Maior que o nosso quintal

Bolha, zona de conforto, caixa, não importa a metáfora para a sensação de segurança quando se pertence a um grupo em que todos pensam da mesma forma.

É óbvio que cercar-se de pessoas que comungam com as nossas ideias pode nos trazer um sentimento de acolhimento e bem-estar, mas não podemos esquecer que a resistência, o contraditório, a teimosia e a inquietação são os vetores da mudança e evolução no mundo.

Pegando o gancho nas eleições municipais que se aproximam, cito algo que hoje parece muito natural: o voto feminino. Mas sabiam que, há noventa anos, nós, mulheres brasileiras, não podíamos escolher nossos representantes políticos? Bizarro, não é mesmo? Quando o direito feminino ao voto foi aprovado, em 1932, as casadas só podiam votar com o consentimento dos maridos; viúvas e solteiras apenas se tivessem renda própria.

A quem devemos tal conquista? Às nossas bravas antecessoras que ousaram discordar do pensamento hegemônico à época, que dispensaram as asas protetoras de seus pares e lares patriarcais, “desobedeceram” pais, irmãos e maridos, sofreram discriminações e preconceitos, enfim, saíram da caixa. Imaginem a realidade atual do nosso país se aquelas mulheres tivessem se acomodado em seus casulos, dizendo amém para tudo e todos. Seríamos um país ainda mais injusto, pois é impossível reconhecer igualdade de seres humanos enquanto mulheres e outras minorias não participarem ativamente de decisões coletivas.

Voltando à comodidade de integrar um grupo sem pensamentos divergentes – motivo dessas linhas –, acredito que só evoluímos como pessoas quando somos contestados em nossas certezas e verdades, no contato com o diferente, na prática do argumento, do debate e diálogo respeitosos. Não precisamos “eliminar” quem pensa diferente de nós, salvo quando se tratar de algo cruel e desumanizador, a exemplo do nazifascismo que varreu a Europa na primeira metade do século 20, e de outros males contemporâneos, como o racismo, a homofobia, a misoginia e afins. Mesmo reacionários convictos reconhecem a importância das diferenças para uma sociedade livre. Já dizia famoso dramaturgo brasileiro, de perfil conservador: “Toda unanimidade é burra”.

É possível discordar sem ataques e ódio? Não só é possível, como necessário. Enaltecemos tanto a democracia, mas nos negamos a conviver e respeitar os contrários. Muitas vezes queremos “exterminar” – ou “cancelar”, para usar a linguagem das redes – quem age e pensa de maneira diversa da nossa. O que precisamos combater vigorosamente é a polarização que tanto mal faz à humanidade. O caminho mais trilhável para isso é fortalecendo as liberdades de pensamento e expressão.

Parece utópico? E quem vive sem sonhos e esperança? Vamos sair das nossas caixas? Há vida inteligente pulsando fora delas, um mundo muito maior que o nosso quintal.

***

Publicado originalmente em ArteVistas

Sobre Celma Prata

Celma Prata é jornalista e escritora. Autora do romance "O Segredo da Boneca Russa" [Sete_2018]; e dos livros de não-ficção "Descascando a Grande Maçã" [Sete_2012] e "Viver, Simplesmente" [Sete, 2016]. Atualmente integra o Conselho Editorial do Jornal AgroValor. É membro efetivo da Academia Fortalezense de Letras, da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil e da Sociedade Amigas do Livro, entidade cultural em que liderou o conselho diretor, de 2016 a 2020. Ver todos os artigos de Celma Prata

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