Sessentíssima

Enquanto organizo o material para a coletânea que marcará minhas seis décadas de vida, acompanho nos textos o passar dos anos. É interessante observar as mudanças – positivas ou não – em nossa trajetória. Uma evolução natural.

 

Aos 60, uma pessoa é considerada nova ou velha? Depende do referencial. Na linguagem dos meus amigos mais velhos, sou um “broto”; Para os mais jovens, sou “coroa”; Pelas leis brasileiras, sou “idosa”. E haja rótulos.

 

Dia desses, fui taxada pejorativamente de “petista”. Já me pregaram também etiqueta de “ateia”. Ni l’une ni l’autre, apenas tenho um cérebro, leio sobre tudo e por isso desenvolvi algo que se chama visão crítica e racionalidade. Simples assim. Aliviada, lembro que sou feita igualmente de afeto, matéria que me mistura definitivamente ao outro.

 

Além dos tolos e dispensáveis rótulos, incomoda-me profundamente comentários simplistas ou pensamentos reducionistas sobre temas complexos, como a maneira individual de perceber o mundo e as pessoas.

 

Recentemente, uma frase nas redes sociais me chamou a atenção: “O que muda na sua vida se José ama Joaquim?”. O mesmo conceito pode ser estendido a outras áreas. O que muda na sua vida se sua amiga branca se relacionar com uma pessoa negra? O que muda na sua vida se o seu amigo rico se casar com uma moça pobre? Ou se a mãe divorciada de 50 anos da sua amiga namorar um garotão de 30? O que muda na sua vida se uma mulher na praia tirar a parte de cima do biquíni? Você, que idolatra artistas que exibem piercings e tatuagens, por que reage mal diante de familiares e amigos que usam idêntico estilo? O que muda na sua vida se o seu novo vizinho é imigrante, ou muçulmano, ou ateu, ou evangélico, ou católico, ou obeso, ou anão, ou deficiente físico/ mental, ou gosta de bichos? Em que isso lhe prejudica? A mim, absolutamente nada.

 

Os preconceitos nos sufocam e trazem sofrimento desnecessário a todos. Combatê-los é atitude democrática, cidadã e humanista. Como reagir diante de situações que consideramos injustas? O que você faria, por exemplo, se soubesse que empresas ou órgãos deixam de contratar profissionais competentes só porque são gays, ou tatuados, ou são homens que usam rabo de cavalo e brincos, ou ainda porque são mulheres, ou negros, ou passaram dos 40 anos, ou não têm religião, ou não possuem afinidade ideológica com o chefe? Denunciaria e pressionaria para que reavaliassem regras e conceitos ou, simplesmente, se calaria? Quem lucra com tais julgamentos discriminatórios? Ninguém.

 

A caminhada não é nada fácil, embora, e talvez exatamente por isso, fascinante. É um exercício de constante reflexão, de idas e vindas, de descobertas e “refazendas”, tentando acertar e consertar os erros a cada dia. Sempre argumento que mais grave do que pretender tornar-se uma pessoa virtuosa é considerar-se mais virtuoso hoje do que ontem, ou seja, melhor a cada ano que passa. Uma armadilha que captura até os mais bem intencionados. No exato instante em que me considero melhor que antes, enterro minhas pretensas virtudes no terreno movediço da prepotência e soberba, sentimentos que me afastam cada vez mais da perfeição. Doido demais, não é?

 

Então, como fugir dessa arapuca? Penso que não há muito a fazer. Arrisco sugerir que simplesmente viva e deixe os outros viverem. Em paz. Assim não vai precisar se preocupar em “melhorar”, entende? E, cá entre nós, para que mesmo ser perfeito?

 

Reconhecer minhas inúmeras falhas me traz até certo conforto, pois me recoloca na condição primeira, na minha essência humana. Preciso, contudo, admitir que me orgulho de algumas “vaidades” (quem nunca?) que, felizmente, não sumiram com o tempo: O espírito contestador, a necessidade de extravasar sentimentos ou de expressar-me sem meias palavras. Mantenho ainda de forma intacta a capacidade de me indignar, de provocar e de denunciar. E, principalmente, de amar. Esta última, espero conservar até o fim.

 

22 de julho de 2016

Crônica originalmente publicada no livro coletânea da autora “Viver, simplesmente” [Sete, 2016] 

Sobre Celma Prata

Celma Prata é jornalista profissional e escritora. Autora dos livros "Descascando a Grande Maçã" [Sete_2012] e "Viver, Simplesmente" [Sete, 2016]. Atualmente integra o Conselho Editorial do Jornal AgroValor. É membro efetivo da Academia Fortalezense de Letras, da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil e da Sociedade Amigas do Livro, onde lidera o conselho gestor para o biênio 2016-2018. Ver todos os artigos de Celma Prata

8 respostas para “Sessentíssima

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Jornalista que flerta com o mundo da moda desde criança, voltou ao mundo dos blogs para saciar a vontade de escrever sobre os temas que mais gosta de ler e pesquisar sobre. Cresceu assitindo ao programa "Fashion File" com Tim Blanks, assina uma coluna de moda semanal no jornal cearense O Povo há mais de três anos e neste espaço vai dividir um pouco de seus guilty pleasures.

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