O olhar mais doce que eu já vi

Em memória de Luiza Bitar, que nos deixou no último domingo

Mães são sagradas.

Avós são sagradas em dobro.

Minha sogra era assim, transbordava bondade, nobreza e generosidade, qualidades divinais.

Amor incondicional aos quatro filhos.

Carinho extremado aos dez netos.

E os nove bisnetinhos que lhe chegaram só recentemente ainda tiveram a dádiva de serem admirados pelos olhos mais doces que eu já vi. A longa enfermidade não tirou-lhes a doçura, apenas silenciou seus lábios, prova de que o amor verdadeiro não precisa de palavras.

Completava a beleza interior com o cuidado com a aparência. Trazia os lábios sempre preenchidos com a cor preferida de batom. Não podiam faltar também o aroma do jasmim e aquele creme antirrugas que trazíamos das viagens.

Feliz de quem desfrutava da sua casa e do seu colo. Ali encontrava carinho e uma fartura de quibes e charutinhos preparados por suas generosas e hábeis mãos. Nunca comíamos o suficiente. “Sirva-se mais um pouquinho, minha filha, você não comeu nada! Então, não gostou!”, eu já ficava esperando a sua afetuosa repreensão. Logo aprendi a deixar um espaço para poder repetir porções dos seus famosos quitutes libaneses e paraenses.

Realizei o seu sonho de ter nos braços o primeiro netinho, filho do seu primeiro filho. “Vovó só me faz contente!” foi uma das primeiras frases que ele lhe falou e que a senhora replicou durante anos, entre comovida e orgulhosa. Hoje é ele quem reconta a própria declaração infantil e acrescenta que o amor de seus avós foi o maior amor que ele já presenciou. Que sorte a dos meus filhos e sobrinhos!

A senhora teve os melhores filhos do mundo e isso tem pouco a ver com sorte. De forma natural e espontânea eles apenas praticam seus ensinamentos e exemplos, da senhora e do meu saudoso sogro, Seu Joel, multiplicando naturalmente o amor generoso que receberam.

Quando o seu grande e único amor partiu, a senhora quis acompanhá-lo, mas provou mais uma vez sua fortaleza e permaneceu 22 anos conosco. Agora vocês dois estão no mesmo plano novamente. Cumpriram lindamente sua missão, colocando o amor sempre acima de tudo. Que o exemplo dos dois permaneça nos inspirando a todos. Continuem nos olhando com doçura. Da nossa parte, prometemos continuar honrando o seu legado.

Sobre Celma Prata

Celma Prata é jornalista profissional e escritora. Autora do romance "O Segredo da Boneca Russa" [Sete_2018]; e dos livros de não-ficção "Descascando a Grande Maçã" [Sete_2012] e "Viver, Simplesmente" [Sete, 2016]. Atualmente integra o Conselho Editorial do Jornal AgroValor. É membro efetivo da Academia Fortalezense de Letras, da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil e da Sociedade Amigas do Livro, entidade em que lidera o conselho gestor para o biênio 2018-2020. Ver todos os artigos de Celma Prata

12 respostas para “O olhar mais doce que eu já vi

  • Adélia Magalhães

    Muito lindo e emocionante!! Parabéns à toda a família que puderam conviver com estes grandes ensinamentos!

  • Pedro Costa

    Queridos Celma e Antônio José
    Viajando, não soube do falecimento da D. Luiza.
    Aproveito este espaço agora para apresentar-lhes sinceros pêsames.
    Tenho bem clara a lembrança dela quando, há mais de 40 anos, tive a alegria e o prazer de saborear um pato no tucuri, preparado por ela e na presença do Sr Joel e todos os filhos.
    Não posso deixar de elogiar a belíssima crônica da Celma, onde fica clara toda a sua sensibilidade e o amor filial que sentia pela sogra.
    Apresentem meus sentimentos também aos felizardos netos e bisnetos da querida D Luiza.
    Abcs,
    PCosta

  • Ana Emilia Smith Jorge

    Estimados amigos Celma e Antonio José:
    Aqui no Rio não soubemos do falecimento da querida d.Luiza, tomando conhecimento agora com essa linda crônica da Celma.
    Aproveitamos esta msg pra enviar nossos abraços de pesar e dizer que tb temos doces e boas lembranças tanto dela quanto do sr. Joel.
    Amizade familiar muito estreita que se iniciou com meus sogros Miécio e Amélia e não menos com meus pais, Amélio Smith e Emilia, que foram igualmente muito amigos, o que se prova agora com a permanência dos laços afetivos nesta nossa geração.
    Na minha infância e adolescência eu acompanhava meus pais nas visitas periódicas, como era o costume da época, numa ampla e confortável casa de varanda muito bem cuidada com cadeiras confortáveis (sr. Joel na de balanço) onde os adultos conversavam e regavam o sentimento da amizade.
    D. Luiza sempre com seus lindos e alegres olhos azuis nos servindo deliciosos lanches. Assim temos tempos muito felizes pra recordar deles com carinho.
    Que Deus conforte seus corações e de cada membro da família, na certeza de que eles cumpriram muito bem a missão deles neste mundo.
    Carinhosos abraços meus e de Mauro.

  • Valéria Andrade

    Quem me dera merecer tão linda homenagem quando eu partir! Parabéns pelo lindo texto, amiga!

  • Silvia

    Amiga, q maravilha ler seus textos ! 💐

  • Gina

    Achei mto lindo! E fiquei imaginando como seria esta mulher tão doce…

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