Caminhabilidade: você sabe o que é? *

Quem duvidou do surgimento de novos conceitos de vida e bem-estar a partir da pandemia e seus períodos de confinamento, trago algumas considerações que observei informalmente nas vozes das grandes cidades.

Um quintal, sacada ou parquinho, por mínimos que sejam, viraram objeto de desejo dos habitantes de moradias compactas.

Em paralelo, renasceu o velho clamor brasileiro sobre a dificuldade de deslocamento para realizar as tarefas cotidianas mais simples.

Gastamos horas preciosas no trânsito para ir à padaria, farmácia, mercadinho, academia, banco, escola, livraria ou loja de roupa, quando poderíamos usar as próprias passadas, bicicleta ou patinete, se houvesse um bom planejamento urbano.

Quando uma cidade privilegia a escala humana, ou seja, dispõe de um traçado que facilita o acesso a lugares básicos e necessários, denominamos isso de “caminhabilidade”, uma concepção bonita e moderna que se vale de uma aptidão tão antiga quanto a humanidade: as passadas como meio de mobilidade antes do advento dos primeiros transportes.

Ao que parece, as pernas estão pedindo o retorno à primazia. Para tal, precisamos de calçadas largas e adaptadas, bairros com infraestrutura, ciclofaixas nas principais vias, ruas seguras e iluminadas, pequenos parques ao longo dos percursos que convidem a um breve descanso, além de transporte público confortável. Infelizmente, os maiores centros urbanos brasileiros trafegam na contramão desse ideal.

À medida que urbanistas do mundo inteiro alertam para o esgotamento do automóvel como solução de locomoção urbana, grupos pró-carros exigem o resgate dos asfaltos em metrópoles que já priorizam o pedestre, como Paris e Nova Iorque. Lidar com pensamentos divergentes é parte do processo de convivência, mas não podemos abdicar dos inegáveis benefícios que as cidades “caminháveis” proporcionam à nossa saúde mental e física.

E você? Apoiaria o uso do automóvel apenas para situações emergenciais ou extensos trajetos, à moda das cidades mais desenvolvidas do planeta? Enquanto reflete, vou ali comprar o pão de cada dia. A pé, claro!

* Texto publicado originalmente no “Mural da Ana Paula” [https://linktr.ee/muraldaanapaula], onde escrevo mensalmente nos terceiros sábados.

Sobre Celma Prata

Celma Prata é jornalista e escritora fortalezense. Autora de “Confinados” [Sete, 2020], finalista do Prêmio Jabuti 2021 na categoria Conto; do romance "O segredo da boneca russa" [Sete, 2018]; e dos livros de não-ficção "Viver, simplesmente" [Sete, 2016]; e "Descascando a Grande Maçã" [Sete, 2012]. É membro da Academia Cearense de Letras, da Academia Fortalezense de Letras, da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil e da Sociedade Amigas do Livro, entidade cultural em que presidiu o conselho diretor, de 2016 a 2020. Ver todos os artigos de Celma Prata

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