Arquivo do autor:Celma Prata

Sobre Celma Prata

Celma Prata é jornalista e escritora. Autora do romance "O Segredo da Boneca Russa" [Sete_2018]; e dos livros de não-ficção "Descascando a Grande Maçã" [Sete_2012] e "Viver, Simplesmente" [Sete, 2016]. Atualmente integra o Conselho Editorial do Jornal AgroValor. É membro efetivo da Academia Fortalezense de Letras, da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil e da Sociedade Amigas do Livro, entidade cultural em que liderou o conselho diretor, de 2016 a 2020.

A pequena mais que notável (*)

Diante de uma linda gravura afixada no quadro negro da sala de aula, que mostrava a imagem de uma casinha branca com janelas azuis, a criança de sete anos escreveu algo inesperado. Ao invés de descrever a ilustração, como lhe pedira a freira, seus olhinhos infantis atravessaram as paredes da casinha e se compadeceram com o sofrimento de uma menininha porque no dia seguinte iria ao dentista.

O episódio pode ter sido uma epifania para a futura poetisa cearense Rita de Cássia Araújo, nascida em 15 de janeiro de 1941, primeira dos oito filhos de Neomísia Oliveira Fernandes e Milton Amaral Fernandes, que enfeitou com lacinhos e rendinhas o cotidiano dos avós maternos, até então repleto de netos homens. Pelo lado paterno, foi a responsável pela estreia dos avós no sentimento imortalizado em tocante texto de Rachel de Queiroz (“Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu (…)”, em A arte de ser avó), transformando a vida de toda a família Fernandes.

A criança sensível, que começou a ler aos cinco anos e já demonstrava, aos sete, vocação para as letras, sofreu muito cedo a primeira grande perda: a morte da querida avó paterna. A felicidade da menininha tão amada e aguardada foi novamente sabotada pelo surgimento de grave enfermidade do pai. As duas fatalidades a marcariam indefinidamente.

Da infância em cidade do interior à mudança definitiva para Fortaleza, intercalada por temporadas de férias escolares em São Paulo, foram muitos os percalços até alcançar os dias atuais. Da mística Canindé, no semiárido cearense, onde o flagelo da seca não consegue destruir a fé do povo, Rita de Cássia conserva valores e ensinamentos humanísticos: a espiritualidade e humildade franciscanas. E da maior metrópole brasileira, a poetisa eternizou gratidão em versos de 2004 que homenageiam o pai e sua cidade de adoção, que completava 450 anos:

“(…) Pai humilde e guerreiro,
guardei nossas palavras e sonhos,
hoje mesmo distante sinto o perfume
das flores e dos frutos maduros.
Vontade de estar contigo!
A ti cidade querida, parabéns.
És meu aconchego, meu lado familiar.
Pai e mãe no campo Santo de Congonhas.
Seja bendita, benditos sejam teus filhos
verdadeiros ou de adoção.
Viva! Viva! Viva!” (“A São Paulo e a meu pai, com amor”)

O casamento precoce, aos dezessete anos, com o futuro arquiteto Nearco Araújo, e a chegada dos dois filhos resgataram a alegria de viver e renovaram suas esperanças no mundo. Como na maioria das trajetórias dos casais, a etapa seguinte foi marcada pelo crescimento profissional de ambos e os cuidados com a educação de Helena, economista, e de Nearco Filho, engenheiro, que lhe deram três netos de comprovada sensibilidade artística: Beatriz (Bia), que faz doutorado em Moda e Design, em Londres; Pedro, jornalista, que realiza mestrado em São Paulo; e Joana, professora de dança e nutricionista, que cursa pós-graduação em Fortaleza. A relação com os filhos e netos é baseada na troca natural de afetos e respeito mútuo. São tantas as afinidades que a avó Rita condiciona a realização afetiva e profissional dos netos à coroação da própria existência.

Rita de Cássia sempre esteve ligada à cultura, desde o primeiro emprego, como guia de museu, que lhe aguçou sentidos e aptidões enquanto a preparava para assumir maiores responsabilidades como funcionária da Universidade Federal do Ceará, na área da Tecnologia da Informação, onde atuou com brilhantismo até se aposentar, em 1992. Sua caminhada literária é alimentada igualmente pela fiel devoção a anjos divinos. Todos em casa tinham um santo de proteção, o seu era o Anjo da Guarda, tema central de uma obra apresentada pelo imortal Artur Eduardo Benevides, o aclamado “Príncipe dos Poetas Cearenses”.

A inspiração chega sorrateira, sem aviso prévio ou necessidade de estímulos externos, surpreendendo a criança atrás do guarda-roupa, sentada em um banquinho, para escapar da implicância das irmãs com sua mania de escrever. Ou apanhando de surpresa a jovem mãe no anonimato do estacionamento da escola dos filhos, registrando emoções no papel, enquanto aguardava o término da aula. Ela assegura que a poesia é vital à sua sobrevivência em todas as circunstâncias e fases.

Reconhece, com certo pesar, que publicou tardiamente o primeiro livro (Cores, em 1984), que considera a maior conquista profissional. A partir daí, felizmente, não parou mais: Essência (1987); Sementes (1990); Unguentos (1994); Cartas e Poemas ao Anjo da Guarda (1997); Mulher e Terra (2000); Manga Madura (2004); Por Detrás das Gavetas (2008); Cajueiro Florido (2012); e, o mais recente, Palavras (2016), em comemoração aos seus 75 anos de vida e aos oitenta do marido.

Elege a formatura dos herdeiros como o principal marco na sua maturidade, satisfação comparável apenas à concretização da tão sonhada viagem à China, em companhia do marido. A explicação para tamanha admiração pelo país asiático encontra-se na capacidade imaginativa da criança que um dia se tornaria respeitada poetisa. Desde a mais tenra idade, quando ouvia alguém proferir a velha expressão “Vá pra China!” a uma pessoa de comportamento indesejável, a menina educada no rigor cristão associava o tal lugar ao inferno, destino das almas penadas. Foi graças aos esclarecimentos de uma amiga da família, Alba Veloso, professora de Geografia, que a pequena Rita pôde desconstruir a imagem diabólica e passar a cultuar o país de tradição milenar. A aposentadoria lhe trouxe, finalmente, as condições financeiras necessárias para realizar o sonho antigo.

Na posição de grande admiradora da filosofia oriental chinesa, Rita de Cássia experimentou momentos de profundo enlevo, como na visita ao mausoléu do imperador Qin Shihuang (260-210 a.C.) – monumento equiparável em importância às Pirâmides de Gizé (Egito) e ao Taj Mahal (Índia) –, na cidade de Xi’an, a 1.200 quilômetros de Pequim. Acreditava-se à época que, ao deixar a vida terrena, podia-se levar para o plano posterior tudo o que se julgasse de enorme valia. Para o monarca, a preciosidade maior era seu exército. Ele mandou construir, portanto, uma tumba gigantesca com milhares de soldados moldados em terracota, em tamanho real, cada um com uma fisionomia única e vestidos de maneira distinta. O tesouro foi descoberto, casualmente, em março de 1974, cerca de 2.200 anos depois de construído, e ficou conhecido popularmente como Guerreiros de Xi’an.

Em vez das figuras demoníacas do imaginário infantil, a mulher madura vivenciou na China as mais sublimes sensações. Emocionou-se às lágrimas ao pisar a Praça da Paz Celestial, no centro político de Pequim, palco do massacre do governo para conter a maior manifestação popular contra o Partido Comunista Chinês (PCC), entre abril e junho de 1989, liderada por jovens universitários que reivindicavam liberdade de imprensa e de expressão, e protestavam contra a repressão aos direitos individuais e das precárias condições sociais.

A criadora de belos poemas contemporâneos, que nutre profunda admiração pela obra de Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, autores de diferentes escolas e procedências, guarda com carinho e orgulho a carta manuscrita do amigo Drummond, confirmando-a poetisa. Como ainda duvidar do seu talento? A modéstia, contudo, a impediu por muito tempo de revelar o “veredito” do poeta mineiro, com quem manteve regular correspondência que ela finalizava sempre com “Um caloroso abraço”. Leitora contumaz, planeja para breve devorar a vasta produção do saudoso poeta mato-grossense Manuel de Barros, cuja simplicidade era comparada às virtudes atribuídas a São Francisco, santo de referência de Rita de Cássia.

Como ativista cultural, ela participa de várias entidades literárias, a exemplo da Sociedade Amigas do Livro (SAL), da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB), da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Fortalezense de Letras (AFL) e da Rede de Escritoras Brasileiras (REBRA).

A poetisa retribui a generosidade da vida com cidadania e altruísmo. Nas típicas manhãs nordestinas, com brisas que tentam, em vão, abrandar o calor que transpassa as grossas paredes históricas do Palácio da Luz, no centro de Fortaleza, ela pisa respeitosamente a ampla passarela de parquet e, observada por olhos imortais, dirige-se à sala da biblioteca onde, entre pilhas de livros e revistas, é auxiliada por um pequeno e motivado grupo.

É nesse solene ambiente cultural que Rita de Cássia cumpre a bela tarefa voluntária de formação de bibliotecas para comunidades sem acesso aos livros, principal missão da Sociedade Amigas do Livro, uma das quatorze entidades literárias cearenses abrigadas no palacete edificado por volta de 1781, atual sede da Academia Cearense de Letras, a mais antiga instituição do gênero no país, fundada em 15 de agosto de 1894. No currículo da equipe liderada por Rita, já constam 65 bibliotecas instaladas na capital e municípios do interior do estado.

Quando não está transformando pensamentos e devoções em poesias ou organizando e restaurando livros doados, Rita de Cássia se diverte crochetando lindas peças, arte que aprendeu na infância com a vovó Bela (Isabel Amaral Fernandes), mãe de seu pai, sucedida pela irmã Honorina na formação moral e educacional da neta. A tia Teté, como os filhos da poetisa a chamavam, morou com a família da sobrinha-neta até falecer e foi sua maior referência afetiva. É esse amor ao próximo que ela procura praticar, inspirada em seres de espírito elevado, voltando-se principalmente àquelas pessoas que carecem de pequenos gestos amigos, como um simples e fraterno abraço. No outro extremo da condição humana, a poetisa lamenta a disseminação das guerras e a ambição desmedida, equiparando-as às piores maldades e causas dos maiores infortúnios da humanidade.

A autodeclarada ausência de vaidade, representada pelos cabelos curtinhos e naturais, sem qualquer coloração química, é contestada por um único excesso: anéis. Um monte deles. O estilo rendeu-lhe o apelido carinhoso de “Maria Bonita”, dado por uma das netas. A designação a faz sorrir, enquanto gesticula mãos adornadas de belos aros que ganha todos os anos do marido, seu companheiro nessas quase seis décadas.

Entre as situações que a deixam feliz e risonha, estão as mais singelas, como quando reúne os netos ou entrega uma biblioteca da SAL. Tristeza mesmo ela sente ao tomar conhecimento de alguém doente, sem condições financeiras para custear o tratamento. A serenidade que a distingue, todavia, é colocada à prova perante o caos doméstico, embora se esforce para ser tolerante com os auxiliares do lar. A única frustração pessoal é não ter tido a oportunidade de concluir o curso superior, devido à jornada dupla de trabalho para ajudar nas despesas familiares, ainda que se considere vencedora com a formação no curso normal, antigo magistério.

Na fila de autógrafos do seu primeiro livro de poesias estava a mestra que, naquele longínquo dia, quando a menina Rita de Cássia se viu refletida no interior da casinha branca de portas azuis, vaticinou que ela seria escritora. Comovida com o reencontro surpreendente, não pôde evitar a lembrança traumática da extração do seu dentinho de leite, com o sangue jorrando sobre o vestidinho cor de rosa, cheio de bolinhas.

Admite com certa tristeza a resistente aversão a procedimentos odontológicos. À naturalidade com que expõe um traço vulnerável, ela acrescenta outras características marcantes: alegre e pequena. A estatura atrai diminutivos carinhosos. Engana-se, porém, quem associa altura a vigor. Na essência, Ritinha é grandiosa como as suas mensagens poéticas, fértil como as sementes que germinam na natureza, doce como a manga madura, frondosa como o cajueiro florido, misteriosa como o conteúdo de gavetas secretas, e eternamente saudosa da sua sofrida Canindé:

“(…) Procuro no final da tarde
​​​antes da lua clarear
o céu azulado da minha terra.
Nada encontro
Além da terra seca,
quase sem vida. (…)” (“No baú…”, em “Palavras”, 2016)

A menina alfabetizada em casa, aos cinco anos de idade, pelas tias professoras, era o orgulho do pai, que não perdia a oportunidade de exibir aos amigos os dotes da pequena leitora que, mesmo a contragosto, lia em voz alta o jornal O Santuário de São Francisco das Chagas, para deleite geral. A mulher que desde criança tem um anjo para chamar de “seu” dedica imensurável amor à família, valoriza as origens e confia na proteção divina. Com um olho no trançado do crochê e outro na tevê, alternando com a leitura de um bom livro, ela segue gestando emoções. Tendo a inspiração permanentemente à espreita, a qualquer momento pode surgir um novo livro de poemas. Cuidadosa no falar, entrega-se sem parcimônia a instantes reflexivos para se autodefinir doida e meia, em meio a um sorriso maroto. Sim, a vida para a poetisa que persegue os sonhos com a paciência dos obstinados pode ser encarada também de forma divertida. Aos comuns mortais, resta-nos aplaudir sua abençoada “loucura”.

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*Publicado originalmente na revista Policromias, da AJEB.


Feira ao sul do Tejo

Um dos principais eventos agropecuários de Portugal atrai negócios que movimentam a economia da rica região do Alentejo

(Enviada especial a Estremoz, Portugal)


(Foto 1)

Uma canção romântica embalava os visitantes que chegavam para o terceiro dia da Fiape 2017, na cidade de Estremoz, sudeste de Portugal.

Apuro o ouvido, algo me soa familiar: o sotaque do cantor. “Meu ar, meu chão é você. Mesmo quando fecho os olhos, posso te ver…”. O que leva uma feira rural, ao sul do Tejo, a incluir brasileiros na playlist? Arrisco perguntar a uma local se, por acaso, saberia quem estava cantando. A rapariga me olha com ar de espanto, balançando negativamente a cabeça. Ora, se você, que é brasileira, não sabe, que direi eu!, seu semblante parecia falar.

Utilizo o potente wifi do parque de exposições e faço um google com os versos da tal balada. Milhares de resultados expõem “Sem ar”, do cantor carioca D’Black, considerado um dos fenômenos de 2008 na internet, por ter alcançado rapidamente mais de quarenta milhões de audições, segundo a gravadora do artista.

Chega de digressões. Hora de trabalhar. Este é o terceiro ano em que a equipe do AgroValor visita a Fiape – Feira Internacional Agropecuária de Estremoz, apontada como uma das mais importantes iniciativas do setor, realizada de 27 de abril a 1º de maio.

Em sua 31ª edição, a Fiape apresenta números que impressionam. Conforme seus organizadores, mais de 60 mil visitantes convergiram ao Parque de Feiras e Exposições Engenheiro André de Brito Tavares, nos cinco dias do evento, para conferir os 450 expositores, nas áreas de pecuária, maquinário agrícola, comércio e indústria, artesanato, produtos regionais e comercialização de automóveis. Uma vasta programação cultural oferecia ainda palestras e espetáculos musicais.

Um dos certames nacionais da pecuária mais aguardados era o de ovinos Île-de-France, que teve início às 10h30, do dia 29 (sábado). José Romão (da Romão & Folque), criador e diretor técnico da raça, destacou a importância do concurso para o aperfeiçoamento da genética e reconheceu a evolução da feira nos últimos anos. “A Fiape melhorou muito depois que veio para este recinto”, anuncia Romão, referindo-se à excelente estrutura do parque de exposições de Estremoz. O especialista adianta ao AgroValor que confirmou convite para participar da Expointer, em Esteio (RS), em agosto próximo.


(FOTO 2)

Visitantes de várias regiões de Portugal, além de outros provenientes da Espanha e Brasil, vieram apreciar os rebanhos, o artesanato, os vinhos, o azeite e a gastronomia. Um grupo de turistas brasileiros, que visitava Estremoz pela primeira vez, aproveitou para conhecer a feira. Ficaram surpresos com o vigor do evento realizado em uma cidade pequena para os padrões brasileiros, com população inferior a 15 mil habitantes, mas com forte potencial de negócios. Izabel e Osler Machado, empresários de Fortaleza, provaram os deliciosos enchidos, o presunto Pata Negra, os pães, os vinhos, a enorme variedade de frutos secos do Alentejo e só tinham elogios. “Achei bastante interessante, pois dá oportunidade também aos pequenos produtores; muito organizado; o segmento de ovinos é muito rico. Tive a chance de conhecer um Agronegócio desenvolvido por outro país”, afirma Machado.

(FOTO 3)

O empresário brasileiro Antônio Bitar, da Fazenda Libanus, em Paracuru, Ceará, produtora de ovinos, cachaças artesanais e ovos de galinha caipira, frequenta a Fiape desde 2007. “Cresceu muito em estrutura, desde a primeira vez em que aqui estive, há dez anos. A manutenção da qualidade dos produtos é outro fator a destacar”, atesta Bitar, com satisfação, sobre a evolução do evento.

(FOTO 4)

Realizada paralelamente à Fiape, a 35ª Feira de Artesanato de Estremoz reafirmou sua potencialidade, com 120 expositores nos mais variados estilos e materiais. Isabel e José Diamantino – ele, de tradicional família no ramo da ouriversaria –, consideram o evento um dos mais organizados do país, com bom número de visitantes e igual nível de vendas. Essa é a terceira vez que o casal expõe no Alentejo. “Somos ricos de autoestrada, temos prazer em conhecer as terras e a gastronomia de outras regiões”, declara Diamantino, que viajou de carro com a mulher por três horas, desde Gondomar – no distrito de Porto, norte do país, trazendo belas peças para apresentar na feira.

(FOTO 5)

As inesperadas baixas temperaturas para a época, cerca de 11º C, com algumas pancadas de chuva e ventanias, surpreenderam alguns expositores. A principal queixa referia-se às condições desfavoráveis de tempo para os setores cujos estandes fixaram-se ao ar-livre.“Participamos desta feira há doze anos. Neste ano, o clima não ajudou, vamos esperar que melhore até amanhã [domingo]”, lamentava Maria João, funcionária da Carola & Borralho, produtora de artigos em pele de ovelha, como calçados, vestuário, acessórios e decoração, situada em Monforte, no Alto Alentejo.


(FOTO 6)

Além de mostras e atividades diurnas, os shows musicais da Fiape movimentaram as noites da pequenina Estremoz, que teve sua população multiplicada no final de semana prolongado, devido ao feriado do Dia do Trabalhador (1º de maio) ter caído em uma segunda-feira. Bandas, cantores e DJ’s dividiram os palcos, com ritmos que iam do pop rock a hip hop e rap, além de música eletrônica, grupos folclóricos e, claro, o belo fado.

Cruzo novamente com o grupo de turistas brasileiros. Estavam de saída para a Quinta Monte da Azinheira, na vizinha Arcos, onde almoçariam com a família Cabaço, fabricante dos estrelados vinhos Monte dos Cabaços. Seriam recebidos por Margarida e Joaquim Cabaço, ela a chef do tradicional Restaurante São Rosas, que funcionou até dezembro último no interior das muralhas do centro histórico, ao lado da Pousada Castelo de Estremoz. Pelo grau de ansiedade do grupo, podia-se antever o banquete alentejano harmonizado com vinhos Monte dos Cabaços que deve ter se estendido até a noite.

Recomeçam as divagações. Difícil concentrar-se nesse ambiente de cheiros e sabores inigualáveis. Hora de provar as delícias do Alentejo. Quem já saboreou uma Bochecha de Porco Preto assada ao forno com migas de brócolis, acompanhado de uma taça de Margarida Alicante Bouschet 2010, pode me entender perfeitamente.

Serviço

31ª Fiape e 35ª Feira de Artesanato

Anualmente, no final de abril (Em 2017: 27 abril a 1 de maio)

Parque de Feiras e Exposições Eng. André de Brito Tavares

Estremoz – Portugal

Organizadas pela Câmara Municipal de Estremoz, em parceria com a Acore – Associação de Criadores de Ovinos da Região de Estremoz, com o apoio de diversas entidades.

http://www.cm-estremoz.pt/evento/fiape

Onde se hospedar

Pousada Castelo de Estremoz

Largo Dom Diniz

Estremoz

http://www.pousadas.pt/pt/hotel/pousada-estremoz

Onde comer

Mercearia Gadanha

Largo Dragões de Olivença, 84-A

Estremoz

Fecha segunda-feira

http://www.merceariagadanha.pt

Vinícola a visitar

Vinhos Monte dos Cabaços

Monte da Azinheira

Arcos – Estremoz

http://www.montedoscabacos.com


Crédito Fotos: AgroValor

(FOTO 1) Estremoz. Entrada principal do Parque de Exposições, onde se realizaram a 31ª Fiape e a 35ª Feira de Artesanato

(FOTO 2) Especialista. José Romão, diretor técnico da Île-de-France, em ação durante o concurso da raça

(FOTO 3) Turismo rural. Izabel e Osler Machado, de Fortaleza, em passeio pela região do Alentejo

(FOTO 4) Assiduidade. Antônio Bitar, empresário brasileiro do Agronegócio, conferindo a Fiape pela terceira vez

(FOTO 5) Aventura. Casal de ourives, Isabel e José Diamantino, atravessaram o país para expor em Estremoz

(FOTO 6) Frio. Maria João, expositora de artesanato, acredita que o clima diminuiu o fluxo de visitantes


Ser Fortalezense

Não é só sobre ter uma certidão de nascimento em cartório.

É sobre acolher forasteiros e fazê-los sentir como se em casa estivessem.

É absorver a cultura interiorana de pais e avós, e construir a sua própria.

É sobre a habilidade de profissionalizar o humor, desafiando adversidades.

É definir o seu próprio sotaque a partir da mistura de vários.

É desejar 365 dias ensolarados por ano, mesmo reconhecendo a necessidade de uma boa chuva.

É sobre saber transformar o martírio de revolucionários em Passeio da esperança para as novas gerações.

É preferir morar junto ao mar, contrariando a ideologia rural do “quanto mais longe do litoral, melhor”.

É sobre evocar o feminismo das heroínas emblemáticas de Rachel de Queiroz.

É agir de forma possessiva, quase infantil, apontando os defeitos sem permitir que estranhos o imitem.

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

É sobre ter a honra de partilhar com José de Alencar o berço natal, a primeira luz.

É apoderar-se de valiosos equipamentos culturais, de teatros a praças, como se privados fossem.

É sobre alimentar o espírito com a irreverência dos jovens padeiros literários.

É rejeitar o descaso com a tragédia da seca, por atrair a fome, o fanatismo religioso e a reinvenção do cangaço.

É sobre indignar-se com demonstrações de baixa afetividade de migrantes e imigrantes.

É sobre sonhar com igualdade social, do Bom Jardim ao Meireles, porque ninguém sobrevive sem uma utopia.

É tecer loas a outras cidades e manter a sua no topo das maravilhosas.

É sobre celebrar 291 anos com orgulho, confiança e luta.

É respeitar os símbolos da ancestralidade negra e índia.

É reescrever a História com caligrafia holandesa, portuguesa, universal, ou ainda brasileira e mesmo cearense de outras plagas.

É ser, sobretudo, um forte, força, fortificação, Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção.


A mais transformadora das paixões

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“Livros não mudam o mundo,

quem muda o mundo são as pessoas.

Os livros só mudam as pessoas.”

 

Atribui-se ao poeta Mário Quintana a citação acima. Autoral ou anônima, é indiscutível que ela nos leva a refletir sobre o poder transformador da leitura, além de sugerir que vivemos – nós e os livros – em incessante processo evolutivo.

 

Estudiosos acreditam que estamos testemunhando e protagonizando uma das maiores revoluções desde a invenção da escrita em papel. Referimo-nos àquelas advindas das tecnologias digitais e eletrônicas. Um momento de inúmeras interrogações acerca do tipo de leitura que o futuro próximo nos reserva.

 

Um dos autores contemporâneos que melhor fundamenta a evolução dos suportes de leitura e sua influência sobre a nossa maneira de compreender um texto, um livro – e, por consequência, o mundo à nossa volta –, é o escritor argentino Alberto Manguel. Em sua obra mais conhecida, Uma História da Leitura (1997), ele defende que o embate entre o livro impresso e o digital repete um fenômeno já ocorrido no passado, quando da passagem da transmissão oral para o texto escrito.

 

Na entrevista que abre a quinta edição da Revista SAL, as associadas Cybele Pontes e Emelvira Sá demonstram estar atentas a tais mudanças e aproveitam para expor, dentre outras questões importantes, suas ideias quanto à citada transição em curso.

 

Para expressar a metamorfose operada em nossa mente a partir do hábito da leitura, a talentosa ilustradora Rebeca Melo inspirou-se na borboleta – considerada o símbolo da transformação – para criar a capa e as imagens do miolo desta edição. Após um longo processo evolutivo, a lagarta rompe o casulo, libera as asas e se transforma em uma bela borboleta, uma alusão ao poder transformador da leitura para a construção de uma visão crítica que nos eleva à condição de condutores da nossa própria história.

 

Sentimo-nos honradas em contar com a participação de escritores convidados que prestigiam permanentemente a SAL, como Fernanda Quinderé e Lúcio Alcântara (poesia), Olga Sawary (conto), Socorro Acioli (crônica), além do saudoso poeta Antero Coelho Neto, uma das maiores perdas afetivas e literárias de 2016.

 

Das queridas companheiras da SAL, a arte de Côca Torquato e Terry Araújo nos convida à reflexão e nos presenteia com o belo; Os artigos de Bernadete Bezerra e Vera Moraes transmitem a sensibilidade aguçada das duas intelectuais; Os contos de Lourdinha Leite Barbosa e Thereza Leite preenchem o nosso imaginário; As crônicas de Ana Maria Jereissati, Celma Prata, Constança Távora, Cybele Pontes e Margarida Magalhães nos aproximam de experiências únicas protagonizadas pelas autoras; O discurso de Suzana Ribeiro indica o sentimento respeitoso da grande dama da SAL para com a academia literária mais antiga do Brasil; Os ensaios de Angela Gutiérrez e Regina Fiúza confirmam sua riqueza acadêmica; A poesia de Beatriz Alcântara, Dina Avesque, Emelvira Sá, Giselda Medeiros, Neide Azevedo, Révia Herculano e Rita Araújo alimenta o nosso espírito e transborda em pura emoção. A nossa inesquecível Aíla Pereira, que partiu em 2015, se faz presente através de tocante homenagem in memoriam.

 

Todas essas pessoas carregam em comum a paixão pelos livros – independentemente do formato em que se apresentem –, atitude que as transforma e, por conseguinte, transforma o mundo, como profere a frase inicial creditada ao “poeta das coisas simples”, assim chamado por sua imensa habilidade em abordar a complexidade de forma singela.

 

Neste ano em que a SAL completa 55 anos de ininterrupta atuação na formação de bibliotecas para as comunidades sem acesso a livros – sua principal missão –, recorremos novamente a Manguel, quando reconhece a importância da leitura para o desenvolvimento de um povo: “Uma sociedade pode existir – existem muitas, de fato – sem escrever, mas nenhuma sociedade pode existir sem ler”.

 

Conservemos, pois, nossas bibliotecas reais e afetivas, pois são elas que determinam a nossa identidade e cidadania, além de promoverem a nossa contínua evolução. E que as borboletas do conhecimento continuem com seu revoluteio a fecundar mentes e corações.

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Editorial da Revista SAL (Sociedade Amigas do Livro)_biênio 2016-2018, editada por Celma Prata, dezembro/2016

Ilustração de capa por Rebeca Melo


Sessentíssima

Enquanto organizo o material para a coletânea que marcará minhas seis décadas de vida, acompanho nos textos o passar dos anos. É interessante observar as mudanças – positivas ou não – em nossa trajetória. Uma evolução natural.

 

Aos 60, uma pessoa é considerada nova ou velha? Depende do referencial. Na linguagem dos meus amigos mais velhos, sou um “broto”; Para os mais jovens, sou “coroa”; Pelas leis brasileiras, sou “idosa”. E haja rótulos.

 

Dia desses, fui taxada pejorativamente de “petista”. Já me pregaram também etiqueta de “ateia”. Ni l’une ni l’autre, apenas tenho um cérebro, leio sobre tudo e por isso desenvolvi algo que se chama visão crítica e racionalidade. Simples assim. Aliviada, lembro que sou feita igualmente de afeto, matéria que me mistura definitivamente ao outro.

 

Além dos tolos e dispensáveis rótulos, incomoda-me profundamente comentários simplistas ou pensamentos reducionistas sobre temas complexos, como a maneira individual de perceber o mundo e as pessoas.

 

Recentemente, uma frase nas redes sociais me chamou a atenção: “O que muda na sua vida se José ama Joaquim?”. O mesmo conceito pode ser estendido a outras áreas. O que muda na sua vida se sua amiga branca se relacionar com uma pessoa negra? O que muda na sua vida se o seu amigo rico se casar com uma moça pobre? Ou se a mãe divorciada de 50 anos da sua amiga namorar um garotão de 30? O que muda na sua vida se uma mulher na praia tirar a parte de cima do biquíni? Você, que idolatra artistas que exibem piercings e tatuagens, por que reage mal diante de familiares e amigos que usam idêntico estilo? O que muda na sua vida se o seu novo vizinho é imigrante, ou muçulmano, ou ateu, ou evangélico, ou católico, ou obeso, ou anão, ou deficiente físico/ mental, ou gosta de bichos? Em que isso lhe prejudica? A mim, absolutamente nada.

 

Os preconceitos nos sufocam e trazem sofrimento desnecessário a todos. Combatê-los é atitude democrática, cidadã e humanista. Como reagir diante de situações que consideramos injustas? O que você faria, por exemplo, se soubesse que empresas ou órgãos deixam de contratar profissionais competentes só porque são gays, ou tatuados, ou são homens que usam rabo de cavalo e brincos, ou ainda porque são mulheres, ou negros, ou passaram dos 40 anos, ou não têm religião, ou não possuem afinidade ideológica com o chefe? Denunciaria e pressionaria para que reavaliassem regras e conceitos ou, simplesmente, se calaria? Quem lucra com tais julgamentos discriminatórios? Ninguém.

 

A caminhada não é nada fácil, embora, e talvez exatamente por isso, fascinante. É um exercício de constante reflexão, de idas e vindas, de descobertas e “refazendas”, tentando acertar e consertar os erros a cada dia. Sempre argumento que mais grave do que pretender tornar-se uma pessoa virtuosa é considerar-se mais virtuoso hoje do que ontem, ou seja, melhor a cada ano que passa. Uma armadilha que captura até os mais bem intencionados. No exato instante em que me considero melhor que antes, enterro minhas pretensas virtudes no terreno movediço da prepotência e soberba, sentimentos que me afastam cada vez mais da perfeição. Doido demais, não é?

 

Então, como fugir dessa arapuca? Penso que não há muito a fazer. Arrisco sugerir que simplesmente viva e deixe os outros viverem. Em paz. Assim não vai precisar se preocupar em “melhorar”, entende? E, cá entre nós, para que mesmo ser perfeito?

 

Reconhecer minhas inúmeras falhas me traz até certo conforto, pois me recoloca na condição primeira, na minha essência humana. Preciso, contudo, admitir que me orgulho de algumas “vaidades” (quem nunca?) que, felizmente, não sumiram com o tempo: O espírito contestador, a necessidade de extravasar sentimentos ou de expressar-me sem meias palavras. Mantenho ainda de forma intacta a capacidade de me indignar, de provocar e de denunciar. E, principalmente, de amar. Esta última, espero conservar até o fim.

 

22 de julho de 2016

Crônica originalmente publicada no livro coletânea da autora “Viver, simplesmente” [Sete, 2016] 


Parabéns, mãe, e obrigada!

fotoPara minha amada mãe, Clélia Prata, que hoje completa 100 anos de vida

 

A súdita mais leal

A crítica mais cortês

E a mais contestadora

A mais amorosa

A mais cuidadosa

A mais responsável

A mais condescendente

E a mais intolerante

Assim mesmo, passional a gosto

 

Gratidão ao tempo Rei

Que permitiu

Decifrar o não dito

Abrandar impulsos

Sanar dúvidas

Refazer caminhos

Amar como se deve

Sem ressentimentos

Sem cobranças

Sem julgamentos

 

Orgulho sem medida

Dessa mulher, ser humano ímpar

Parabéns pela lucidez centenária

De sofrimentos

E muita felicidade

Obrigada pelos exemplos

Pelos cuidados

Pelo amor

Pelos extremos

Pelos ensinamentos

Por mostrar que a vida

É dádiva

Obrigada por viver tanto!


Não fui pra rua

Estou sozinha no primeiro andar da Casa. Observo, do meu incômodo exílio voluntário, as manifestações “cívicas”. Que multidão é essa, minha gente? De onde vem todo esse ódio? Pessoas que pregam tolerância, compaixão, amor, solidariedade; Líderes que deveriam dar o bom exemplo. Tento entender, não consigo. Falo como cidadã comum que sou, como ser humano falível, não exerço cargo público comissionado, não sou filiada a nenhum partido político, nem votei na Dilma.

Diante de meus olhos assombrados, um festival de horrores Brasil afora.

Jovens espertos aos brados de “Estamos fazendo história”, recusando-se a estudar a história recente do país, de outro 13 de março, há cinco décadas, a apenas dois cliques no seu smartphone.

Adultos cidadãos – e, portanto, esclarecidos – estacionam seus carros nas ciclofaixas das ruas de acesso.

Nostálgicos do golpe de 1964 com faixas “Viva a Revolução!”.

Políticos corruptos com cartazes “Fora Dilma, Lula e PT”.

Empresários corruptores com camisas da CBF. Esses, pelo menos, são coerentes. A entidade máxima do futebol brasileiro está afundada em denúncias escabrosas de fraude, subornos e lavagem de dinheiro, em dobradinha com a “instituição de caridade” Fifa. Hilário, mas é verdade. É assim registrada para fugir dos altos impostos suíços.

Católicos convictos se recusam a sujar as mãos e rogam pela intercessão da virgem, “Nossa Senhora, esmaga a cabeça da Jararaca”.

Gays e “periguetes” fazem fila para tirar foto com um boneco Moro de sorriso escancarado que veste camisa estampando o rosto sereno de Bolsonaro.

Evangélicas, cujas mães, avós e bisavós conquistaram – à custa de humilhação e sofrimento – o direito ao voto e de protestar livremente nas ruas, portam cartazes “O feminismo não me representa”.

Bebês que ainda nem falam, cabecinhas amarradas com bandanas verde-amarelas, posam para selfies, com seus orgulhosos e sorridentes papais e mamães, imediatamente compartilhadas na festa das redes sociais: “Eu fui!”.

Há os sem noção que atiram para todo lado: “Contra tudo o que está errado”, e também aqueles bem-intencionados, creio, embora em número insignificante.

Colegas repórteres da grande mídia nacional, que deveriam esclarecer a população e primar pela verdade dos fatos, manipulam imagens e sonegam informações. Ok, precisam garantir o emprego, mas injúria tem limites. Cadê a dignidade? É constrangedor, humilhante. Nessa hora, sinto vergonha da profissão.

Nas redes sociais, uma foto da belíssima orla de Fortaleza com uma pergunta meio indignada, meio decepcionada: “Por que a Globo não mostrou a nossa manifestação?”. A resposta é simples: Porque não se trata de concurso de cartão postal ou de fotografia. Estamos falando do futuro de uma nação, a nossa.

Recebi inúmeros chamados do tipo “Vem pra rua!”. Não fui.

Quando eu fui pra rua defender o trânsito compartilhado, ouvi comentários irônicos, do tipo “As ruas de Fortaleza são muito estreitas para comportar ciclofaixas”. Pois, sim! Quando eu quis ir pra rua me apossar das calçadas e praças, fui destituída da ideia tresloucada e, mais, incentivada a blindar carro e portaria do condomínio. Quando eu fui pra rua pedir pela não violência e educação pública de qualidade para todos, fui taxada de “petista”, a pior das ofensas contemporâneas.

Antes de protestar nas ruas, vou tentar cumprir, pelo menos, algumas leis básicas de trânsito, como a de não dirigir depois de beber, não estacionar em vagas de idosos, não ultrapassar a velocidade mínima permitida onde não há sensores eletrônicos, não usar o GPS para fugir de blitz da lei seca, não atravessar sinais amarelos. Sabe o lema “Começar por mim”? Esse mesmo! Aquele que nossas mães nos ensinaram na infância e abandonamos não sei em que estágio da vida.

Desci para o térreo. Sem superpoderes para indicar quem quer que seja ao Paredão. Se os tivesse (os superpoderes), mudaria muita coisa. Mantenho, contudo, minhas convicções, pudores e sonhos. De um país mais justo, sem campanhas políticas milionárias, sem troca de cargos públicos como se fossem mercadorias, sem senhores e escravos.

Para concluir, não me pergunte de que lado estou. Não tenho lado, tenho coração e mente. Eu penso e sinto. Só isso.


Sem medo, sem rótulos

Naquela quinta-feira à noite, enquanto desfrutávamos com amigos de momentos agradáveis em nossa casa, em Fortaleza, um grupo de fanáticos acertava os últimos detalhes do que viria a ser o pior massacre na Paris pós-guerra.

 

Trinta dias se passaram desde a sexta-feira 13 de novembro e ainda me custa acreditar na matança de 130 pessoas inocentes e o saldo de mais de 350 feridos, muitos em estado grave. Se já é difícil acreditar, que dirá entender. Não sou capaz, por mais que tente.

 

Igual reação se manifesta em relação à matança de janeiro na redação do Charlie e no supermercado kosher. Mesmo diante das justificativas apontadas equivocadamente por algumas pessoas – as “blasfêmias” contra o profeta Maomé, no caso da barbárie do início do ano –, não há atenuantes racionais para qualquer dos acontecimentos.

 

Atentar contra os símbolos da liberdade, igualdade e fraternidade é desprezar a boa vontade e a capacidade de compreensão do mundo civilizado. Para mim, é aflitivo perceber o desafio que temos pela frente: descobrir formas possíveis de convívio com as diferenças. Ora, se já é difícil aceitar a diversidade de ideias e atitudes entre o nosso círculo íntimo de amizades, como conviver com os diferentes grupos que nos cercam? Mas precisamos tentar. Que tal começarmos pela eliminação de rótulos? “Ele/ela é gay”; “evangélica”; “periguete”; “ateu”; “negro”… As pessoas são mais do que essas rasas designações cuja única função é alimentar o preconceito.

 

Nas comunidades primitivas vivia-se em grupos fechados onde todos tinham o mesmo comportamento, eram motivados apenas por laços afetivos e partilhavam as mesmas crenças. Mas o mundo mudou, brothers, vivemos no século vinte e um, estamos (moradores de Fortaleza) a seis horas e meia de Lisboa e a sete horas de Miami. Isso significa que as distâncias e fronteiras físicas deixaram de ser empecilho para um intercâmbio cultural que só nos enriquece e acrescenta.

 

Não podemos permitir que destruam nossas conquistas democráticas, nosso direito de ir e vir, nossa liberdade de expressão e pensamento. Continuarei planejando estadias no exterior sempre que possível. Continuarei usando o metrô, o ônibus, me apossarei dos parques, ruas e calçadas. Isso vale também para o Brasil. Superar o medo é atitude das mais urgentes.


Com um pé no Douro (*)

As vindimas do Douro, entre agosto e outubro, são uma verdadeira celebração que se reinicia a cada manhã com a colheita das uvas e termina à noite com a pisa nos lagares

Rio Douro margeando encostas de Lamego cobertas de videiras

Rio Douro margeando encostas de Lamego cobertas de videiras

Na véspera de partirmos rumo ao Douro, norte de Portugal, pedi à minha pedicure: “Fran querida, capriche aí, pois esses pezinhos poderão esmagar as uvas da melhor safra de vinho tinto duriense!”.

Após um pernoite básico em Lisboa para rever velhos amigos, devorar meia dúzia dos inimitáveis pastéis de nata e escalar – de salto (vacilo!) – as ladeiras da Alfama para chorar com os maravilhosos fadistas, pegamos a autoestrada em direção à primeira região vinícola demarcada do mundo, famosa pelos seculares Vinhos do Porto e, mais recentemente, pelos vinhos de mesa. Em quatro horas, incluindo algumas paradas para abastecermos carro e estômagos, o navegador nos deixa nos jardins da bela Quinta da Pacheca, em Lamego, a poucos minutos de Peso da Régua, ou simplesmente Régua.

Vista parcial das parreiras na Quinta da Pacheca, em Lamego, Portugal

Vista parcial das parreiras na Quinta da Pacheca, em Lamego, Portugal

Recepcionados pela bem treinada equipe da vinícola, já fomos fotografando vales e paisagens. Nosso grupo era formado por 22 pessoas de várias partes do mundo, ávidas para conhecer aromas e sabores das castas mais emblemáticas da região, como as tintas Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Roriz, e descobrir “o que é que o vinho do Douro tem”.

Ricardo de Santos, consultor da vinícola, conduzindo a prova de vinhos

Ricardo de Santos, consultor da vinícola, conduzindo a prova de vinhos

Por volta das 7 da noite, sol ainda esperto, compartilhamos longas mesas de madeira ao ar-livre, de frente para encostas cobertas de parreiras a perder de vista. Começa a prova de vinhos de mesa do Douro e Porto Vintage, conduzida pelo escanção (designação portuguesa para sommelier) Ricardo de Santos. Parênteses: Em Portugal, aprendi a lição há alguns anos ao perguntar pelo shopping mais próximo: “Aqui falamos português, senhora, o ‘centro comercial’ fica logo ali!”.

Em breve explanação sobre o Vinho do Porto, Santos esclarece algumas dúvidas recorrentes, como a de que “garrafa aberta é garrafa consumida”. Dependendo do tempo de envelhecimento, “o Vinho do Porto pode ser consumido até um ou dois anos depois de aberto, caso dos Tawnies 20 anos. Os de 10 anos suportam até seis meses abertos”. A classificação por idade do famoso licoroso, de acordo com o consultor da Pacheca, é subjetiva e obedece a regulamentos próprios. “Não se trata de idade real, 20 anos significa que o vinho se encaixa em determinadas características”.

Mais perguntas surgem entre os participantes. “E o que diferencia o Vintage e LBV (Late Bottled Vintage) dos outros vinhos do Porto?”. Santos responde relembrando uma passagem familiar: “Meu avô dizia que Vintage é quando Deus quer; os outros é quando o enólogo quer”. A última safra declarada oficialmente Vintage – um conceito de “perfeição” –, foi a de 2011. Vintage e LBV pertencem à categoria Ruby, vinhos que envelhecem bem em garrafa, sendo que a chamada “joia da coroa”, o Ruby Vintage, fica os primeiros vinte meses em barril para depois concluir o envelhecimento em garrafa; já o Ruby Late Bottled Vintage, como a tradução sugere, é engarrafado bem mais tarde – após quatro a seis anos em barril – e destinado a consumo imediato. A segunda categoria de Vinhos do Porto, quanto ao estilo de envelhecimento, pertence aos Tawnies, que ficam em barril por período superior a cinco anos até quarenta anos. A região, segundo Silva, conta com 33 mil produtores. “Os pequenos sobrevivem através da venda de uvas para os grandes”. A maioria da produção (60 % a 70 %) é “exportada para a França”, confirma o consultor.

Um dos grupos pisando uvas nos lagares da Quinta da Pacheca

Um dos grupos pisando uvas nos lagares da Quinta da Pacheca

Entre um copo e outro de branco, tinto e Vintage, nessa ordem, fomos “pegando energia”, nas palavras de Santos, para o que viria a seguir. O consultor referia-se à lagarada, uma das etapas mais esperadas da visita. Vestimos padronizados calções de brim azul, em vestiários improvisados – masculino de um lado, feminino de outro –, protegidos por singelos biombos, o que não representou qualquer problema, àquela altura a química do vinho já havia transmutado severos códigos sociais. Largamos tudo no chão e nos cabides e corremos para os lagares, portando apenas smartphones e câmeras. Impensável não registrar um momento único como aquele.

Violeiros garantem a animação da pisa da uva com músicas típicas

Violeiros garantem a animação da pisa da uva com músicas típicas

Animados violeiros nos aguardam ao redor das duas fileiras de uma dezena de enormes tanques de pedra, cada um com capacidade para uma dúzia ou mais de pessoas, garantindo coreografias originais a quem se aventurar a imergir pernas e coxas em toneladas de uvas colhidas naquela mesma manhã. Há até quem arrisque passinhos do folclórico vira. Todos, sem exceção, vão abandonando o que ainda resta de timidez e cada tanque se transforma em uma grande celebração. O casal de brasileiros Anete Borella, professora, e Alessandro Paiva, analista de sistema, de Jundiaí (SP), está em viagem de lua de mel. “Eu me emocionei com a pisa nos lagares”, afirma a simpática Anete.

Celma Prata, do AgroValor, em um dos lagares, com o casal paulista, Anete Borella e Alessandro Paiva, que viajava em de lua de mel

Celma Prata, do AgroValor, em um dos lagares, com o casal paulista, Anete Borella e Alessandro Paiva, que viajava em lua de mel

Embora existam atualmente tecnologias ultramodernas que simulam a pisa a pé, a Quinta da Pacheca conserva o modo milenar e artesanal, considerado essencial para se extrair ao máximo a cor e taninos da casca da uva. O processo completo de fabricação é fiscalizado pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto (IVDP), órgão público situado em Peso da Régua, responsável pelo controle da qualidade e quantidade dos vinhos do Porto, e pela proteção das denominações de origem Douro e Porto.

Adega onde foi servido o requintado jantar ao som da fadista Cristina Marques e guitarristas

Adega onde foi servido o requintado jantar ao som da fadista Cristina Marques e guitarristas

Perto das 9 da noite, recebemos jatos coletivos de água nas pernas coloridas de mosto e, recompostos, somos conduzidos, longa escadaria abaixo, até a gigantesca adega da quinta para um superbanquete regado a muito vinho e show ao vivo da jovem fadista Cristina Marques e guitarristas, de Peso da Régua, dentro do projeto “Castas do Fado”. Cinco mesas quadradas, muito bem postas, de doze lugares, cada, recebem fartas porções de patanisca de bacalhau, arroz de pato, embutidos, pães artesanais, sobremesas, cafezinho e Vinho do Porto. Um regalo! O casal lisboeta, Sofia e José João Fonseca, estreava na lagarada em comemoração às suas bodas de prata. “É a nossa primeira vez na pisa, achamos muito giro!”, dispara a feliz Sofia. A animada mesa ao lado celebrava em família “o meio século do senhor Joaquim, como se diz na Régua”, anunciava repetidamente Cristina, entre um fado e outro.

Sofia e José João Fonseca, de Lisboa, estreavam na lagarada em comemoração às suas bodas de prata

Sofia e José João Fonseca, de Lisboa, estreavam na lagarada em comemoração às suas bodas de prata

Passava das 23 horas quando nos despedimos. Após demorado banho, deito na esperança de um dia me deliciar com o vinho feito por esses pezinhos que ainda não desbotaram totalmente. Franzinha, só você pra dar um jeito!

****

Agradecemos à equipe da Quinta da Pacheca pela forma gentil com que fomos recebidos.
http://www.quintadapacheca.com

(*) Matéria publicada originalmente no Jornal AgroValor_Edição_115_setembro_2015
http://www.agrovalor.com.br

Crédito fotos: Celma Prata/AgroValor


Carta para Theo

Você ainda não pode entender o significado das palavras, mas já é capaz de sentir a intensidade do amor e de como é maravilhoso chegar a um lugar onde se é muito bem-vindo.

Nesses últimos seis meses, você vem, a cada dia, conquistando novas liberdades. Comovo-me com o seu enorme esforço na tentativa de se sustentar sobre mãos e joelhos rechonchudos a fim de explorar objetos, espaços e distâncias que devem lhe parecer gigantescos e instransponíveis. Sei, é duro, mas é também estimulante e desafiador.

Agora está prestes a conhecer o sabor de novas comidinhas que provavelmente lhe acompanharão por toda a vida. Veja a mim, beirando os sessenta, e não vislumbro outro jantar que não seja a minha deliciosa e saudável sopinha. Ainda que seja só de segunda a quarta. Portanto, é melhor que se acostume logo e para sempre.

O mundo é cheio de contradições, meu lindo Theo, mas é também um lugar de muitas alegrias. E de tomadas de decisão também. Você terá que fazer escolhas simplistas, entre o Bem e o Mal, por exemplo, mas a maioria delas passa longe do maniqueísmo limitador. Falo de coisas mais práticas, do dia a dia, como ter que optar entre esportes radicais e meia maratonas, entre filmes europeus e americanos, entre música pop e eletrônica, entre esquiar e “snowboardear“, entre curtir uma praia ou velejar no mar a sessenta por hora, entre jornalismo e direito. Na dúvida, tente um meio termo, o seu próprio. Pode radicalizar também, mas que seja temporário, dê logo um jeito de se aprumar novamente.

E quando ganhar um irmãozinho ou irmãzinha, cuide bem dele ou dela, briguem, mas não demorem a fazer as pazes, ame-o/a, ele ou ela estará sempre ali, ao longo da caminhada. E se o/a irmãozinho/a não vier, “adote” o/a primo/a, o/a colega da escola ou o/a amigo/a da natação. Não queira viver sem amigos. Esforce-se, pelo menos. A amizade é algo nobre, que nos deixa mais vivos.

Estude, leia muito, adquira cultura, viaje, abra a mente, livre-se dos preconceitos de toda espécie, descubra as diferentes formas de vivência tão ou mais interessantes que a sua. Concordo, nada é garantido, a vida não é um tratado de lógica, mas quem foca nos objetivos aumenta as chances de cruzar de vez em quando com a tão almejada “sorte”.

No futuro, escolha alguém sensível para construir um projeto de vida em comum, que valorize coisas que o dinheiro compra, mas também aquelas que esnobam o vil metal. E, sim, tenha filhos, biológicos ou não, a maior prova de que você acredita na humanidade e mantém a esperança na existência.

O conselho a seguir vai ser fácil, fácil, basta deixar fluir a vocação: amplie sua família com, pelo menos, um bichinho de estimação. Toda a sua autossuficiência humana e racional ainda não bastará nos momentos de fragilidade que certamente virão.

Ia esquecendo! Acredite em Papai Noel, a metáfora-mãe de todas as miragens e ilusões. Mas, à medida que for atingindo graus crescentes de maturidade, liberte-se de todas elas. Quando restar apenas você e você, aí sim, terá conquistado a tão sonhada plenitude. E não precisa ficar angustiado por isso. Garanto-lhe que vale a pena!

Para terminar, cuide da saúde, não fume e beba “moderamente” (acho horrível essa palavra, mas todo conselho tem um quê de caretice, ainda mais vindo de vó).

Vida longa e saudável para você, meu neto amado!


Thiago Amazonas de Melo

Não acreditem em nada do que eu digo aqui. Isso não é um diário. Eu minto.

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