Arquivo da categoria: artigos

O lado atrevido da ‘Foire’ (*)

Porteira_102_paris

A velha dama se renova e se deixa seduzir pelos prazeres que fizeram a fama da cidade do amor e dos amantes

O espaço ocupou irrisórios três por cento da área total da Feira Internacional de Paris (‘Foire de Paris’), exposição que acontece há 110 anos na capital francesa, durante doze dias, entre final de abril e começo de maio, mas foi o suficiente para dar uma sacudida no esqueleto centenário de um dos principais eventos da Ville Lumière.

Proibido a menores de 16 anos, o estreante ‘Espace Coquin’ (‘Espaço Atrevido’, em tradução livre) destinava-se a adultos interessados em conhecer e testar as novidades que podem dar uma apimentada nas relações amorosas entre quatro paredes.

No comando do local, uma jovem representante do colunismo erótico francês, Camille Emmanuelle, 33, que havia acabado de lançar, em Paris, um pequeno guia da capital francesa (‘Paris-Couche-Toi-Là’, ainda sem tradução para o português, algo como ‘Paris na Cama’), com cerca de sessenta endereços sugestivos de prazer e sedução. A moça garante que testou todos eles, de cursos e estabelecimentos de lazer a produtos, filmes e livros.

Em entrevista à CB News, Camille afirma que tem observado, nos últimos tempos, uma busca por maior equilíbrio no campo sexual. “As pessoas não querem mais sexo-tabu, mas também não querem sentir prazer sexual a qualquer preço, induzidas por publicidades fantasiosas, como ter três amantes, cinco orgasmos por dia ou 23 brinquedinhos sexuais. Os casais [hetero ou homo] procuram informações claras, simples e sem culpa.”

A pitada de ousadia na tradicionalíssima feira teve a total aprovação daqueles mais afoitos que não hesitaram em cruzar a criativa fachada produzida pelo designer Fred Bernard, o mesmo que ilustrou a obra de Camille. “É uma boa ideia! Mesmo que se possa encontrar sextoys na Internet, aqui a gente pode tocá-los e testá-los”, foi o comentário de uma visitante na faixa dos 40 anos.

No recinto ‘atrevido’ podia-se encontrar de brinquedos eróticos e cremes afrodisíacos a lingeries sensuais e livros temáticos para despertar a sensualidade que, segundo Camille, corre sério risco de ficar adormecida diante da correria e da mesmice do cotidiano. Junto às demonstrações das marcas expositoras, o erotismo também embalava shows de humor e magia, aulas de iniciação à pole dance e oficinas de escrita, leitura e poesia para os curiosos visitantes.

Curiosidade saciada e sensualidade despertada, é hora de explorar os outros noventa e sete por cento da “Foire”, como a exposição é chamada familiarmente pelos parisienses.

Sinalização colorida no piso e esteiras rolantes facilitam o passeio pelos cinco continentes. Os números são superlativos. Cerca de mil expositores com 3.500 marcas dispostas em uma área coberta de 220 mil m2. Mais de seiscentos mil visitantes absorvendo as últimas tendências em decoração, artesanato, moda, lazer e gastronomia, das mais diversas procedências. Sofisticação e tecnologia nas cozinhas planejadas e nas coberturas retráteis para piscinas. Mimos franceses feitos à mão, como as marionetes réplicas do ‘Gato de Botas’ ou do ‘Lobo Mau’, bonecas com cabeça e membros em porcelana e tronco em seda pura, além de delicadas luminárias de mesa ao estilo da norte-americana Tiffany. Sessenta shows musicais divertem os mais animados.

Enquanto pequenos grupos observam as talentosas mãos, em ação, de artistas plásticos e artesãos de vários países, outros degustam os melhores vinhos, destilados, queijos, embutidos e patês do mundo. E os divinos chocolates belgas. E as levíssimas crêpes e galettes francesas. Ofertas gastronômicas tentadoras, em torno de R$ 25, como o sanduíche (na baguette francesa, bien sûr!) de foie gras de pato, de Landes, acompanhado de uma taça de vinho branco Pacherenc de Vic Bilh, ambas regiões ao sudoeste da França.

Para Carine Preterre, diretora do evento, a Feira Internacional de Paris reúne tanto as grandes inovações como as pequenas curiosidades do mundo, “que tornam a vida mais bonita, útil e agradável”, declarou por ocasião da abertura prestigiada por Anne Hidalgo, em seu primeiro ato oficial como prefeita recém-eleita de Paris.

Espera-se que o ‘Espace Coquin’ tenha vindo para ficar. Ano que vem, quem sabe, novas filas de ‘atrevidos’ se formarão, ansiosas para desafiar a rotina e manter a sensualidade sempre alerta.

Como acontece desde a fundação do AgroValor, em 2006, este veículo mais uma vez se fez presente ao evento parisiense que cresce a cada edição. O toque indesejado deste ano ficou com a suspensão de ingressos-cortesia para a mídia estrangeira. Seriam os novos e rigorosos ventos econômicos europeus?

PROGRAME-SE PARA 2015
Feira Internacional de Paris
29 de abril a 10 de maio
Parque de Exposições da Porta de Versalhes
http://www.foiredeparis.fr

(*) Artigo de Celma Prata, originalmente publicado na Ed. 102 (agosto/2014), do jornal AgroValor
Ilustração: Lincoln Souza


Liberdade é descer do salto (*)

Uma vez perguntaram à cantora Elis Regina (1945-1982) o que ainda faltava em sua vida. A resposta da ‘Pimentinha’ surpreendeu meio Brasil: “Dez centímetros a mais e tudo estaria resolvido”. A melhor voz feminina do Brasil, artista já consagrada aos 30 anos, não queria mais dinheiro ou mais amor, queria ser mais alta. Sua estatura: 1,53 m declarado.

O sonho de toda baixinha é exatamente ter 10 cm a mais para poder obter todo o resto: amor, dinheiro e felicidade. E não adianta vir com lero de autoajuda. “O que vale é a ‘estatura’ interior”; “Agradeça por ter saúde”; “Melhor do que ser chamada de girafa”. Ela trocaria todos os clichês por quatro polegadas extras.

Havaianas, sapatilhas, rasteirinhas, nada dessas delícias tem serventia no closet da baixinha. E haja ir à praia de biquíni e salto. Passear no calçadão de bermudinha e salto. Fazer compras de vestidinho básico e (adivinhe?) salto. A exceção era quanto aos tênis, até inventarem aqueles medonhos com salto embutido, os ‘falsos’ sneakers, que lembram as botas ortopédicas da infância dos ‘sem cava’. Pois eles viraram febre nas adultas ‘sem altura’.

E se eu disser que nem tudo está perdido? Que existem pessoas comuns que, sem ajuda divina ou sobrenatural, conseguem superar complexos, sejam lá de que origem e grau forem?

Depois de décadas sobre plataformas altíssimas, decidi, com todas as letras, descer do salto. Foram três anos de tentativas e recidivas até a conquista do diagnóstico da cura. Estava ‘limpa’ há um ano (uso linguagem rehab porque os danados são viciantes mesmo), mas ontem subi num salto 12. E não era um baile a rigor – nem mesmo uma baladinha –, um casamento chique ou um jantar em restaurante badalado. Passei a tarde de sábado numa casa de praia de amigos, aqui pertinho de Fortaleza. Programinha mais simples – e gostoso –, impossível.

Então, por que diabos eu, metida numa bermuda e camiseta, fui desentocar uma Anabela que me deixou mais espichada que a mais alta das minhas amigas? Nem Sigmund explica. O pior é que ninguém comentou que eu estava mais atraente. O resultado foram câimbras na madrugada e um domingo de repouso forçado.

Mas voltemos à minha autoterapia. Tudo teve início quando passei a conviver com pessoas bem mais jovens que eu, igualmente baixinhas, mas sem sinais aparentes de insatisfação por esse vacilo genético. Minhas colegas do curso de Jornalismo só usavam rasteirinhas, sapatilhas ou tênis. “Por que não eu?”, pensei.

Quando percebi que a maioria das pessoas não linka charme com estatura, direcionei todo o meu desalento para o meu closet a fim de desestabilizar a ditadura da estética. Passei a substituir o salto alto pelo médio até me sentir preparada para investidas mais radicais. O desafio era manter a autoestima elevada apesar dos centímetros a menos. Só uma baixinha entende o drama. Mesmo que a criatura esteja impecável, cabelo, maquiagem, roupa, tudo, ela só se sente poderosa se subir no salto. Como se a autoconfiança da moça desmoronasse sem o tal sacrifício, digo, artifício. O limite da ousadia é ajustar mente e corpo para aposentar, de vez, os incômodos e rotineiros saltos. O fato é que, hoje, as sapatilhas ocupam vitoriosas o pódio do meu armário.

A má notícia é que há recaídas. A eterna insatisfação que nos acompanha, limitados seres que se autodeclaram superiores, mas desmontam diante da insignificância, é tema de muitos estudos. Se não fosse a estatura, seria outra coisa. Quilos extras, cabelos crespos, quadris largos. Mas também poderia ser magreza excessiva, cabelos finos, bumbum reto. Parece que é da condição humana colocar a felicidade sempre um passo adiante, ou 10 cm acima, como queira. Mas não desista. Na primeira oportunidade, experimente ir ao cinema usando sapatilhas. E comemore a liberdade.

(*) Artigo de Celma Prata (1,60m declarado), originalmente publicado na Revista Moda Shoes Brasil (dezembro/2013)


Ameaças a recém-nascidas

Viva! Nós, fortalezenses, estamos a um passo de entrar para a história.

Nossa cidade é a única do mundo civilizado contemporâneo cujos moradores de determinada área dita ‘nobre’ ameaçam com argumentos toscos e nada cidadãos fazer um abaixo-assinado para acabar com as tímidas ciclofaixas recém-desenhadas em duas de suas vias.

Duas? Exatamente, caro leitor! Duas ruas por onde trafegavam exclusivamente caros – e poluidores – automóveis importados. Inclusive o meu.

Gosto de comparar coisas que, à primeira leitura, podem soar incompatíveis.

Fortaleza tem mais de 2,5 milhões de habitantes (estimativa IBGE/2013) e área de 314,9 km². Paris tem trezentos mil moradores a menos e superfície três vezes menor. “Então, Fortaleza tem mais ciclofaixas que Paris!”, alguém pode palpitar. Errado! Deveria, mas infelizmente está longe de ser assim.

Tenho até vergonha de registrar isso, mas – pasmem! – Fortaleza tinha até um mês atrás apenas dois quilômetros (agora são seis) de ciclofaixas, contra trezentos de Paris. Eu falei tre-zen-tos quilômetros!

Tudo começou quando, no primeiro domingo de agosto passado (4), alguns ativistas do movimento ‘Massa Crítica’ pintaram uma ciclofaixa temporária ao longo da minha rua. “Finalmente alguém despertou para o problema do excesso de carros que gera engarrafamentos insuportáveis em horários de pico!”, comemorei. A pauta dominou várias esferas e, trinta dias depois, a Prefeitura providenciou ciclofaixas definitivas.

A iniciativa, embora rasteira, tem o meu total apoio. Mas parece que sou minoria. Ao contrário do que eu esperava, a ação desencadeou uma enxurrada de protestos de moradores que se sentem incomodados ou lesados.

Comentários nas redes eletrônicas refletem tudo, menos cidadania ou senso de coletividade. “Não podemos mais estacionar os carros em frente de nossas casas”; “As ruas já eram muito estreitas, agora então”; “A quem interessam essas ciclovias (sic), porque, ciclista que é bom, nunca vi um passando por elas”.

Aqui e acolá, um depoimento mais sensato. “Acredito que após a ciclovia (sic) se tornar plena, os cearenses vão começar a utilizá-la. Vai demorar um pouco para os donos de carros grandes entenderem isso. Temos que começar a pensar que a rua não foi feita somente para carros particulares.”

Eu mesma contribuí para a discussão, mas sob outro viés, pois minha preocupação consiste em me expor aos assaltos da região e ficar sem meus pertences ou mesmo a vida. “Vou providenciar várias sucatas para poder usar as ciclofaixas de Fortal: bike, celular, bolsa fake de grife e por aí vai…”, escrevi fazendo graça no perfil de um amigo em uma rede social.

O debate é saudável e útil. Sei que ainda precisa de muito, que é necessário interligar as vias e dar segurança aos ciclistas para que não sejam vítimas de motoristas deseducados ou de frios assaltantes. Mas precisamos apoiar as ciclofaixas. Alguém tinha que começar. As evoluídas cidades do ‘primeiro mundo’ não ficaram prontas da noite para o dia.

Restam aos nossos principais gestores públicos municipais dar o melhor exemplo. Que tal imitarem a colega francesa Anne Hidalgo? A vice-prefeita de Paris – e candidata ao cargo de prefeita nas próximas eleições (março de 2014) – vai trabalhar diariamente de bicicleta.

Há tantas maneiras de demonstrar evolução social, não é mesmo? Vamos aproveitar, conterrâneos, para um dia podermos urrar “Vivas!” à nossa Fortaleza querida e lotadinha de ciclistas. Moi, inclusive.

Em tempo: Segundo especialistas, as ciclofaixas (ao contrário das ciclovias) são a opção mais rápida e barata, por usar basicamente tinta e tachas para separar os espaços em ruas já existentes e que serão compartilhados daí em diante.

●●●●●●●●●

Para entender melhor:
Ciclovias: ruas apenas para bicicletas, onde carros não entram
Ciclofaixas : faixas demarcadas no chão, exclusivas para ciclistas

●●●●●●●●●

Fontes:
IBGE
INSEE
UOL NOTÍCIAS


O julgamento de Fortaleza (*)

Degustação às cegas derruba preconceitos

drink2

Imagine um inglês que entenda de vinhos tanto quanto um francês. O.k., d’accord, pode parecer um pouco too much, admito. Vou refazer a frase. Era uma vez um inglês que queria provar ao mundo que fazer bons vinhos não é expertise exclusiva dos franceses.

Uma ou outra opção, trata-se de conflito milenar em que brasileiro ajuizado deve manter o saca-rolha bem guardado no bolso. Mas para que as novas gerações possam tirar suas próprias conclusões a respeito da tão decantada rivalidade entre ilha e continente, narro a seguir um fato ocorrido há quase quatro décadas, com desdobramentos para todo o sempre.

Um cara chamado Steven Spurrier, respeitado crítico inglês e editor de revista especializada em vinhos, ofereceu os pescocinhos sofisticados dos franceses à guilhotina implacável do poderoso ‘Tio Sam’, em episódio que ficou conhecido como “O Julgamento de Paris”. Tenebroso assim.

pingos01

Pois bem, o tal súdito da rainha Elizabeth II liderou na Paris dos anos 1970 uma degustação de vinhos às cegas, aquela em que não aparecem os rótulos concorrentes e todos os juízes – profundos conhecedores da bebida dos deuses – vão provando taça a taça sem nem desconfiar a procedência dos ditos cujos.

Teste cego é o terror de fabricantes e produtores já consagrados, mas não praticá-lo é, no mínimo, antidemocrático. Induzir gostos e opiniões é manobra diabólica que se deve evitar a qualquer custo. Funciona com quase tudo, senão vejamos.

Você está em uma loja chique de departamentos e se depara com duas araras de roupas. Na primeira, a placa Dolce&Gabbana não deixa dúvida quanto ao design e beleza – e preço – das peças. Na outra, está sinalizada um desconhecido qualquer. Qual das duas lhe atrai mais? Qual você levaria para casa? Aposto meu closet recém-reformado que a grande maioria sairia com um D&G na sacola, mesmo que o anônimo fosse tão talentoso quanto, além de menos caro. Agora, experimente retirar os nomes dos estilistas das araras e etiquetas. O resultado poderia sacudir meio circuito fashion, de it-girls a blogueiras antenadas.

pingos02

A degustação às cegas, portanto, corrige algumas, digamos assim, ‘injustiças’. No desafio de Paris, o tal Spurrier conseguiu demonstrar que é possível aos países jovens fabricarem vinhos tão bons ou melhores que os da velha e competente França. Foi assim que os vinhos da Califórnia desbancaram os melhores Bordeaux tintos e os renomados Bourgogne brancos. Surpreso? Segure seus ‘ohs!’ mais alguns minutinhos.

Fenômeno semelhante ao de Paris repetiu-se em 11 de abril deste ano, em Fortaleza. A bebida? Cachaça, claro, reconhecida exatamente naquela data como produto genuinamente brasileiro, graças a acordo comercial bilateral entre Brasil e Estados Unidos.

Vinte e oito jurados, entre jornalistas, donos de restaurantes, chefes de cozinha, blogueiros e apreciadores em geral do destilado nacional de cana-de-açúcar, participaram do teste de Fortaleza batizado de “Desafio Top Mundial da Cachaça”. Eles obedeceram à escala de Zero a 10, determinada pelo ‘cachacier’ (degustador de cachaça) paulista Maurício Maia, um dos maiores especialistas da bebida no Brasil.

Como em Paris, o resultado de Fortaleza também foi surpreendente. Saiu vencedora a então desconhecida Cedro do Líbano, fabricada no Ceará, tendo disputado com quatro das melhores cachaças artesanais de alambique do país, todas integrantes de respeitáveis rankings nacionais e provenientes de tradicionais polos produtores, a exemplo de Salinas, no norte de Minas Gerais.

pingos03

“Sabíamos que o Ceará tinha condições de produzir cachaça artesanal de alambique tão boa quanto as melhores do Brasil”, disse o feliz vencedor Rodrigo Bitar ao Agrovalor à época. “Passamos anos estudando, testando e finalizando um produto que, embora soubéssemos ser de excelente qualidade, continuava pouco conhecido fora da região. Decidimos, então, arriscar todas as nossas fichas no ‘Desafio’. Não esperávamos ganhar, mas vencemos não só o concurso, como também o preconceito”, continua o obstinado fabricante cearense, braço direito do pai (empresário Antônio José Bitar) nessa empreitada, que conseguiu provar que know-how não é exclusividade de alguns. Bitar enfatiza que o reconhecimento nacional à cachaça cearense “deve abrir caminho e gerar oportunidade para novos produtores”.

Os dois eventos históricos confirmam que com tecnologia responsável, trabalho sério e investimento é possível obter excelentes produtos, respeitando-se obviamente a diversidade e vocação natural das regiões.

Quando alguém levantar questionamentos sobre a qualidade do produto X ou Y com argumentos simplistas, como a falta de tradição daquela região ou país de fabricação, está mais do que na hora de mandar baixar a poeira do preconceito e propor um brinde a passo igual: Saúde! Cheers! Santé! Halina! Pai d’égua! Bom demais da conta, !

●●●●●●●●●●●●●●●●

Desafio Top Mundial da Cachaça / Fortaleza (CE) / Ranking 2013:
1º lugar: Cedro do Líbano (S. Gonçalo do Amarante/CE) – 2.231 pontos
2º lugar: Vale Verde (Betim/MG) – 1.976 pontos
3º lugar: Anísio Santiago/Havana (Salinas/MG) – 1.874 pontos
4º lugar: Claudionor (Januária/MG) – 1.751 pontos
5º lugar: Serra Limpa (Duas Estradas/PB) – 1.637 pontos
Fonte: http://www.cachacacedrodolibano.com.br

●●●●●●●●●●●●●●●●

(*) Artigo de Celma Prata, originalmente publicado na Ed. 92 (outubro/2013), do jornal AgroValor
Ilustrações: Lincoln Souza


A pior idade?

Daqui a três anos contribuirei para engrossar a estatística dos 12% de idosos brasileiros.

A notícia boa é que não estarei sozinha. Terei a companhia de 24 milhões de pessoas. A parte ruim é que nem por isso terei privilégios.

Embora muitos insistam em maquiar a fase a partir dos 60 anos com termos como “melhor idade” – e apesar dos dez anos do Estatuto do Idoso –, até agora a dignidade não passa de objeto de desejo do grupo.

Abandono, violência e abuso financeiro (familiares que se apropriam da pensão do idoso) estão entre as reclamações mais recorrentes, segundo dados do serviço Disque 100, da Secretaria de Direitos Humanos (SDH).

Enquanto países europeus possuem um ministério específico para cuidar dos interesses daqueles que ultrapassam os 65 anos de idade (cinco a mais que aqui), o Brasil fica jogando a batata quente de uma Pasta para outra há uma década. A nossa urgência é que mais alguns pontos percentuais, e seremos um país de velhos – o que deve se confirmar daqui a uns quinze anos – se as projeções não falharem.

Desde que o idoso passou a ser responsabilidade de todos e não mais exclusivamente das famílias – pelo menos nas sociedades ocidentais –, as políticas públicas tentam com leis superar o preconceito e o descaso. O mesmo acontece com outras faixas etárias: criança, adolescente, pessoas com deficiência etc.

Melhor do que se apiedar do velhinho e da velhinha, tratando-os como seres indefesos, infantis ou “bonzinhos”, é respeitá-los como pessoas que já fizeram bondades e maldades, e que, como todos os seres, devem ter assegurado o direito a uma vida digna. Sem privilégios. Sem preconceitos. Só isso.


Mudaram o Dia de São Valentim e não avisaram ao Papa Francisco

Corre à meia-boca nos corredores do Vaticano que a cúria romana quer deitar o chicotinho nos brasileiros que cometeram um sacrilégio contra um santo da igreja católica. Já conto como esse imbróglio começou.

Às vésperas de mais uma Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que neste ano vai acontecer no Rio de Janeiro, de 23 a 28 de julho, a rotina do Papa Francisco está uma confusão só. Também, pudera! Nos últimos dias, a todo segundo, um boletim de notícias sobre o ‘país do futebol, das manifestações pacíficas e do vandalismo’, invade o seu laptop de última geração.

No meio da gritaria e quebra-quebra, alguns spams mais antigos chamaram a atenção do Santo Padre. Algo do tipo: “12 de junho, Valentine´s Day!!! Presenteie o seu amor com ‘whatever’ da …”

Não que o Papa Francisco se interesse muito por esses arroubos consumistas, aliás, com aquela aura de missionário, não deve curtir de jeito nenhum… Os dedinhos santificados estavam a um clique de mandar tudo pro inferno, digo, pra lixeira eletrônica, quando uma vozinha satânica se intrometeu…

“Quem deu ordem para mudar o Dia de São Valentim de 14 de fevereiro para 12 de junho?” E, aqui, desculpe a grosseria da frase, mas não consigo segurar minhas origens aratacas: Pense num papa possesso!

“Renuncio ao meu solidéu branco se isso não for coisa do kirchnerismo!”, vociferou o pobrezinho, perdendo a santa paciência. Imediatamente, solicitou um dossiê completo sobre as tais propagandas na internet. Xereta de lá, xereta de cá, e … Fumacinha branca! “Habemus hereges!”

Os cardeais descobriram que a manobra do capitalismo capeta aconteceu apenas no Brasil. Menos mal, não é, Francisco? “E a outra ainda diz que Deus é brasileiro, pois sim!”, reclamou baixinho o papa argentino, provando que há rivalidades que nem a fé cura! Já mais calmo, entendeu que não adiantava levar tão a sério algo vindo do país do Carnaval.

Em tempo: Publicitários do nosso país, somos um dos povos mais criativos do mundo. Copiar pra quê? Mas, se for o caso, uma breve pesquisa não faz mal a ninguém, não é? Mr. Google nunca se faz de rogado. A data 14 de fevereiro foi escolhida na Europa e nos EUA para celebrar o amor, por ser atribuída à morte do sacerdote romano casamenteiro, Valentim, que, contam, viveu no século III, e ficou conhecido como “Padroeiro do Amor”. Ele protegia os casais enamorados contra a fúria do imperador.

Moral da história: não acredite em tudo o que ouve ou lê. Este texto, inclusive.


Da cabeça aos pés (*)

Tem gente que faz qualquer sacrifício para ficar mais bonita. A ditadura da beleza manipula nossos incuráveis complexos com a ajuda de todas as mídias ‘impossíveis e inimagináveis’. Até que eu acho válido lançar mão de uns truquezinhos para destacar o que temos de melhor. Seria o cabelo? Então, invista em cortes, bons cremes e xampus. Ou as pernas? Traga-as bem depiladas e hidratadas. Os dentes? Escancare um sorriso a cada minuto. Igualmente aceitável é driblarmos a implacável natureza. Braços muito grossos sob mangas largas, baixa estatura sobre saltos Empire State, pés desproporcionais disfarçados com… Bem, quanto aos pés, veremos adiante.

O que me inspirou a escrever sobre o tema foi uma reportagem da Sônia Bridi acerca de determinado conceito de beleza da cultura chinesa pré-Revolução Comunista: pés femininos minúsculos. Quanto menores, mais bonitos. Fico me imaginando com minha exuberante numeração 37; Estaria condenada ao caritó, tão feia seria considerada pelos podólotras mandarins.

Pois bem, as chinesinhas das gerações mais antigas tinham seus pezinhos infantis enfaixados tão fortemente, que chegava a quebrar-lhes os ossos. Tudo para fisgar no futuro um marido, de preferência cheio da grana. Ricas e sem conseguir se equilibrar em bases tão diminutas, as hoje bisavós estão fadadas a usar as faixas nos pés até morrer.

Mas se você pensa que esse fetiche dos homens por tal extremidade do corpo feminino é coisa do passado e da banda direita do planeta, segure-se firme sobre suas plataformas. Do lado de cá, em pleno século 21, milhares deles têm verdadeira adoração pelos pés delas. Claro que a versão pós-moderna tem pouca semelhança com a dos chineses machistas da era pré-camarada Mao.

Para os padrões estéticos ocidentais, o tamanho do pé da moça não importa muito. As fixações masculinas por aqui arriscam tudo no (des)equilibrado jogo da sedução. Uns preferem dedos simétricos e cavas acentuadas. “Pé chato, joanetes, calcanhar com rachaduras, nem pensar!”, disparam os mais exigentes. Contudo, nem todos os podólatras almejam perfeição. “São raros, mas há quem goste de pés sujos, com calos…”, tenta convencer um site que exala chulé (eca!) por todos os hipertextos. Sim, até os mais desagradáveis odores femininos “podem ser objeto de admiração masculina”, insiste a página da internet.

Nessa ciranda dos cheiros, há uma tese que nos iguala aos bichos. Estudos recentes concluíram que a atração sexual entre pessoas segue a mesma química dos animais, ou seja, são os feromônios – substâncias liberadas pelo corpo, inodoras ao ser humano – os responsáveis pela libido, em bom português de revista masculina, ‘tesão’. Embora chulé e estrógeno não sejam odores do mesmo frasco, melhor garantir, trazendo o seu pezinho – e todo o resto – limpo e perfumado. E agradeça por seu parceiro não ter olfato canino.

Sabia que existe até um dicionário das situações que deixam os pés-fetichistas excitados? Bare feet é curtir a mulher andar descalça (baixinhas descontentes com a altura estão fora); Crush é observar a parceira esmagando frutas, comidas e objetos com os pés (só não sei se o cara come as frutas); Dangling é o balanço – inconsciente ou não – que ela faz ao tocar um pé no outro, quando está sentada com as pernas cruzadas (atenção, meninas, segurem os pés, ou chacoalhem ainda mais); Footjob é quando ela masturba o parceiro com os pés (isso é o que chamo ‘meter os pés pelas mãos’); Smell feet é o cheiro de meias usadas ou pés sujos (inhaca e mau gosto não se discute); Trample é uma espécie de sadomasô, eles pisoteados por elas (complexo de barata, haja terapia!); Worship é um tipo de veneração, beijar, lamber, morder e ‘degustar’ os pés dela (dizem que há mais adeptos do que se pensa)…

Enfim, cada pé tem o maníaco que merece. Os cultores do bom senso e equilíbrio emocional alertam para a tênue linha que separa prazer saudável e obsessão. Que o ideal seria curtir o corpo da amada por inteiro. E que tudo demais é veneno, principalmente chulé. Que desmancha-prazeres, hein?

(*) Artigo de Celma Prata publicado, originalmente, na Revista Moda Shoes Brasil, Ano 2, N. 4, Maio/2013


Vamos retomar nossas calçadas? (*)

Apesar da excelência do transporte coletivo, prefiro percorrer a pé curtas distâncias, salvo quando estou atrasada. Então, através de calçadas largas e planas, alcanço a parada mais próxima e entro no ônibus climatizado e pontual, que me deixa a poucos passos do destino. Na bolsa de grife, carrego maquiagem importada, celular, documentos, dinheiro e cartões de crédito. A tiracolo, o laptop. Relógio de marca no pulso. Joias arrematam o visual.

A cena acima poderia ser real, mas infelizmente não acontece em Fortaleza e em nenhuma das capitais brasileiras. A sensação de insegurança, o descrédito nas autoridades e as estatísticas não permitem. Sem pretensões de traçar um panorama da escalada da violência em minha cidade, revisito minhas memórias a partir dos bairros em que morei para tentar entender o fenômeno e sugerir algo.

Monte Castelo. Anos 1960. Crianças brincam defronte de suas casas; Mães observam das cadeiras na calçada, enquanto trocam receitas e fofocas. “Sabem a última da ‘minha’ Maria? Se aprontou toda pra dar ‘boa noite’ pro Cid Moreira!”, divertem-se com a ingenuidade das meninas recém-chegadas do interior para trabalhar como domésticas na ‘cidade grande’. Caminhar em paz por ruas e calçadas, usar transporte público, era parte da rotina de qualquer morador.

Meireles. Final dos 1970. Recém-casada e a tranquilidade ainda pontuava o cotidiano da cidade, mas não por muito tempo. Quatro anos depois, e um arrombamento nos fez desistir do lugar. Fiquei sem as joias de família. O inimigo conhecia nossos hábitos. Livramo-nos do confronto, mas não da incômoda sensação de ter nosso cantinho invadido.

Praia do Futuro. Início dos 1980. Ainda sem filhos, chegamos ao paraíso que não conseguiu honrar as promessas. Construções subiam velozmente até serem implodidas pela antipropaganda “A segunda maior maresia do planeta”. Nem estudiosos, nem o senso comum, conseguem explicar o abandono da grande faixa litorânea numa capital que se promove por seus verdes mares, brisa permanente e sol o ano inteiro. O poder público se ausentou, abandonando os teimosos sobreviventes à própria sorte. Um assalto − com disparos − na calçada de casa acelerou nossa despedida.

Meireles novamente. Desde 1999. Voltar a habitar − dessa vez com dois filhos adolescentes − a área ‘mais nobre da cidade’ não é garantia de qualidade de vida. Os moradores não usam os passeios. Ninguém quer se arriscar a ficar sem o i-phone, o i-pad e todos os i-tudo que batizam as novas, caras e ‘indispensáveis’ tecnologias. Os entendidos afirmam que é preciso combater a raiz do problema, eliminando tráfico e corrupção. Do contrário, não vai ser um policial amigo em cada esquina ou patrulhas pacificadoras rondando o quarteirão que resolverá a questão. Muito menos, blindar portarias e carros ou contratar seguranças armados.

Como conquistar, então, uma rotina semelhante à das capitais europeias, norte-americanas e algumas latino-americanas? A resposta de especialistas é velha conhecida nossa: investindo em segurança, mobilidade, transporte coletivo, educação no trânsito… Ou seja, um longo processo. E para já?

Para começar, sugiro aos usuários de automóveis, em lista encabeçada pelo prefeito e vice, utilizar o transporte público ou bicicleta − ou as próprias pernas − para trajetos urbanos (o prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg, vai trabalhar de metrô, enquanto a vice de Paris, Anne Hidalgo, prefere a bicicleta. Em tempo: Bloomberg é a 10ª fortuna dos EUA).

Ao resgatarmos nossa cidadania, poderemos, de forma simbólica, tatuar nossos ideais nas calçadas, esquinas e praças. Quem sabe, em breve, a cena que abre esta narrativa entre para o dia a dia dos fortalezenses? Nós merecemos.

(*) Artigo de Celma Prata, publicado originalmente na Revista Siará, do jornal Diário do Nordeste, em 07/abril/2013


“Eu quero!” (*)

Não se envergonhe de sentir ‘inveja branca’ daquela garota linda, alta, magérrima, de cabelos longos e, como se não bastasse, rica, que namora o cara perfeito, com quem divide um apê fantástico com vista para o mar e um tremendo carro na garagem.

A inveja, não importa a cor, é um sentimento inerente ao ser humano, portanto, relaxe, o papo aqui não é moralista. O problema é quando embarcamos nas ondas radicais da trinca indústria−comércio−serviços (principalmente dos produtos de última necessidade) para alimentar nossas fraquezas e engordar o faturamento deles.

Uma bolsa feminina, por exemplo, deixa de ser aquele objeto simples e útil para guardar pertences indispensáveis (documentos, chaves, nécessaire e celular), transformando-se em algo cujo preço ultrapassa a casa das centenas de reais. E quando esse tesouro está pendurado no ombro da garota perfeita?

Um automóvel não é só um meio de transporte básico e confortável que lhe deixa em poucos minutos no seu destino (o fato de ficar parado horas no trânsito caótico não vem ao caso, nada é perfeito), mas sim uma obra de arte itinerante, com a cor da moda (“Tem que ser branco!”), placa personalizada, aquecedor e teto solar em país tropical, além de amortecedores que não resistem à buraqueira das estradas brasileiras. E se essa preciosidade estiver na garagem do bonitão que namora a menina maravilhosa?

“Eu quero!” passou a ser a expressão recorrente de grande parte dos consumidores, que sonha dia e noite com os bens do ‘casal perfeito’. E haja troca de ideias sobre prazos de entrega do automóvel branco, ou como economizar na compra da tal bolsa, que de tantas usuárias por metro quadrado já manchou a imagem de ‘exclusiva’. “Em Nova Iorque, mesmo com os 8,25% de impostos? Ou seria nas lojas próprias da grife em Paris?” Gente, é muita preocupação nesses tempos de eleições municipais. Mas quem está interessado nos destinos da sua cidade nos próximos quatro anos, se já tem traçado o roteiro internacional das férias de inverno?

Essa conversa me fez lembrar o filme ‘Amor por Contrato’, de 2010, estrelado por Demi Moore. Sua personagem lidera a farsa de uma família feliz e super bem sucedida financeiramente, com pai, mãe e um casal de filhos adolescentes, todos bonitos, brancos e magros. Os quatro trabalham para uma empresa cuja missão é despertar o desejo de consumo na classe média alta, desde joias, acessórios e roupas de grife, passando por carrões e eletrônicos, até viagens, produtos gourmet e de decoração. Seu alvo são os moradores do condomínio classe A para onde se mudam.

O desfecho trágico da película liga o alerta do nosso mundo real. Um dos vizinhos da família perfeita, ambicioso até o último crédito do cartão, financia um carro igual ao do farsante, joias de grife para a mulher e outros objetos, tão inúteis quanto caros, fica sem dinheiro para pagar a hipoteca e se suicida amarrado ao fio do cortador de grama último tipo, estacionado no fundo da piscina da sua bela mansão.

Por se tratar de uma ficção, o filme pode mascarar nossas reflexões com um “Isso não acontece comigo!”, mas será que muitas vezes não fazemos o papel dos amigos da família perfeita vivida pela bela atriz e seus pares? Os dramas reais estão cheios de exemplos com final nada feliz, embora não fatais.

Portanto, ao ver it girls e seus acompanhantes produzidos e motorizados ‘para matar’, pense duas vezes antes de se endividar até o pescoço. Mesmo sem se dar conta, esses formadores de opinião às avessas estão a serviço das grifes que usam, mas, ao contrário dos personagens do filme, trabalham de graça para serem garotos-propaganda e, pior, ainda pagam milhares de dólares por isso. Um tipo de ‘servidão’ consentida.

Ninguém está dizendo que não consuma, mas fazê-lo com moderação ainda é a melhor alternativa. Antes de gritar “Eu quero!” para tudo o que vir pela frente, pergunte-se: “Eu preciso mesmo disso?”. Tanto a indústria quanto o comércio e serviços − e os empregos que geram − podem sobreviver a um público consumidor mais consciente.

(*) Artigo de Celma Prata publicado, originalmente, na edição de dezembro/2012, da Revista Moda Shoes Brasil


Negar é preciso (*)

Quantas vezes você já aceitou um convite quando o seu racional lhe implorava um sonoro e firme ‘não’, só para não magoar um amigo ou para, simplesmente, não parecer antipático?

A dificuldade para dizer ‘não’ parece ser da metade da humanidade, a outra metade simplesmente fala ‘sim’. Agora, no sério. Por uma questão cultural, nós brasileiros sentimos enorme dificuldade para pronunciar essa palavra com apenas três letrinhas, mas que tem mais força do que o campeão de sílabas ‘inconstitucionalissimamente’. Deve vir daí a nossa fama de simpáticos, ‘astral’, de bem com a vida e outros rótulos que fazemos questão de manter, mesmo que nos custem muitos dissabores.

Dizer que não vai à festa de aniversário do seu amigo, ou ao fim de semana na praia com a turma, ou ainda ao programinha de sábado à noite com a galera, e mais àquela viagem com os colegas no feriadão, é mais difícil do que se pensa. Muitas vezes não vamos, mas não temos coragem de negar. Será que não é pior deixar o outro a ver navios? Sim, mil vezes sim, e nós sabemos disso, mas mesmo assim não conseguimos dizer ‘não’.

Você certamente já esteve em ambas as situações, levando um cano ou dando um bolo. E, cá entre nós, ‘cano’ e ‘bolo’ só são interessantes no dicionário etimológico. No primeiro caso, você se sente a Cinderela abandonada e no segundo, a madrasta da pobrezinha. E pensar que tudo poderia ser resolvido com um simples ‘não’, firme, sincero e suave… Impossível? Veremos.

Povos europeus, por exemplo, lidam melhor com negativas, sabem falar ‘não’ com firmeza, são mais francos e objetivos em situações do tipo. O que para nós pode soar falta de gentileza, para eles não passa de uma atitude normal adulta. É um respeito a si próprio e aos outros.

Não estou me referindo aqui aos convites indesejáveis, nem tampouco àquelas pessoas que nunca aceitam chamados. Para esses extremos, o melhor a fazer é riscar do seu mailing, antes que o sentimento de rejeição acabe por lhe levar ao primeiro consultório psiquiátrico da escassa lista dos planos de saúde, sem chance de alta nos próximos anos.

Especialistas alertam para a falsa ideia de harmonia que o ‘sim’ traz, uma vez que o conflito continua lhe perseguindo, simplesmente porque ele está dentro de você. “Por que eu não neguei logo”? “E se eu tivesse dito um ‘não’, será que eles me convidariam novamente?” É também esse receio de ser excluído do grupo e de não ser visto como um deles, que lhe faz eliminar a negativa do seu google.

Nos últimos meses tive que superar o medo de dizer ‘não’. Mergulhei de roupa e tudo em um projeto pessoal e precisei separar, na minha agenda eletrônica, as ações adiáveis das mais urgentes. Isso não significa que as primeiras tivessem menos importância para mim. Elas continuam sendo prioridades, mas naquele exato momento fui obrigada a fazer escolhas, prerrogativa de gente grande, de adultos que somos.

Com isso, deixei de comparecer a encontros mensais com queridas amigas, não pude participar de momento prazeroso com parentes que vieram de longe, dei um tempo nas atividades físicas que eu não passava sem, recusei convites bem interessantes, faltei aos almoços com familiares aos domingos…

O incrível de tudo isso é que sobrevivi e nem doeu tanto. Saber dizer ‘não’ sem agredir, explicar, desde que usando de sinceridade, que você preferiria aceitar o chamado, mas infelizmente não será possível daquela vez, também pode ajudar a lidarmos com esses conflitos e não desapontar a quem devotamos carinho e consideração. Portanto, saber dizer ‘não’ é necessário, mas precisamos ser cuidadosos com a forma de como negar, para não ferir a sensibilidade dos nossos patrícios.

Todo o treinamento recente não conseguiu me capacitar por completo. O episódio que cito a seguir me inspirou a compartilhar o tema com o caro leitor. Às voltas com a finalização do meu primeiro livro de crônicas, o tal projeto pessoal de que falei ainda há pouco, recebi dois convites carregados de afetividade, aos quais não pude negar. Um foi para participar de uma entrevista para uma revista-laboratório do curso de Jornalismo da universidade na qual me graduei. O outro, para escrever para uma bem conceituada revista nacional de moda e comportamento. Resultado: mesmo afastada por uns dias da redação, já respondi à entrevista por email e concluo agora o texto para a revista. Disse ‘sim’ a ambos, mas o fiz de bom grado, com o maior prazer, sem conflitos. É um bom sinal. Convido-o a começar!

(*) Artigo de Celma Prata publicado, originalmente, na edição de junho/2012, da Revista Moda Shoes Brasil


Antimidia Blog

Textos sem sentido, para leituras sem atenção, direcionados às pessoas sem nada para fazer.

Resenha do Dexter

Blog sobre tudo e nada, ou seja, sobre o que eu escrever (E resenhas de Livros)

Admirável Leitura

Ler torna a vida bela

Reverso Literal

Blog, poesia, prosa, contos, escritos, literatura, arte, imaginação, livros

Lugar ArteVistas

#arteondeestiver

Farol Abandonado

poesia profana, solitária e melancólica

Diferentes Tons

Artes, Literatura, Moda

RePensandoBem

Roda de Conversas

Thiago Amazonas de Melo

Não acreditem em nada do que eu digo aqui. Isso não é um diário. Eu minto.

prata-na-crônica

Crônicas, Jornalismo e outras Narrativas

Livros e Leitura

Universo mágico da leitura

Riksaint Space

Um espaço dedicado às energias renováveis.

Estalos da Vida

As vezes a felicidade começa em um estalo!

Sobre os dias

sensações, vinhos e faltas.

Vila das Noivas

por Ingrid Martins e Aline Farias