Eu nasci há 17 anos

Fui adotada, aos dois meses de idade, por uma família que me acolheu com muito amor.
Fui recebida por uma menininha de 10 anos, que me pegou no colo e me deu o carinho que todo ser necessita.
De todos de casa, recebi afeto, cuidados, alimentos, remédios e ensinamentos.
Eu os vi indo embora por um tempo.
Eu os vi voltar para sempre.
Compartilhei todos os momentos, tristes ou alegres, da minha ‘família’.
Eu vi meu ‘irmão’ tornar-se homem feito, namorar, ganhar a vida e se casar.
Eu vi minha ‘irmã’ trocar os brinquedos pelas festinhas, se formar e se casar.
Eu vi meu ‘avô’ falecer.
Eu vi minha filhinha ir-se para sempre.
Eu vi meu ‘pai’ fazer 60 anos.
Vivi momentos marcantes do meu país e do mundo.
Eu vi um índio Pataxó ser queimado vivo por cinco jovens da classe média alta de Brasília.
Eu vi o Brasil e o ‘Fenômeno’ amarelarem na Copa de 1998, enquanto eu dava à luz.
Eu vi a virada do milênio e o Bug ser transformado em piada.
Eu vi a esquerda política brasileira eleger e reeleger, democraticamente, um Presidente da classe operária.
Eu vi o atentado às Torres Gêmeas.
Eu vi o Brasil, finalmente, ser pentacampeão mundial de futebol em 2002.
Eu vi ser eleito o primeiro Presidente negro dos EUA.
Eu vi a crise financeira dos EUA e da Europa respingar por todo o planeta.
Eu vi ser eleita a primeira mulher Presidente do Brasil.
Dei muito trabalho, chateações, preocupações, essas coisas comuns a todos os ‘filhos’, principalmente quando estava apertada e não dava tempo de chegar ao ‘banheiro’.
Mas eles sempre me fizeram sentir amada, respeitada e me fizeram acreditar que eu lhes dava muita, muita alegria.
Até das pessoas que não curtiam muito o meu jeito de ser, tive demonstrações de afeto.
Fiquei idosa, cansada, frágil e doente. Sentia-me como se tivesse 120 anos e os médicos garantiam que tinha mesmo.
Não chorem, não lamentem pelo que deixaram de fazer ou não puderam fazer, lembrem-se de mim com alegria, é a melhor forma de me homenagear.
Da sempre de vocês,
Buba
foto (15)

Sobre Celma Prata

Celma Prata é jornalista profissional e escritora. Autora dos livros "Descascando a Grande Maçã" [Sete_2012] e "Viver, Simplesmente" [Sete, 2016]. Atualmente integra o Conselho Editorial do Jornal AgroValor. É membro efetivo da Academia Fortalezense de Letras, da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil e da Sociedade Amigas do Livro, onde lidera o conselho gestor para o biênio 2016-2018. Ver todos os artigos de Celma Prata

22 respostas para “Eu nasci há 17 anos

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Jornalista que flerta com o mundo da moda desde criança, voltou ao mundo dos blogs para saciar a vontade de escrever sobre os temas que mais gosta de ler e pesquisar sobre. Cresceu assitindo ao programa "Fashion File" com Tim Blanks, assina uma coluna de moda semanal no jornal cearense O Povo há mais de três anos e neste espaço vai dividir um pouco de seus guilty pleasures.

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