Miserável!

Depois do café da manhã, peguei meu carro e fui trabalhar, como todo dia. O trânsito estava o mesmo. Uma coisa, porém, me inquietou o dia inteiro: falta de cidadania. A minha.

No “Dia Mundial Sem Carro”, eu nem cogitei a possibilidade de deixar o meu em casa. Não consigo encontrar melhor meio de chegar aos meus compromissos. Bicicleta? Ônibus? A pé? As opções até que existem. O problema é que estamos no Brasil, país de transporte público superlotado, quente, lento, sem um mínimo de conforto. Ruas sem ciclovias, ou mesmo ciclofaixas, e sem segurança. Fazer o quê?

Calcula-se que 4,5 milhões de paulistanos utilizem o metrô e ônibus, enquanto seis milhões usem o carro por falta de alternativa. Como se orgulhar disso?

E o que aconteceria se, de repente, todos os proprietários de carro resolvessem usar o transporte público para chegar ao trabalho? Ou pedalar até a faculdade? Ou ir às compras a pé? Das três, todas: atrasos, atropelamentos e assaltos.

Essa mania de importar ações de países que já fizeram o dever de casa da cidadania é bem a nossa cara. Vamos fazer de conta que somos europeus, norte-americanos, japoneses e australianos, povos que já resolveram a questão da mobilidade urbana há muito tempo? Quem precisa de carro quando existe oferta suficiente de transporte público confortável, refrigerado no verão e aquecido no inverno, e que lhe deixa bem próximo do seu destino? Ou existe alguém, em sã consciência, que se recusaria a trocar todas as despesas com a manutenção do carro por uma, digamos, viagem anual de férias?

Sabe qual a diferença entre cidades como Nova York e Paris e a nossa São Paulo? Enquanto o prefeito Michael Bloomberg vai trabalhar de metrô e a vice-prefeita Anne Hidalgo prefere ir de bicicleta, Gilberto Kassab usa o helicóptero dentro da região metropolitana. Simples assim. Em tempo: Bloomberg é a 13ª fortuna dos EUA.

Imagine agora um Dia Mundial Sem Fome. Onde os cinco milhões de brasileiros que vivem abaixo da linha de extrema pobreza iriam conseguir comida? Pois é assim que eu me sinto hoje, 22 de setembro, Dia Mundial Sem Carro: miserável!

Sobre Celma Prata

Celma Prata é jornalista profissional e escritora. Autora dos livros "Descascando a Grande Maçã" [Sete_2012] e "Viver, Simplesmente" [Sete, 2016]. Atualmente integra o Conselho Editorial do Jornal AgroValor. É membro efetivo da Academia Fortalezense de Letras, da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil e da Sociedade Amigas do Livro, onde lidera o conselho gestor para o biênio 2016-2018. Ver todos os artigos de Celma Prata

2 respostas para “Miserável!

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Jornalista que flerta com o mundo da moda desde criança, voltou ao mundo dos blogs para saciar a vontade de escrever sobre os temas que mais gosta de ler e pesquisar sobre. Cresceu assitindo ao programa "Fashion File" com Tim Blanks, assina uma coluna de moda semanal no jornal cearense O Povo há mais de três anos e neste espaço vai dividir um pouco de seus guilty pleasures.

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