Extremos lusitanos

Não que sejamos do contra, mas sempre esteve em nossos planos fazer um roteiro “anti-horário”. Ao invés do manjado Lisboa-Porto via litoral ou Fátima, desta vez nosso primeiro destino seria o Alentejo.

De viatura alugada e mapa novinho na mão, uma hora depois já estávamos no extremo leste do país. Mais um bocadinho e invadiríamos a Espanha. Conduzir na Europa é assim. A cento e vinte por hora, se não ficar atento às placas, você já ultrapassou fronteiras. Acostumados às nossas distâncias continentais, isso aqui parece pista de autorama. Meu enjôo, cantado em verso e prosa, ficou para trás nos buracos e sinalização precária das estradas brasileiras. Parece que nasci para esta vida.

Na bem-preparada-com-bastante-antecedência agenda, uma visita a um lagar de azeite, em Vale de Seda, e pernoite numa aconchegante albergaria em Arcos, onde no passado funcionou uma casa agrícola, cujo cuidadoso projeto de restauração e ambientação – soube depois – foi assinado por um arquiteto brasileiro. No dia seguinte, antes de partirmos, vinícola Monte Seis Reis, na saída de Estremoz – a única aberta no feriado.

O que está escrito naquele cartaz? “A-gro…” Volta! Não precisa, tem outro ali adiante! Feira Internacional de Agro-Pecuária de Estremoz – FIAPE 2007. Agricultura, tudo bem, mas pecuária… Uma ligeira desconfiança de que o destino me pregou uma de suas peças. Paranóia, perseguição, sina, como queiram. O fato é que vim atraída por vinhos e azeites e me deparo com o cotidiano que deixei em stand-by no Brasil. Até aqui, minha Santa Inês? O.k. que companheira de criador não passa sem, pelo menos, uma feira ou leilão por mês. Eu gosto, mas custa diversificar de vez em quando? Tentei negociar. Primeiro feira, depois “uma night”. Topou na hora! Gata escaldada, desconfio da fria que entrei: nessas águas lusitanas não devem rolar nights. Trinta felizes agro-anos juntos, só com um santo por perto. E dos fortes!

Que beleza! Um mix de expo e agito! Um euro para entrar, mais outro por uma taça vazia, mas por pouco tempo. Degustação free! A bebida dos deuses está pegando ou cansou de segurar o copo? Mais duas moedas e você sai desfilando com uma bolsinha porta-taça, a tiracolo. Um charme!

Paqueramos os rebanhos europeus, nos deliciamos com iguarias como o Porco Preto e o espetacular Pata Negra, tudo regado a tintos das melhores vinícolas da região e arrematado com o famoso pão alentejano. Não fosse o apoio irrestrito do meu companheiro à minha compulsão por artes em geral, por considerá-la menos grave que as demais – roupas e sapatos, por exemplo-, não teria sido capaz de carregar sozinha toda aquela tralha: pratos de parede, portas-azeitonas, canecas em cerâmica com paisagens locais pintadas a mão, molduras antigas, etc.

Nove da noite e o insone sol de primavera insiste em saudar o espectáculo musical. Show e luzes formam uma parceria perfeita, mas fazer o que? Escurecer mesmo só lá pelas 22h. Famílias inteiras não esticam até tarde, pois europeu do interior que se preza não cai na farra até de manhã. Mas esta não é uma segunda-feira qualquer, é véspera de 1º de maio. O show da noite? “Grupo Canta Brasil”. Coincidências demais! Evento agropecuário, show de banda brasileira… Não fosse pelo friozinho, o excelente vinho tinto e o adorável sotaque português, juraria que estava num parque de exposições da minha terra brasilis. Mas vamos curtir, pois a night está apenas começando nesta que é uma das mais importantes feiras do “além Tejo”.

A região:

O Alentejo é uma região que compreende integralmente os Distritos de Portalegre, Évora e Beja, parte dos Distritos de Setúbal e Santarém, e 58 Concelhos (18,8% do total nacional).

A cidade:

Estremoz fica no Distrito de Évora e tem cerca de 10 mil habitantes.

Vinícola a visitar

Auto Estrada Lisboa – Évora A5 – Estremoz, direção Sousel, Casarões – Monte Seis Reis

Lagar de Azeite a visitar

Auto Estrada Lisboa – Évora A5 – Estremoz – Sousel – Fronteira, direção Alter do Chão, 2 km à saída de Fronteira virar à esquerda, Vale de Seda – Monte da Colónia

 

Onde ficar:

Albergaria Monte da Rosada

Largo da Rosada, 36

Arcos, 7100-011 – Estremoz

Tel 351 268 891 770

Fax 351 268 891 771

info@monte-rosada.pt

www.monte-rosada.pt

Diária quarto duplo 85 Euros (abril/2007) (11 quartos)

Bar e restaurante, barbecue, adega, piscina, capela

De Estremoz, direção Elvas pela N4

Feira a visitar:

FIAPE (Feira Internacional de Agro-Pecuária de Estremoz)

Estremoz – Portugal

http://www.fiape.com.pt

Período: Entre os meses de abril e maio.

Duração: Uma semana

Ramos Expositores: Artesanato, Pecuária, Produtos Regionais (vinhos, enchidos, azeites, queijos, doces, frutos secos), Instituições, Maquinaria Agrícola, Automóvel e Entretenimento (restaurantes, bares, shows).

Gastronomia

Pata Negra

  • É um presunto cru, feito a partir da pata traseira (pernil) do Porco Preto Alentejano, sal e os conservantes E 250 e E 252.
    • Depois do processo de salga, os pernis são colocados para secar e envelhecer.
  • Classificação (por bolotas):
    • 3 bolotas: 18 meses de cura
    • 4 bolotas: 24 meses de cura
    • 5 bolotas: 30 meses de cura
  • Como cortar:
    • Precisa de um suporte para presunto e três tipos de facas: uma comprida e flexível, outra curta e forte e, uma terceira, de lâmina larga.
    • Cortar em fatias muito finas. Apresenta aspecto marmoreado de vermelho e branco.
    • Preço (70 euros = quilo)

 

Porco Preto Alentejano (ibérico) é a última raça suína de pastoreio da Europa. São pequenos e com patas de cor escura. Trata-se de uma raça diferente e única que hoje só se encontra no sudoeste da Península Ibérica. É, sem dúvida, uma raça excepcional e privilegiada pela natureza. Sua alimentação consiste num regime de bolota (fruto do sobreiro, árvore da família do carvalho) que combina com a ingestão de ervas frescas e plantas aromáticas, complemento protéico que acrescenta um suave perfume aos presuntos e enchidos (embutidos).

Curiosidades:

É também da árvore sobreiro que se extrai a cortiça usada para a fabricação de rolhas para garrafas de vinho e champagne. Até pouco tempo atrás, só existia em Portugal, principalmente na província do Baixo Alentejo.

Sobre Celma Prata

Celma Prata é jornalista profissional e escritora. Autora dos livros "Descascando a Grande Maçã" [Sete_2012] e "Viver, Simplesmente" [Sete, 2016]. Atualmente integra o Conselho Editorial do Jornal AgroValor. É membro efetivo da Academia Fortalezense de Letras, da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil e da Sociedade Amigas do Livro, onde lidera o conselho gestor para o biênio 2016-2018. Ver todos os artigos de Celma Prata

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