, a preciosidade maior era seu exército. Ele mandou construir, portanto, uma tumba gigantesca com milhares de soldados moldados em terracota, em tamanho real, cada um com uma fisionomia única e vestidos de maneira distinta. O tesouro foi descoberto, casualmente, em março de 1974, cerca de 2.200 anos depois de construído, e ficou conhecido popularmente como Guerreiros de Xi’an.

Em vez das figuras demoníacas do imaginário infantil, a mulher madura vivenciou na China as mais sublimes sensações. Emocionou-se às lágrimas ao pisar a Praça da Paz Celestial, no centro político de Pequim, palco do massacre do governo para conter a maior manifestação popular contra o Partido Comunista Chinês (PCC), entre abril e junho de 1989, liderada por jovens universitários que reivindicavam liberdade de imprensa e de expressão, e protestavam contra a repressão aos direitos individuais e das precárias condições sociais.

A criadora de belos poemas contemporâneos, que nutre profunda admiração pela obra de Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, autores de diferentes escolas e procedências, guarda com carinho e orgulho a carta manuscrita do amigo Drummond, confirmando-a poetisa. Como ainda duvidar do seu talento? A modéstia, contudo, a impediu por muito tempo de revelar o “veredito” do poeta mineiro, com quem manteve regular correspondência que ela finalizava sempre com “Um caloroso abraço”. Leitora contumaz, planeja para breve devorar a vasta produção do saudoso poeta mato-grossense Manuel de Barros, cuja simplicidade era comparada às virtudes atribuídas a São Francisco, santo de referência de Rita de Cássia.

Como ativista cultural, ela participa de várias entidades literárias, a exemplo da Sociedade Amigas do Livro (SAL), da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB), da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Fortalezense de Letras (AFL) e da Rede de Escritoras Brasileiras (REBRA).

A poetisa retribui a generosidade da vida com cidadania e altruísmo. Nas típicas manhãs nordestinas, com brisas que tentam, em vão, abrandar o calor que transpassa as grossas paredes históricas do Palácio da Luz, no centro de Fortaleza, ela pisa respeitosamente a ampla passarela de parquet e, observada por olhos imortais, dirige-se à sala da biblioteca onde, entre pilhas de livros e revistas, é auxiliada por um pequeno e motivado grupo.

É nesse solene ambiente cultural que Rita de Cássia cumpre a bela tarefa voluntária de formação de bibliotecas para comunidades sem acesso aos livros, principal missão da Sociedade Amigas do Livro, uma das quatorze entidades literárias cearenses abrigadas no palacete edificado por volta de 1781, atual sede da Academia Cearense de Letras, a mais antiga instituição do gênero no país, fundada em 15 de agosto de 1894. No currículo da equipe liderada por Rita, já constam 65 bibliotecas instaladas na capital e municípios do interior do estado.

Quando não está transformando pensamentos e devoções em poesias ou organizando e restaurando livros doados, Rita de Cássia se diverte crochetando lindas peças, arte que aprendeu na infância com a vovó Bela (Isabel Amaral Fernandes), mãe de seu pai, sucedida pela irmã Honorina na formação moral e educacional da neta. A tia Teté, como os filhos da poetisa a chamavam, morou com a família da sobrinha-neta até falecer e foi sua maior referência afetiva. É esse amor ao próximo que ela procura praticar, inspirada em seres de espírito elevado, voltando-se principalmente àquelas pessoas que carecem de pequenos gestos amigos, como um simples e fraterno abraço. No outro extremo da condição humana, a poetisa lamenta a disseminação das guerras e a ambição desmedida, equiparando-as às piores maldades e causas dos maiores infortúnios da humanidade.

A autodeclarada ausência de vaidade, representada pelos cabelos curtinhos e naturais, sem qualquer coloração química, é contestada por um único excesso: anéis. Um monte deles. O estilo rendeu-lhe o apelido carinhoso de “Maria Bonita”, dado por uma das netas. A designação a faz sorrir, enquanto gesticula mãos adornadas de belos aros que ganha todos os anos do marido, seu companheiro nessas quase seis décadas.

Entre as situações que a deixam feliz e risonha, estão as mais singelas, como quando reúne os netos ou entrega uma biblioteca da SAL. Tristeza mesmo ela sente ao tomar conhecimento de alguém doente, sem condições financeiras para custear o tratamento. A serenidade que a distingue, todavia, é colocada à prova perante o caos doméstico, embora se esforce para ser tolerante com os auxiliares do lar. A única frustração pessoal é não ter tido a oportunidade de concluir o curso superior, devido à jornada dupla de trabalho para ajudar nas despesas familiares, ainda que se considere vencedora com a formação no curso normal, antigo magistério.

Na fila de autógrafos do seu primeiro livro de poesias estava a mestra que, naquele longínquo dia, quando a menina Rita de Cássia se viu refletida no interior da casinha branca de portas azuis, vaticinou que ela seria escritora. Comovida com o reencontro surpreendente, não pôde evitar a lembrança traumática da extração do seu dentinho de leite, com o sangue jorrando sobre o vestidinho cor de rosa, cheio de bolinhas.

Admite com certa tristeza a resistente aversão a procedimentos odontológicos. À naturalidade com que expõe um traço vulnerável, ela acrescenta outras características marcantes: alegre e pequena. A estatura atrai diminutivos carinhosos. Engana-se, porém, quem associa altura a vigor. Na essência, Ritinha é grandiosa como as suas mensagens poéticas, fértil como as sementes que germinam na natureza, doce como a manga madura, frondosa como o cajueiro florido, misteriosa como o conteúdo de gavetas secretas, e eternamente saudosa da sua sofrida Canindé:

“(…) Procuro no final da tarde
​​​antes da lua clarear
o céu azulado da minha terra.
Nada encontro
Além da terra seca,
quase sem vida. (…)” (“No baú…”, em “Palavras”, 2016)

A menina alfabetizada em casa, aos cinco anos de idade, pelas tias professoras, era o orgulho do pai, que não perdia a oportunidade de exibir aos amigos os dotes da pequena leitora que, mesmo a contragosto, lia em voz alta o jornal O Santuário de São Francisco das Chagas, para deleite geral. A mulher que desde criança tem um anjo para chamar de “seu” dedica imensurável amor à família, valoriza as origens e confia na proteção divina. Com um olho no trançado do crochê e outro na tevê, alternando com a leitura de um bom livro, ela segue gestando emoções. Tendo a inspiração permanentemente à espreita, a qualquer momento pode surgir um novo livro de poemas. Cuidadosa no falar, entrega-se sem parcimônia a instantes reflexivos para se autodefinir doida e meia, em meio a um sorriso maroto. Sim, a vida para a poetisa que persegue os sonhos com a paciência dos obstinados pode ser encarada também de forma divertida. Aos comuns mortais, resta-nos aplaudir sua abençoada “loucura”.

••••••••
*Publicado originalmente na revista Policromias, da AJEB.


Ser Fortalezense

Não é só sobre ter uma certidão de nascimento em cartório.

É sobre acolher forasteiros e fazê-los sentir como se em casa estivessem.

É absorver a cultura interiorana de pais e avós, e construir a sua própria.

É sobre a habilidade de profissionalizar o humor, desafiando adversidades.

É definir o seu próprio sotaque a partir da mistura de vários.

É desejar 365 dias ensolarados por ano, mesmo reconhecendo a necessidade de uma boa chuva.

É sobre saber transformar o martírio de revolucionários em Passeio da esperança para as novas gerações.

É preferir morar junto ao mar, contrariando a ideologia rural do “quanto mais longe do litoral, melhor”.

É sobre evocar o feminismo das heroínas emblemáticas de Rachel de Queiroz.

É agir de forma possessiva, quase infantil, apontando os defeitos sem permitir que estranhos o imitem.

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

É sobre ter a honra de partilhar com José de Alencar o berço natal, a primeira luz.

É apoderar-se de valiosos equipamentos culturais, de teatros a praças, como se privados fossem.

É sobre alimentar o espírito com a irreverência dos jovens padeiros literários.

É rejeitar o descaso com a tragédia da seca, por atrair a fome, o fanatismo religioso e a reinvenção do cangaço.

É sobre indignar-se com demonstrações de baixa afetividade de migrantes e imigrantes.

É sobre sonhar com igualdade social, do Bom Jardim ao Meireles, porque ninguém sobrevive sem uma utopia.

É tecer loas a outras cidades e manter a sua no topo das maravilhosas.

É sobre celebrar 291 anos com orgulho, confiança e luta.

É respeitar os símbolos da ancestralidade negra e índia.

É reescrever a História com caligrafia holandesa, portuguesa, universal, ou ainda brasileira e mesmo cearense de outras plagas.

É ser, sobretudo, um forte, força, fortificação, Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção.


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por Ingrid Martins e Aline Farias