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As lutas de março*

Desde a minha última postagem neste espaço sobre o dia dedicado internacionalmente à mulher, poucas mudanças ocorreram de fato.

Louvo todas as conquistas femininas do último século, principalmente, mas ainda há enormes desafios a enfrentar. A começar pela nossa pouca adesão ao movimento. Uma pesquisa de 2019, feita pelo Data Folha, mostra que apenas 38% das mulheres brasileiras se consideram “feministas”. O percentual sobe para 47% entre as mais jovens (com menos de 35 anos), e para 44% entre as que concluíram o ensino superior. Enquanto isso, fontes oficiais denunciam dados aterradores: mata-se no Brasil três mulheres por dia, pelo simples fato de serem mulheres.

Proponho nos debruçarmos sobre os motivos que levaram à escolha do oito de março como marco da luta feminina por um mundo mais justo e igualitário. Para começar, a data foi inspirada na mulher operária. As referências mais citadas evocam dois episódios transcorridos em Nova Iorque durante greves de trabalhadoras têxteis que teriam acontecido no mês de março de séculos distintos, reprimidas violentamente pelos patrões e polícia. No segundo episódio, morreram mais de cem mulheres queimadas dentro da fábrica em que trabalhavam.

Não se trata, portanto, de data comercial, como Dia das Mães, Dia das Crianças, Dia dos Pais e outras tantas criadas para aquecer as vendas e fazer girar a economia. Já critiquei várias vezes a forma equivocada com que publicitários e estabelecimentos comerciais propagam um dia que deveria ser de reflexão e debate.

Oito de março pode até vir acompanhado de rosas vermelhas, desde que não desqualifique a luta feminina. Temos todos os outros dias do ano para as celebrações festeiras – que são maravilhosas.

Vamos guardar esse dia para lembrar ao mundo da importância de se combater diariamente as injustiças e desigualdades entre os sexos, e para fortalecer a luta feminina – que deve ser de todos – pelo direito à vida, equivalência salarial e direitos reprodutivos, entre outros.

“Sejamos todos feministas”, apela a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Quando uma mulher luta pelo seu próprio espaço, ela pode melhorar o mundo. Isso é ser “feminista”. Vamos subir os índices da próxima pesquisa?

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*Texto autoral publicado originalmente no blog Lugar Artevistas, onde escrevo às primeiras sextas-feiras do mês.


Era uma vez uma casa triste*


“Uma casa arrumada é uma casa morta; onde há vida há perturbação da ordem”. A voz grave e melodiosa do filósofo Mário Sérgio Cortella entrou pelos fones de ouvido enquanto eu transpirava no meu limitado circuito aeróbico: sala-cozinha-varanda, com algumas barreiras no meio do caminho.

Se existe uma casa viva nesses tempos de pandemia, é a minha, constatei ao circular pela quadragésima vez a mesa de jantar transformada em ilha de trabalho, com computador, cadernos, blocos, livros, canetas e um suporte para celular; ou ao me esgueirar por entre sofás, poltronas, pufes e esbarrar numa banqueta deixada fora do lugar; ao roçar mais uma vez a perna direita na porta rebelde do armário sob a pia da cozinha; ao saltar as anilhas de halteres no canto de um degrau; ou ao pisotear as folhas amareladas na varanda.

O resto do dia refleti sobre o direito de uma casa ser alegre. Direito a almofadas e cadeiras fora do lugar; a piano centenário explorado por dedinhos desafinadores; a bicho gigante de pelúcia ocupando metade da sala; à garrafinha d’água vazia junto à xícara de café sorvido sobre a mesinha de centro; a colchonete de treino funcional esquecido na varanda; e a até uma leve camada de poeira sobre os móveis.

Admito que mantive a minha casa impecavelmente linda – aquela que se costuma chamar “casa de revista” – mesmo à época de dois filhos desbravadores que já me deram netos. A chegada dessa novíssima geração levou-me a concessões antes inimagináveis. E agora, após onze meses de confinamento em casa e afastamento social, com tantas perdas de vidas humanas para a Covid-19, a arrumação e ambientação esmeradas foram banidas de vez da minha lista de vaidades.

Percebi que existe harmonia na desordem. Quando tudo é muito certinho e previsível, a vida se torna estática e triste, igual a uma casa arrumada. O meu lugar hoje é muito vivo, para a minha alegria, do meu marido e dos nossos pequeninos. 

O filósofo tem toda razão.

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*Texto autoral publicado originalmente no blog Lugar Artevistas, onde escrevo às primeiras sextas-feiras do mês.


Sonhar é resistência*

Arte da autoria das crianças Theo e Lis


Neste 2021 quero sonhar todos os sonhos impossíveis, como os autênticos sonhos devem ser.

Planar entre os pássaros como se um deles fosse. 

Correr mais veloz que o jamaicano Bolt.

Trocar de roupa em três, dois, um…

Atravessar a nado, em seis horas, o Canal da Mancha.

Bailar como Odette no Lago de Tchaikovski.

Perguntar ao meu pai o motivo da sua risada, enquanto ele se enxágua lá no chuveiro. 

Ouvir da minha irmã os perrengues hilários nas suas viagens com colegas e amigos. 

Levar a Buba e a Babu para caminhar no calçadão da Beira-mar de Fortaleza.

Dar corda na bicicletinha que ganhei da minha madrinha no aniversário de cinco anos.

Desembaraçar o cabelo sintético da minha boneca “Xodó”. 

Dividir com Lygia o prêmio sueco de literatura. 

Ser derrubada por um filhote brincalhão de Rott e não sofrer um arranhão. 

Chegar ao topo da cordilheira himalaia.

Conversar com a criança que fui um dia. 

Acordar e perceber, entre aliviada e aflita, que tudo não passou de um sonho.

Feliz 2021, metade real, metade fantasia!

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* Publicado originalmente em 01/01/2021 no Blog Lugar ArteVistas, onde escrevo mensalmente às primeiras sextas-feiras.


Sobre Bel, recomeços e filhos de papel*

Eu poderia falar do meu livro de contos, Confinados, que será lançado dentro de dez dias, mas acordei novamente cismada com Belchior e no que ele teria sentido para criar “Tudo outra vez”.

O lamento poético que mistura amargura e esperança e que embalou grande parte da minha juventude, noite dessas sacudiu meus sonhos maduros e me fez passar os últimos dias cantarolando os mesmos versos.

“…Minha rede branca, meu cachorro ligeiro

Sertão, olha o Concorde que vem vindo do estrangeiro

O fim do termo saudade como o charme brasileiro de alguém sozinho a cismar…”

O genial compositor cearense teria mesmo se inspirado na repatriação de amigos exilados por força da ditadura militar? Tudo leva a acreditar que sim, pelo ano de criação da música – 1979 –, o tal da anistia.

Vejo-me, inevitavelmente, voltando ao meu refúgio sertanejo, lugar de acolhimento de amigos e familiares, de onde estou afastada desde o início da pandemia, sem previsão de um retorno breve.

A vida é mesmo feita de acasos e incertezas que exigem recomeços e ressignificações. Não ouso reviver emoções, alegrias, acontecimentos ou momentos. Primeiro, porque nada se repete e, depois, porque também mudamos a cada dia. No momento, adio planos e cuido para que a esperança sobreviva ao caos. Poderei viver novas experiências em um sertão que tem tudo para se transformar para melhor. E sigo sonhando com o dia em que cruzarei novamente aquela porteira e saudarei todos de lá: “Gente de minha rua, como eu andei distante…”.

Quanto aos “filhos de papel”, estou muito feliz com o nascimento do meu quarto livro. Dedico-o à minha única e inesquecível irmã. Creio que ela – tão fã do Bel quanto eu – ficaria orgulhosa da mana caçula que conseguiu emergir, malgrado a força densa que nos afundou a todos.

*Publicado originalmente em 04/12/2020 no Blog Lugar ArteVistas, onde escrevo mensalmente às primeiras sextas-feiras.


Maior que o nosso quintal

Bolha, zona de conforto, caixa, não importa a metáfora para a sensação de segurança quando se pertence a um grupo em que todos pensam da mesma forma.

É óbvio que cercar-se de pessoas que comungam com as nossas ideias pode nos trazer um sentimento de acolhimento e bem-estar, mas não podemos esquecer que a resistência, o contraditório, a teimosia e a inquietação são os vetores da mudança e evolução no mundo.

Pegando o gancho nas eleições municipais que se aproximam, cito algo que hoje parece muito natural: o voto feminino. Mas sabiam que, há noventa anos, nós, mulheres brasileiras, não podíamos escolher nossos representantes políticos? Bizarro, não é mesmo? Quando o direito feminino ao voto foi aprovado, em 1932, as casadas só podiam votar com o consentimento dos maridos; viúvas e solteiras apenas se tivessem renda própria.

A quem devemos tal conquista? Às nossas bravas antecessoras que ousaram discordar do pensamento hegemônico à época, que dispensaram as asas protetoras de seus pares e lares patriarcais, “desobedeceram” pais, irmãos e maridos, sofreram discriminações e preconceitos, enfim, saíram da caixa. Imaginem a realidade atual do nosso país se aquelas mulheres tivessem se acomodado em seus casulos, dizendo amém para tudo e todos. Seríamos um país ainda mais injusto, pois é impossível reconhecer igualdade de seres humanos enquanto mulheres e outras minorias não participarem ativamente de decisões coletivas.

Voltando à comodidade de integrar um grupo sem pensamentos divergentes – motivo dessas linhas –, acredito que só evoluímos como pessoas quando somos contestados em nossas certezas e verdades, no contato com o diferente, na prática do argumento, do debate e diálogo respeitosos. Não precisamos “eliminar” quem pensa diferente de nós, salvo quando se tratar de algo cruel e desumanizador, a exemplo do nazifascismo que varreu a Europa na primeira metade do século 20, e de outros males contemporâneos, como o racismo, a homofobia, a misoginia e afins. Mesmo reacionários convictos reconhecem a importância das diferenças para uma sociedade livre. Já dizia famoso dramaturgo brasileiro, de perfil conservador: “Toda unanimidade é burra”.

É possível discordar sem ataques e ódio? Não só é possível, como necessário. Enaltecemos tanto a democracia, mas nos negamos a conviver e respeitar os contrários. Muitas vezes queremos “exterminar” – ou “cancelar”, para usar a linguagem das redes – quem age e pensa de maneira diversa da nossa. O que precisamos combater vigorosamente é a polarização que tanto mal faz à humanidade. O caminho mais trilhável para isso é fortalecendo as liberdades de pensamento e expressão.

Parece utópico? E quem vive sem sonhos e esperança? Vamos sair das nossas caixas? Há vida inteligente pulsando fora delas, um mundo muito maior que o nosso quintal.

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Publicado originalmente em ArteVistas


Perdeu a graça*

A pandemia da Covid-19 deixou de ser novidade para milhões de pessoas, não desperta mais a atenção, “perdeu a graça”, como dizemos no Ceará.

Admito certa dificuldade de adequação à fluidez da era em que vivemos – tomando emprestado o conceito de importante teórico morto há poucos anos –, onde tudo escorre velozmente por entre os dedos. Suponho que seja porque minha geração foi criada em um tempo de certezas e princípios duradouros.

Sentimentos e valores associados à dignidade humana – amizade, amor, respeito, responsabilidade, compaixão, solidariedade – transformaram-se em produtos que duram o ciclo de vida de um mosquito, sendo logo substituídos por outros objetos de desejo, numa caçada interminável que só gera angústia e frustração.

Passados os primeiros momentos do isolamento social como medida preventiva para conter a disseminação do novo coronavírus – situação inédita que muitos imaginavam breve, só o tempo de passar o tal resfriadinho –, a histeria chutou portas confinadas. Sumiram das redes sociais as exibições diuturnas de dancinhas, teatrinhos, treininhos, ensaios mascarados e preparo de receitinhas. Enfim, cansaram-se rapidamente do novo normal e retornaram ao velho normal de sempre.

Alguém pode argumentar que isso é bastante compreensível, uma vez que nós, humanos, vivemos em comunidade e necessitamos uns dos outros. O equívoco está na interpretação literal dessa máxima em meio à tragédia que ora enfrentamos. Socializar ou interdepender não significa cercar-se fisicamente de gente – sem máscara – as vinte e quatro horas do dia, mas sim que cada ação realizada por uma pessoa no Brasil afeta um semelhante no Japão.

O mesmo acontece se um jovem britânico sair desprotegido da ilha fria em busca de calor no continente – as praias portuguesas do Algarve, por exemplo; ele poderá espalhar o vírus e prejudicar multidões de todas as idades em todo o planeta.

Enquanto não houver uma vacina eficaz, ficar em casa ou usar itens de proteção individual e manter o distanciamento recomendável é a maior demonstração de cuidado com o outro e de valorização da própria vida.

É irritante insistir no mesmo assunto após meses de conscientização e sensibilização por parte de especialistas e órgãos de saúde. Ultrapassamos nesta semana a triste marca de um milhão de mortes por Covid-19 no mundo, em apenas oito meses, muitas evitáveis se tivéssemos seguido as orientações sanitárias amplamente divulgadas pela imprensa. Um milhão é a população inteira de capitais como a brasileira Maceió ou a europeia Bruxelas.

Quero e preciso acreditar que, nesse período de afastamento físico, alguma reflexão fizemos e alguma evolução alcançamos. Paremos de buscar graça em coisa séria. Há situações excepcionais que exigem atitudes maduras. A pandemia do novo coronavírus é uma delas. Não deixemos que a preciosa vida se dilua na insensibilidade e irresponsabilidade de alguns.

E aqueles que, felizmente, não perderam entes queridos para a terrível Covid-19, joguem as mãos para o céu, agradeçam, cuidem de si, dos que estão vivos e respeitem o luto de milhares. É o mínimo a fazer.

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*Publicado originalmente em 02/10/2020 no Blog Lugar ArteVistas, onde escrevo mensalmente às primeiras sextas-feiras.


A nossa melhor parte*

O que vale mais?

Um armário abarrotado de roupas, sapatos e bolsas ou uma mensagem de conforto que chega no celular pela perda de alguém muito querido?

Dois carros na garagem ou um afetuoso abraço virtual?

Comprovantes de bilhetes aéreos da viagem adiada – sabe-se lá para quando – ou o pôr do sol que doura a sua sacada toda tarde? 

O amplo apartamento subutilizado e empoeirado ou a varandinha onde você se alimenta diariamente de vitamina D?

A pandemia do coronavírus nos apresentou um novo mundo construído às pressas. Ou nos transformamos ou não sobreviveremos.

Quem acreditou que a vida era apenas diversão, viagens, brincadeiras e que o dinheiro comprava tudo, até saúde, deparou-se com hospitais lotados onde a riqueza do globo inteiro ou a cobertura ilimitada do caríssimo plano não eram garantias de internação nem de cura. 

Sabe aquela verdade que lava, sem trégua, o nosso cérebro desde que nascemos: “A vida só tem significado se você tiver muita grana e um sólido patrimônio”? Ou “Não desperdice tempo com coisas que não geram lucros financeiros”? Tudo precisa ser monetizado e, de preferência, em moeda forte. Aos fracassados, as inutilidades.

Admirar o crepúsculo sobre uma duna ou montanha? Para desocupados. 

Caminhar sem pressa à beira-mar, sentindo a brisa no rosto e a areia quente sob os pés descalços? Para frustrados.

Ler um livro de poesias? Para desiludidos.

Cantar com amigos ao luar, em volta de uma fogueira?Para tolos.

Embalar-se  despreocupadamente em uma rede na varanda? Para preguiçosos.

Participar como voluntário em um projeto social? Para sonhadores.

Cantarolar versos antigos com a mãe idosa? Para ociosos.

Pois é, sinto dizer que essa tal verdade mercantilizada desmoronou, evaporou em géis e álcoois. 

Não sei se a crise sanitária vai mudar a humanidade, mas se pelo menos uma parte dela puder refletir sobre a vida repleta de “utilidades”que levava até então; se parar de negar sofrimentos e tristezas, naturais da existência; se demonstrar às novas gerações que sensibilidade, solidariedade e compaixão são valores essenciais, aí então as milhares de mortes de entes tão amados não terão sido em vão.

Muitos afirmam que o ser humano não tem jeito. Eu prefiro cultivar a esperança, outra inutilidade da era contemporânea. A vida é feita mesmo de pequenas inutilidades. São elas a nossa melhor parte.

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*Publicado originalmente em 04/09/2020 no Blog Lugar ArteVistas, onde escrevo mensalmente às primeiras sextas-feiras.


“Romance de resistência”

Quando recebo uma análise textual, uma crítica ou resenha literária de uma obra de minha autoria, sinto-me no dever prazeroso de compartilhar com meus leitores.

A professora e poeta Hermínia Lima apresentou meu romance “O Segredo da Boneca Russa” no lançamento que fiz em maio último na Unifor, universidade onde me graduei jornalista, utilizando o termo “romance de resistência” que considerei muito apropriado, motivo pelo qual tomei emprestado para o título deste post.

Trago agora para vocês o texto na íntegra da citada Mestra em Literatura e Doutora em Linguística.

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Análise textual

O SEGREDO DA BONECA RUSSA – CELMA PRATA

Por: Hermínia Lima

Acompanhando o desvendar do mistério em torno de um roubo de um relógio, pelas páginas de “O Segredo da Boneca Russa”, viajamos em rota que se inicia na capital cearense, Fortaleza. Porém, o enredo nos revela “duas” Fortalezas: a Fortaleza contemporânea, mais precisamente, a Fortaleza do ano de 2014, que se presentifica na narrativa por meio de uma conversa, numa delegacia de polícia e, paralela a esta, uma Fortaleza mais antiga, das décadas de 60, 70 e 80. Essa “segunda” Fortaleza nos é revelada por uma narradora-protagonista, escritora biógrafa franco-brasileira, Joëlle, que tem acesso aos fatos por meio de conversas com um “tio”, com outros personagens e também por meio de pesquisas em acervos históricos. Da capital cearense, o roteiro de viagem nos leva a Pedra Verde, cidade no interior do Estado, em muitas idas e vindas, no presente e no passado.

 

A viagem se estende passando pelo Rio de Janeiro, até chegarmos à capital francesa, Paris, local onde a protagonista, Joëlle, viveu até a adolescência e para onde volta sempre e constantemente no tempo presente. Nesses quatro espaços, Fortaleza, Pedra Verde, Rio de Janeiro e Paris, desenvolve-se a trama que, em tempo real, tem duração de mais ou menos, um mês; mas, em tempo psicológico, se estende por décadas, pelos inúmeros retornos, por meio de flashback, a um passado que nos leva à época da ditadura Vargas, e nos traz de volta à contemporaneidade.

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

Além das cenas ambientadas em espaços geográficos do Brasil, a narradora nos faz passear pelas ruas de Paris, destacando lugares e detalhes interessantes e relevantes da vida social dos franceses. Nesse passeio, além de demonstrar grande intimidade com locais especiais da vida cultural da Cidade Luz, a mesma narradora faz pequenas análises de curiosidades próprias da capital francesa que são bem surpreendentes e que muito enriquecem a narrativa, como é o caso da “aula de arquitetura” que ela nos dá, ao tecer comentários sobre as chambres de bonne, habitações coletivas que foram adaptadas dos antigos palacetes das famílias ricas parisienses, a “empavonada e emergente burguesia – os nouveaux-riches”, do século XIX.

Neste cenário, percebe-se que o que move o fio narrativo é a trama de mistério, portanto, “O Segredo da Boneca Russa” pode ser classificado como um romance policial. Contudo, a trama ficcional da obra se amalgama de tal forma aos fatos reais, que podemos classificá-la também como romance histórico e político. Nos capítulos de “O Segredo da Boneca Russa”, deparamo-nos com uma verdadeira e longa aula de história do Brasil ministrada de modo envolvente e surpreendente, porque não literal, mas literário. Não apenas fazendo resgate e apresentação dos fatos; mas, acima de tudo, ofertando ao leitor uma visão crítica detalhada que preenche lacunas com informações valorosas e reveladoras de uma versão “não oficial” dos fatos histórico-político-sociais.

Ao analisar “O Segredo da Boneca Russa”, eu escreveria um longo capítulo somente sobre os personagens que povoam a obra. Difícil resumir aqui todos os tipos humanos representados nas páginas deste livro. Chamam-nos a atenção, em especial, os personagens anônimos que a narradora transforma em protagonistas da trama e, por meio deles, logo nas primeiras páginas, a obra ganha um ar de denúncia que nos faz lembrar os romancistas realistas do século XIX, ou os modernistas das gerações de 30 e 45. O melhor exemplo que podemos citar é o caso das negras empregadas domésticas que protagonizam o enredo do romance e, por meio de quem, é puxado o fio condutor da narrativa. Dinamizando a cena, em contrapartida, temos outros tipos humanos, como: o militar perverso e pervertido, a matriarca malvada, a jornalista investigativa, os religiosos hipócritas e muitos outros tipos. Esses indivíduos fazem parte e circulam em torno de uma família clivada entre duas alas politicamente definidas: uma ala progressista, mais afeita aos princípios socialistas e humanistas, versus uma ala conservadora, conduzida por orientação política nazifascista.

Uma das marcas temáticas que mais nos saltam aos olhos é o tom de crítica social que permeia toda a obra. Apenas para ilustrar, alguns temas que se destacam na trama, citamos aqui: crítica ao mar de lama que marcou a antiga política  da UDN, contra a corrupção policial, contra a divisão física e psicológica entre a “casa grande” e a “senzala”, contra os abusos doutrinadores do clero, contra atitudes ditatoriais dos militares. Também contra o voto de cabresto, contra atitudes racistas dos governos, contra o capitalismo americano, contra o comprometimento de parlamentares com interesses antinacionais, contra a decadência do ensino público, contra a união espúria entre lideranças da ditadura e lideranças religiosas, contra as atitudes venais da imprensa, chegando até às críticas mais atuais como às fake news nas redes sociais, além de tantas outras. Porém, cabe aqui destacar e dar ênfase a dois conteúdos críticos que se sobressaem na narrativa e chegam a nos causar asco: as injustiças e maus tratos com empregados domésticos somados aos abusos sexuais contra menores de idade. Essas são duas temáticas que estão ligadas ao cerne da trama de mistério.

Outro traço estilístico da narrativa de Celma Prata é a erudição do discurso, isso se confirma pelas citações de grandes nomes da literatura, da filosofia, da música e de outras artes que figuram e dialogam com a narradora e com o leitor nas páginas do romance. São inúmeras as ocorrências intertextuais, entre as quais destacamos os muitos fragmentos da obra Le Mur, de Sartre que são citados pela protagonista.

A mais de tudo que já foi mencionado, não poderíamos deixar de destacar um ingrediente imprescindível a um bom romance: um caso de amor. Isso também não falta na narrativa de Celma. Temos uma envolvente história de amor que nos enternece e nos põe em estado de curiosidade até às últimas páginas do livro. Não vou detalhar aqui, nem mesmo falar sobre ela para não tirar de vocês o prazer da leitura.

Quero deixar aqui os meus aplausos à autora pela ousadia e coragem de escrever uma narrativa de ficção que toca em temas tão polêmicos e necessários, principalmente no momento sócio-político em que estamos vivendo no País. Por isso, afirmo que, além de político-histórico e policial, esse é um romance de resistência. Uma obra que nos conta uma “história para ninar gente grande”, como disse o sambista no título do samba-enredo da Mangueira, neste carnaval de 2019. Permitam-me esta intertextualidade lítero-musical com o samba da Mangueira, “história para ninar gente grande”, porque quero, por meio dela, apontar que Celma Prata, tira a “poeira dos porões da História”, como nos diz a letra do samba, Celma Prata nos conta “a história que a história não conta” como brada o samba da Mangueira, Celma Prata nos revela “o avesso do mesmo lugar”, Celma Prata não escreve em versos, mas, como no diz o sambista da Escola, metaforicamente, Celma resgata o “verso que o livro apagou”. Celma Prata, com suas personagens negras, anônimas e domésticas, nos mostra “sangue retinto pisado atrás de heróis emoldurados”, Celma Prata traz à tona e imortaliza “o Brasil que não está no retrato”. E assim, ela se inscreve também na tradição do romance jornalístico contemporâneo, gravando seu nome na linhagem dos escritores que, mesclando história e literatura, usam a palavra como arma em defesa de heróis anônimos.

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Não me deixes

O que significa essa foto antiga no meu post de hoje?

Uma resposta óbvia poderia vir a partir de outra pergunta: Qual a rotina de uma jornalista-escritora que acabou de operar o tornozelo fraturado?

Escrever e ler muito, não é? Não que isso seja privilégio da minha profissão, aliás eu preferiria não estar passando por isso, mas já que…? Por que não aproveitar o repouso forçado da melhor maneira possível, fazendo duas das coisas que mais gosto?

Para completar a delícia que é ler e escrever, amo também xeretar álbuns de fotos antigas no próprio celular. E eis que me deparei hoje cedo com uma que me encheu de saudade e gratidão. Eu, na fazenda “Não me Deixes”, no sertão central cearense, abraçada a Maria Luiza de Queiroz, irmã de uma das maiores escritoras brasileiras, sim, ela mesma, a grande Rachel de Queiroz, falecida em 2003.

Era maio de 2012. Dias antes da minha primeira ida à “Não Me Deixes”, eu me encontrava a trabalho em Nova Iorque conferindo pessoalmente alguns dados inseridos no meu livro de estreia, um relato da minha experiência como moradora temporária da metrópole norte-americana no final dos anos 1990.

À época, o livro “Descascando a Grande Maçã” [Editora Sete], estava em fase de revisão para ser lançado em julho daquele ano e eu, para ganhar tempo, antecipei o envio do rascunho final para a pessoa que prefaciaria a obra.

Recebi, então, uma ligação do Brasil, mais precisamente do Rio de Janeiro, onde residia a minha querida e inesquecível primeira “madrinha” literária. Maria Luiza – chamada carinhosamente de “Izinha” pelos mais íntimos era também escritora – queria tecer pessoalmente alguns comentários sobre a minha narrativa, e marcamos encontro na lendária fazenda da sua família, tão logo eu retornasse ao Brasil. Ela deveria chegar do Rio dentro de alguns dias.

É claro que aceitei o delicado convite e foi um dia memorável. Degustamos caipirinhas feitas com o premiado e artesanal destilado cearense, “Cachaça de Rolha”, e saboreamos uma deliciosa comida de fazenda, tudo preparado com o carinho do super time da “Não me Deixes”, formado por Teresa, Rosita, Mazé, Lúcia e Aldemir, o Guidinha.

Em seguida, nos apossamos de redes branquinhas no alpendre e conversamos longamente sobre o meu livro. Com a sua larga experiência de revisora da irmã famosa, Izinha deu-me preciosas dicas e eu atendi prontamente as alterações sugeridas.

Antes de retornar a Fortaleza, conheci o refúgio literário de Rachel, anexo ao casarão, e pedi licença para sentar-me à mesa onde ela escreveu alguns de seus geniais romances e as deliciosas crônicas para vários jornais brasileiros durante as temporadas em que desfrutava do amado cenário nordestino. Sem internet, Izinha contou-me que levava às pressas os textos à cidade de Quixadá, de onde enviava, via telegrama ou fax, às redações.

Na despedida, entre abraços afetuosos registrados na sala do casarão, sob as bênçãos da imortal Rachel de Queiroz (foto), ganhei o nome de “enxerida”. Maria Luiza justificou a brincadeira admitindo que era assim que se dirigia na intimidade familiar à primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Senti-me acolhida de verdade e recebi como um enorme elogio à coragem dos escritores, especialmente das escritoras.

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

Voltei outra vez à “Não Me Deixes”, acompanhada da querida amiga Lourdinha Leite Barbosa, prima da Rachel e Izinha.

Sempre que eu ia ao Rio, a primeira coisa que eu fazia era visitar Izinha em seu apartamento no Leblon, palco de tantos saraus literários frequentados pelos maiores escritores do século 20. Conversávamos horas, observadas por obras de grandes pintores brasileiros, amigos pessoais das irmãs Queiroz.

Nesses momentos, Izinha insistia em me cobrar a criação de um romance. “Será que eu consigo?”. “Consegue, sim, largue tudo e vá para a ‘Não me Deixes’ escrever na mesa da Rachel. A inspiração virá naturalmente”.

Que generosa profecia da minha inesquecível amiga. Lancei há seis meses o meu primeiro romance, “O Segredo da Boneca Russa”. Não o escrevi na mesa da Rachel, mas me inspirei muito em sua vasta e rica trajetória.

Izinha despediu-se para sempre em 15 de dezembro de 2016, sem presenciar o resultado da sua profecia, mas chegamos a trocar ideias sobre a narrativa várias vezes.

Gratidão sem fim às pessoas e aos lugares que permitem nos apossar de seus afetos e imagens para formar nossas próprias memórias.

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Inspiração pra que te quero

“Em que você se inspira para criar suas narrativas?”

Essa é a pergunta que mais tenho ouvido de leitores do meu romance “O Segredo da Boneca Russa”.

“Sinceramente, não sei”, respondo, diante do semblante desapontado do interlocutor.

Entendo que é natural querer saber de onde vem a inspiração dos escritores. Eu também tenho essa curiosidade. Mas tudo o que posso dizer é que as minhas “inspirações” não têm fórmula pronta. Um simples passeio de bike pode transformar tudo.

Lembro que, em 2014, eu estava em Paris iniciando a criação da personagem-narradora, Joëlle, e saía diariamente no final da tarde – de bike ou a pé – para dar uma relaxada.

Em uma dessas escapadas, cheguei ao Jardin du Luxembourg e não quis devolver a bike na estação velib que fica bem ao lado. Então, tive que caminhar empurrando a bicicleta, já que não é permitido pedalar dentro no parque.

Foi exatamente esse detalhe que me permitiu observar melhor uma das mais espetaculares esculturas do local. Eu já estava cansada e resolvi sentar em uma das cadeiras que circundam a Fonte Médici. Encostei a bike na grade da fonte e, nesse momento, aproximou-se um jovem casal. Eles ficaram abraçados em silêncio admirando a bela obra.

A visão dos dois apaixonados diante de Acis e Galatea inspirou-me a criar André, o namorado que Joëlle deixou em Paris quando partiu com a mãe para o Brasil. “Caminhamos de mãos dadas até a Fonte Médici, um lugar que eu considerava mágico. (pág. 92)

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

De outra vez, eu caminhava pela rue Fleurus quando reparei em um grupinho animado de turistas fotografando em frente a um prédio. Diminuí o passo para observá-los discretamente. Falavam em inglês e apontavam para uma placa na fachada. Quando eles se afastaram, pude ler que ali havia morado Gertrude Stein. Resolvi incluir o fato no trajeto diário da sonhadora Joëlle. (pág. 141)

Enfim, caminhando ou pedalando, a tal “inspiração” me chega da forma mais inesperada. Penso que tem mais a ver com intuição, sensibilidade, de enxergar a complexidade da vida em situações aparentemente banais. É isso.


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Luk Ank

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