Não cruze os braços… ainda!

Hoje cedo folheei um jornal local, como faço todas as manhãs. Leitura rápida, parando em alguns trechos que me interessavam mais. Algo chamou a minha atenção, que compartilho abaixo:

“Cada vez mais você quer um dia para chamar de seu”, insinuava uma construtora.

“As mulheres dirigem mal, agem sempre por impulso, nos ensinam que são o sexo frágil e a ver o mundo apenas pelo emocional. Se você ainda acredita nisso, precisa ler tudo de outra forma”, um colégio passava o dever de casa.

“Loja X faz almoço comemorativo, com sorteio de um kit e boas conversas”; “Loja Y promove a partir das 10h, brinde de champagne e sabores do Buffet X…”; “Loja Z recebe com flores e champagne…”; “Restô X recebe com sangria e brindes…”; “Loja XX oferece programação especial: massagem, maquiagem, palestra de sedução, além do lançamento da coleção outono-inverno”, saltavam as perlages no colunismo social.

“Metas no trabalho, prova na faculdade, crianças na escola, cuidar da casa, da família, da saúde e também do carro. Você já tem muito com o que se preocupar. Essa última parte, deixa com a gente”, solidarizava-se uma revendedora de pneus.

“Hoje é dia de mulher acompanhada entrar de graça no X”, disparava a despretensiosa casa de shows.

Você já entendeu. O dia 8 de março homenageia a dondoquice, a alienação, a ‘escravidão’ consentida, o oba-oba, a discriminação sexual, a vaidade chula e por aí vai.

Que tal se, paralelo às flores, presentes e inúmeros parabéns, aproveitássemos o Dia Internacional da Mulher também para fazermos uma reflexão? Para que não tenha sido em vão a luta iniciada pelas feministas no século dezoito por mais dignidade e sociedades mais justas e igualitárias, e para que não seja banalizada e esquecida a morte das 129 operárias nova-iorquinas que foram trancadas na fábrica e queimadas pelos patrões, com a conivência da polícia, porque reivindicavam condições de trabalho mais parecidas com as dos homens e jornada diária de dez (!) horas. O calendário marcava 8 de março de 1857. O que mudou de lá para cá?

Sei, já conquistamos muitas coisas, mas ainda falta muito! Não podemos fazer de conta que não é com a gente. Para abordar apenas duas questões, precisamos de salários compatíveis (as mulheres ganham, em média, cerca de 70% do salário pago aos homens no mesmo cargo) e maior rigor e respeito para com o cumprimento de leis como a ‘Maria da Penha’ (dez mulheres são assassinadas por dia no Brasil por seus companheiros).

Concordo que é maravilhoso receber flores e elogios, mas merecemos também outro tipo de atenção e respeito de lojas, colégios, construtoras, da sociedade e da mídia em geral, da qual faço parte. Vamos descruzar os braços?

Sobre Celma Prata

Celma Prata é jornalista profissional e escritora. Autora dos livros "Descascando a Grande Maçã" [Sete_2012] e "Viver, Simplesmente" [Sete, 2016]. Atualmente integra o Conselho Editorial do Jornal AgroValor. É membro efetivo da Academia Fortalezense de Letras, da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil e da Sociedade Amigas do Livro, onde lidera o conselho gestor para o biênio 2016-2018. Ver todos os artigos de Celma Prata

6 respostas para “Não cruze os braços… ainda!

  • gina

    Muito bem escrito e mto bem lembrado!! Descruzemos os braços!!

  • Márcia bitar

    Amiga suas observações além de muito bem escritas, demonstram uma sensibilidade especial no relato de alguns Fatos que Corajosas Mulheres participaram e que sabemos ter sido em épocas que a total submissão feminina era normal.
    Muito oportuno esta reportagem e infelizmente só li agora !não pude ler para minhas colaboradoras(na Fabrica a representatividade feminina chega a 95%) no lanche especial do dia 8/3 e que são verdadeiras mulheres de Atenas. Um grande bj amiga

    • Celma Prata

      Pois é, amiga, não me contive com tanto oba-oba de parte da grande mídia. Mas alguns veículos falaram sobre as verdadeiras conquistas femininas no século vinte, inclusive a transmissão, em cadeia nacional, do perfeito discurso da nossa Presidenta Dilma, que aproveitou para fazer propaganda do seu governo, mas tudo bem, faz parte. Não culpo ninguém, inclusive já fiz muita comemoração do tipo nesse dia. Mas depois que entendi o seu real significado, tento alertar as pessoas. Bjos saudosos e obrigada pelo elogio.

  • Venusia Andrade Ribeiro

    Bacana, Celma, o seu texto, muito bem escrito. É sempre muito bom ler seus textos,muito agradáveis e informativos.
    E viva nossa amiga escritora.!!!!
    Beijos ,Venusia

    • Celma Prata

      Querida Venúsia, obrigada! Fiquei muito feliz com sua mensagem, espero vê-la mais vezes por aqui! É um prazer ter leitoras como você: inteligentes, sensíveis e bem informadas. Grande beijo!

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Jornalista que flerta com o mundo da moda desde criança, voltou ao mundo dos blogs para saciar a vontade de escrever sobre os temas que mais gosta de ler e pesquisar sobre. Cresceu assitindo ao programa "Fashion File" com Tim Blanks, assina uma coluna de moda semanal no jornal cearense O Povo há mais de três anos e neste espaço vai dividir um pouco de seus guilty pleasures.

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