“Romance de resistência”

Quando recebo uma análise textual, uma crítica ou resenha literária de uma obra de minha autoria, sinto-me no dever prazeroso de compartilhar com meus leitores.

A professora e poeta Hermínia Lima apresentou meu romance “O Segredo da Boneca Russa” no lançamento que fiz em maio último na Unifor, universidade onde me graduei jornalista, utilizando o termo “romance de resistência” que considerei muito apropriado, motivo pelo qual tomei emprestado para o título deste post.

Trago agora para vocês o texto na íntegra da citada Mestra em Literatura e Doutora em Linguística.

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Análise textual

O SEGREDO DA BONECA RUSSA – CELMA PRATA

Por: Hermínia Lima

Acompanhando o desvendar do mistério em torno de um roubo de um relógio, pelas páginas de “O Segredo da Boneca Russa”, viajamos em rota que se inicia na capital cearense, Fortaleza. Porém, o enredo nos revela “duas” Fortalezas: a Fortaleza contemporânea, mais precisamente, a Fortaleza do ano de 2014, que se presentifica na narrativa por meio de uma conversa, numa delegacia de polícia e, paralela a esta, uma Fortaleza mais antiga, das décadas de 60, 70 e 80. Essa “segunda” Fortaleza nos é revelada por uma narradora-protagonista, escritora biógrafa franco-brasileira, Joëlle, que tem acesso aos fatos por meio de conversas com um “tio”, com outros personagens e também por meio de pesquisas em acervos históricos. Da capital cearense, o roteiro de viagem nos leva a Pedra Verde, cidade no interior do Estado, em muitas idas e vindas, no presente e no passado.

 

A viagem se estende passando pelo Rio de Janeiro, até chegarmos à capital francesa, Paris, local onde a protagonista, Joëlle, viveu até a adolescência e para onde volta sempre e constantemente no tempo presente. Nesses quatro espaços, Fortaleza, Pedra Verde, Rio de Janeiro e Paris, desenvolve-se a trama que, em tempo real, tem duração de mais ou menos, um mês; mas, em tempo psicológico, se estende por décadas, pelos inúmeros retornos, por meio de flashback, a um passado que nos leva à época da ditadura Vargas, e nos traz de volta à contemporaneidade.

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

Além das cenas ambientadas em espaços geográficos do Brasil, a narradora nos faz passear pelas ruas de Paris, destacando lugares e detalhes interessantes e relevantes da vida social dos franceses. Nesse passeio, além de demonstrar grande intimidade com locais especiais da vida cultural da Cidade Luz, a mesma narradora faz pequenas análises de curiosidades próprias da capital francesa que são bem surpreendentes e que muito enriquecem a narrativa, como é o caso da “aula de arquitetura” que ela nos dá, ao tecer comentários sobre as chambres de bonne, habitações coletivas que foram adaptadas dos antigos palacetes das famílias ricas parisienses, a “empavonada e emergente burguesia – os nouveaux-riches”, do século XIX.

Neste cenário, percebe-se que o que move o fio narrativo é a trama de mistério, portanto, “O Segredo da Boneca Russa” pode ser classificado como um romance policial. Contudo, a trama ficcional da obra se amalgama de tal forma aos fatos reais, que podemos classificá-la também como romance histórico e político. Nos capítulos de “O Segredo da Boneca Russa”, deparamo-nos com uma verdadeira e longa aula de história do Brasil ministrada de modo envolvente e surpreendente, porque não literal, mas literário. Não apenas fazendo resgate e apresentação dos fatos; mas, acima de tudo, ofertando ao leitor uma visão crítica detalhada que preenche lacunas com informações valorosas e reveladoras de uma versão “não oficial” dos fatos histórico-político-sociais.

Ao analisar “O Segredo da Boneca Russa”, eu escreveria um longo capítulo somente sobre os personagens que povoam a obra. Difícil resumir aqui todos os tipos humanos representados nas páginas deste livro. Chamam-nos a atenção, em especial, os personagens anônimos que a narradora transforma em protagonistas da trama e, por meio deles, logo nas primeiras páginas, a obra ganha um ar de denúncia que nos faz lembrar os romancistas realistas do século XIX, ou os modernistas das gerações de 30 e 45. O melhor exemplo que podemos citar é o caso das negras empregadas domésticas que protagonizam o enredo do romance e, por meio de quem, é puxado o fio condutor da narrativa. Dinamizando a cena, em contrapartida, temos outros tipos humanos, como: o militar perverso e pervertido, a matriarca malvada, a jornalista investigativa, os religiosos hipócritas e muitos outros tipos. Esses indivíduos fazem parte e circulam em torno de uma família clivada entre duas alas politicamente definidas: uma ala progressista, mais afeita aos princípios socialistas e humanistas, versus uma ala conservadora, conduzida por orientação política nazifascista.

Uma das marcas temáticas que mais nos saltam aos olhos é o tom de crítica social que permeia toda a obra. Apenas para ilustrar, alguns temas que se destacam na trama, citamos aqui: crítica ao mar de lama que marcou a antiga política  da UDN, contra a corrupção policial, contra a divisão física e psicológica entre a “casa grande” e a “senzala”, contra os abusos doutrinadores do clero, contra atitudes ditatoriais dos militares. Também contra o voto de cabresto, contra atitudes racistas dos governos, contra o capitalismo americano, contra o comprometimento de parlamentares com interesses antinacionais, contra a decadência do ensino público, contra a união espúria entre lideranças da ditadura e lideranças religiosas, contra as atitudes venais da imprensa, chegando até às críticas mais atuais como às fake news nas redes sociais, além de tantas outras. Porém, cabe aqui destacar e dar ênfase a dois conteúdos críticos que se sobressaem na narrativa e chegam a nos causar asco: as injustiças e maus tratos com empregados domésticos somados aos abusos sexuais contra menores de idade. Essas são duas temáticas que estão ligadas ao cerne da trama de mistério.

Outro traço estilístico da narrativa de Celma Prata é a erudição do discurso, isso se confirma pelas citações de grandes nomes da literatura, da filosofia, da música e de outras artes que figuram e dialogam com a narradora e com o leitor nas páginas do romance. São inúmeras as ocorrências intertextuais, entre as quais destacamos os muitos fragmentos da obra Le Mur, de Sartre que são citados pela protagonista.

A mais de tudo que já foi mencionado, não poderíamos deixar de destacar um ingrediente imprescindível a um bom romance: um caso de amor. Isso também não falta na narrativa de Celma. Temos uma envolvente história de amor que nos enternece e nos põe em estado de curiosidade até às últimas páginas do livro. Não vou detalhar aqui, nem mesmo falar sobre ela para não tirar de vocês o prazer da leitura.

Quero deixar aqui os meus aplausos à autora pela ousadia e coragem de escrever uma narrativa de ficção que toca em temas tão polêmicos e necessários, principalmente no momento sócio-político em que estamos vivendo no País. Por isso, afirmo que, além de político-histórico e policial, esse é um romance de resistência. Uma obra que nos conta uma “história para ninar gente grande”, como disse o sambista no título do samba-enredo da Mangueira, neste carnaval de 2019. Permitam-me esta intertextualidade lítero-musical com o samba da Mangueira, “história para ninar gente grande”, porque quero, por meio dela, apontar que Celma Prata, tira a “poeira dos porões da História”, como nos diz a letra do samba, Celma Prata nos conta “a história que a história não conta” como brada o samba da Mangueira, Celma Prata nos revela “o avesso do mesmo lugar”, Celma Prata não escreve em versos, mas, como no diz o sambista da Escola, metaforicamente, Celma resgata o “verso que o livro apagou”. Celma Prata, com suas personagens negras, anônimas e domésticas, nos mostra “sangue retinto pisado atrás de heróis emoldurados”, Celma Prata traz à tona e imortaliza “o Brasil que não está no retrato”. E assim, ela se inscreve também na tradição do romance jornalístico contemporâneo, gravando seu nome na linhagem dos escritores que, mesclando história e literatura, usam a palavra como arma em defesa de heróis anônimos.

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Não me deixes

O que significa essa foto antiga no meu post de hoje?

Uma resposta óbvia poderia vir a partir de outra pergunta: Qual a rotina de uma jornalista-escritora que acabou de operar o tornozelo fraturado?

Escrever e ler muito, não é? Não que isso seja privilégio da minha profissão, aliás eu preferiria não estar passando por isso, mas já que…? Por que não aproveitar o repouso forçado da melhor maneira possível, fazendo duas das coisas que mais gosto?

Para completar a delícia que é ler e escrever, amo também xeretar álbuns de fotos antigas no próprio celular. E eis que me deparei hoje cedo com uma que me encheu de saudade e gratidão. Eu, na fazenda “Não me Deixes”, no sertão central cearense, abraçada a Maria Luiza de Queiroz, irmã de uma das maiores escritoras brasileiras, sim, ela mesma, a grande Rachel de Queiroz, falecida em 2003.

Era maio de 2012. Dias antes da minha primeira ida à “Não Me Deixes”, eu me encontrava a trabalho em Nova Iorque conferindo pessoalmente alguns dados inseridos no meu livro de estreia, um relato da minha experiência como moradora temporária da metrópole norte-americana no final dos anos 1990.

À época, o livro “Descascando a Grande Maçã” [Editora Sete], estava em fase de revisão para ser lançado em julho daquele ano e eu, para ganhar tempo, antecipei o envio do rascunho final para a pessoa que prefaciaria a obra.

Recebi, então, uma ligação do Brasil, mais precisamente do Rio de Janeiro, onde residia a minha querida e inesquecível primeira “madrinha” literária. Maria Luiza – chamada carinhosamente de “Izinha” pelos mais íntimos era também escritora – queria tecer pessoalmente alguns comentários sobre a minha narrativa, e marcamos encontro na lendária fazenda da sua família, tão logo eu retornasse ao Brasil. Ela deveria chegar do Rio dentro de alguns dias.

É claro que aceitei o delicado convite e foi um dia memorável. Degustamos caipirinhas feitas com o premiado e artesanal destilado cearense, “Cachaça de Rolha”, e saboreamos uma deliciosa comida de fazenda, tudo preparado com o carinho do super time da “Não me Deixes”, formado por Teresa, Rosita, Mazé, Lúcia e Aldemir, o Guidinha.

Em seguida, nos apossamos de redes branquinhas no alpendre e conversamos longamente sobre o meu livro. Com a sua larga experiência de revisora da irmã famosa, Izinha deu-me preciosas dicas e eu atendi prontamente as alterações sugeridas.

Antes de retornar a Fortaleza, conheci o refúgio literário de Rachel, anexo ao casarão, e pedi licença para sentar-me à mesa onde ela escreveu alguns de seus geniais romances e as deliciosas crônicas para vários jornais brasileiros durante as temporadas em que desfrutava do amado cenário nordestino. Sem internet, Izinha contou-me que levava às pressas os textos à cidade de Quixadá, de onde enviava, via telegrama ou fax, às redações.

Na despedida, entre abraços afetuosos registrados na sala do casarão, sob as bênçãos da imortal Rachel de Queiroz (foto), ganhei o nome de “enxerida”. Maria Luiza justificou a brincadeira admitindo que era assim que se dirigia na intimidade familiar à primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Senti-me acolhida de verdade e recebi como um enorme elogio à coragem dos escritores, especialmente das escritoras.

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

Voltei outra vez à “Não Me Deixes”, acompanhada da querida amiga Lourdinha Leite Barbosa, prima da Rachel e Izinha.

Sempre que eu ia ao Rio, a primeira coisa que eu fazia era visitar Izinha em seu apartamento no Leblon, palco de tantos saraus literários frequentados pelos maiores escritores do século 20. Conversávamos horas, observadas por obras de grandes pintores brasileiros, amigos pessoais das irmãs Queiroz.

Nesses momentos, Izinha insistia em me cobrar a criação de um romance. “Será que eu consigo?”. “Consegue, sim, largue tudo e vá para a ‘Não me Deixes’ escrever na mesa da Rachel. A inspiração virá naturalmente”.

Que generosa profecia da minha inesquecível amiga. Lancei há seis meses o meu primeiro romance, “O Segredo da Boneca Russa”. Não o escrevi na mesa da Rachel, mas me inspirei muito em sua vasta e rica trajetória.

Izinha despediu-se para sempre em 15 de dezembro de 2016, sem presenciar o resultado da sua profecia, mas chegamos a trocar ideias sobre a narrativa várias vezes.

Gratidão sem fim às pessoas e aos lugares que permitem nos apossar de seus afetos e imagens para formar nossas próprias memórias.

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Gata Cinderela

Uma noite ela sonhou que era famosa.

Acordou, correu até o espelho para checar as longas mechas californianas, o corpo sarado, o sorriso de porcelana, bocão preenchido e outros sinais influenciadores.

Chamou uma assessoria, passou o dia entre fotos, produções, postagens, uma fugida para o treino crossfit, muita água e alguns rasgos de alface.

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

Ao final do dia, eventos, mais fotos, selfies aos montes, um gole de espumante aqui, outro gim tônica ali, mais um vermute “que agora é moda na Europa mediterânea”, ouviu de alguém enquanto rolava mais uma selfie em grupo.

(Des) Equilibrada sobre salto doze, uma câimbra na panturrilha contorceu seu sorriso fabricado e empurrou-a para um assento num canto qualquer.

Não se passara nem um dia e ela já questionava a condição de celebridade. Estava ansiosa para voltar a dormir e se livrar daquele pesadelo.

Na manhã seguinte, por via das dúvidas, ignorou o espelho, pegou o busão e foi faxinar aliviada.


Inspiração pra que te quero

“Em que você se inspira para criar suas narrativas?”

Essa é a pergunta que mais tenho ouvido de leitores do meu romance “O Segredo da Boneca Russa”.

“Sinceramente, não sei”, respondo, diante do semblante desapontado do interlocutor.

Entendo que é natural querer saber de onde vem a inspiração dos escritores. Eu também tenho essa curiosidade. Mas tudo o que posso dizer é que as minhas “inspirações” não têm fórmula pronta. Um simples passeio de bike pode transformar tudo.

Lembro que, em 2014, eu estava em Paris iniciando a criação da personagem-narradora, Joëlle, e saía diariamente no final da tarde – de bike ou a pé – para dar uma relaxada.

Em uma dessas escapadas, cheguei ao Jardin du Luxembourg e não quis devolver a bike na estação velib que fica bem ao lado. Então, tive que caminhar empurrando a bicicleta, já que não é permitido pedalar dentro no parque.

Foi exatamente esse detalhe que me permitiu observar melhor uma das mais espetaculares esculturas do local. Eu já estava cansada e resolvi sentar em uma das cadeiras que circundam a Fonte Médici. Encostei a bike na grade da fonte e, nesse momento, aproximou-se um jovem casal. Eles ficaram abraçados em silêncio admirando a bela obra.

A visão dos dois apaixonados diante de Acis e Galatea inspirou-me a criar André, o namorado que Joëlle deixou em Paris quando partiu com a mãe para o Brasil. “Caminhamos de mãos dadas até a Fonte Médici, um lugar que eu considerava mágico. (pág. 92)

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

De outra vez, eu caminhava pela rue Fleurus quando reparei em um grupinho animado de turistas fotografando em frente a um prédio. Diminuí o passo para observá-los discretamente. Falavam em inglês e apontavam para uma placa na fachada. Quando eles se afastaram, pude ler que ali havia morado Gertrude Stein. Resolvi incluir o fato no trajeto diário da sonhadora Joëlle. (pág. 141)

Enfim, caminhando ou pedalando, a tal “inspiração” me chega da forma mais inesperada. Penso que tem mais a ver com intuição, sensibilidade, de enxergar a complexidade da vida em situações aparentemente banais. É isso.


O olhar mais doce que eu já vi

Em memória de Luiza Bitar, que nos deixou no último domingo

Mães são sagradas.

Avós são sagradas em dobro.

Minha sogra era assim, transbordava bondade, nobreza e generosidade, qualidades divinais.

Amor incondicional aos quatro filhos.

Carinho extremado aos dez netos.

E os nove bisnetinhos que lhe chegaram só recentemente ainda tiveram a dádiva de serem admirados pelos olhos mais doces que eu já vi. A longa enfermidade não tirou-lhes a doçura, apenas silenciou seus lábios, prova de que o amor verdadeiro não precisa de palavras.

Completava a beleza interior com o cuidado com a aparência. Trazia os lábios sempre preenchidos com a cor preferida de batom. Não podiam faltar também o aroma do jasmim e aquele creme antirrugas que trazíamos das viagens.

Feliz de quem desfrutava da sua casa e do seu colo. Ali encontrava carinho e uma fartura de quibes e charutinhos preparados por suas generosas e hábeis mãos. Nunca comíamos o suficiente. “Sirva-se mais um pouquinho, minha filha, você não comeu nada! Então, não gostou!”, eu já ficava esperando a sua afetuosa repreensão. Logo aprendi a deixar um espaço para poder repetir porções dos seus famosos quitutes libaneses e paraenses.

Realizei o seu sonho de ter nos braços o primeiro netinho, filho do seu primeiro filho. “Vovó só me faz contente!” foi uma das primeiras frases que ele lhe falou e que a senhora replicou durante anos, entre comovida e orgulhosa. Hoje é ele quem reconta a própria declaração infantil e acrescenta que o amor de seus avós foi o maior amor que ele já presenciou. Que sorte a dos meus filhos e sobrinhos!

A senhora teve os melhores filhos do mundo e isso tem pouco a ver com sorte. De forma natural e espontânea eles apenas praticam seus ensinamentos e exemplos, da senhora e do meu saudoso sogro, Seu Joel, multiplicando naturalmente o amor generoso que receberam.

Quando o seu grande e único amor partiu, a senhora quis acompanhá-lo, mas provou mais uma vez sua fortaleza e permaneceu 22 anos conosco. Agora vocês dois estão no mesmo plano novamente. Cumpriram lindamente sua missão, colocando o amor sempre acima de tudo. Que o exemplo dos dois permaneça nos inspirando a todos. Continuem nos olhando com doçura. Da nossa parte, prometemos continuar honrando o seu legado.


Carta para Lis

Três anos atrás eu escrevi sobre a incrível sensação de ser avó do seu lindo irmãozinho. Agora o papo é com você, minha pequena Lis, que ainda não fala mas já me dirige um olharzinho sensível que parece dizer: “Continue, vovó, entendendo tudo”.

Pois eu vou lhe contar da emoção que é ser avó de uma menina da minha eterna menina. E isso eu descobri da forma mais inesperada, como costumam ser as melhores experiências da vida, aquelas que ficam na memória.

Tínhamos acabado de lhe batizar e fui assistir ao filme musical Mamma Mia 2. Chorei na maioria das cenas, enquanto as pessoas ao meu redor dançavam ao som do ABBA. As animadas músicas do grupo sueco funcionaram apenas para driblar as lágrimas.

Para mim, o verdadeiro sentido da história era a emocionante jornada mãe-filha. Relembrei o dia em que peguei sua mãezinha em meus braços e todos os outros dias que se seguiram nesses trinta e três anos. Vi-me também na condição de filha e, ao sair do cinema, telefonei para minha mãe e lhe disse o quanto a amo.

Hoje a sua mamãe faz aniversário. O que eu desejo a minhas duas meninas? Que vocês nunca percam a capacidade de se emocionar com as pequeninas coisas, que resistam sempre às injustiças de qualquer tipo, que mantenham a mente aberta, que cuidem do significado da palavra liberdade para si e seu país, que não permitam que as artes sejam tratadas como armas letais e que as lágrimas – que certamente virão – sejam seguidas de sorrisos pelo simples fato de que a vida vale a pena.

E agora o mesmo conselho que dei ao seu irmãozinho: Amem-se, cuidem um do outro, briguem mas não demorem a fazer as pazes porque ambos precisarão um do outro ao longo da caminhada. E, mesmo se bastando, não queiram viver sem amigos, sejam eles humanos ou bichinhos. Esforcem-se, pelo menos. A amizade é algo nobre, que nos torna mais vivos e humanizados.

Parabéns para a sua linda e amada mamãe, que vocês vivam plenamente a jornada mãe-filha e que ela possa receber de você e do Theo tantas emoções genuínas quanto as que ela e o tio Digo me proporcionam todos os dias.

18 de janeiro de 2019


Tempo certo para tudo*  

“Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.”

(Eclesiastes 3)

 

Três reflexões sobre o tempo aparecem em três diferentes textos desta edição da Revista SAL. Trata-se de duas crônicas – de Eliana David e de Izabel Machado – e um meditativo ensaio literário de Regina Fiúza.

As três integrantes da Sociedade Amigas do Livro (SAL) abordam, sob diferentes perspectivas, a importância da temática que ocupa a mente de filósofos e pensadores de todas as eras, desde Agostinho de Hipona (354-430), conhecido mundialmente como Santo Agostinho, conforme declarou na obra autobiográfica Confissões: “Se ninguém me faz a pergunta ‘O que é o tempo?’, eu sei a resposta; mas, no momento em que tento explicar, deixo de sabê-la”.

A instigante reflexão filosófica agostiniana sobre a função do tempo pode ser aplicada a outros temas tão comuns quanto essenciais, como a arte em suas diversas expressões.

Qual o papel, por exemplo, da literatura em nossa vida? Há espaço para os livros em nosso atribulado cotidiano? De que forma os livros transformam a contemporaneidade? Como justificar o crescente desinteresse público pelos livros [segundo estudos], quando as obras literárias seguem proporcionando alegria, entretenimento e conhecimento a milhares, ajudando inclusive na superação de tristezas e perdas?

Faz-se necessário lembrar que há tempo certo para tudo, de acordo com a citação inicial desta peça editorial, um trecho do livro bíblico Eclesiastes.

Tempo de amar e doar. O amor à literatura é o principal motor da Sociedade Amigas do Livro, entidade fundada há 57 anos, em Fortaleza, com a missão de democratizar o acesso à leitura através da formação e doação de bibliotecas às mais distantes e carentes comunidades do nosso Estado.

Tempo de reconhecer. A sexta edição da Revista SAL – veículo que registra o trabalho sociocultural das nossas associadas – reitera a solidez do projeto literário idealizado por Beatriz Alcântara que enriquece a edição com duas tocantes poesias, ao lado das companheiras Giselda Medeiros, Lourdinha Leite Barbosa – que nos representa a todas na poesia Canto de amor à Suzana, declaração fraterna à querida Suzana Ribeiro, fundadora e decana da SAL –, Révia Herculano e Neide Azevedo, esta última vencedora do Prêmio Osmundo Pontes de Literatura 2017, na categoria.

Tempo de homenagear. O perfil biográfico da inesquecível poeta Rita de Cássia Araújo, falecida em 5 de junho do corrente ano, abre a edição 2018/2020 da Revista SAL, onde Celma Prata rende um tributo à querida companheira do livro.

Tempo de deleitar-se. Côca Torquato, artista plástica dotada de profunda sensibilidade e reconhecido talento, criou as belas e exclusivas ilustrações de capa e miolo desta edição. É também da sua autoria um dos encartes destacáveis, onde manifesta orgulhosamente suas raízes nordestinas; o segundo encarte é da igualmente talentosa Terry Araújo, ceramista que se apresenta aqui com nova expressão artística: o bordado literário.

Tempo de recordar e aplaudir. Edyr Rolim participa com a indicação de comovente poesia da saudosa Nadir Papi de Saboya. Outras queridas companheiras nos brindam com brilhantes textos acadêmicos e literários: Angela Gutiérrez, Dina Avesque e Nadja Moreira. Juntem-se o palpitante conto de Thereza Leite e as interessantes crônicas de Bernadete Bezerra, Cybele Pontes, Ester Weyne e Marilena Campos, além do expressivo ensaio de Vera Moraes sobre o romance Paisagem com dromedário, da escritora Carola Saavedra.

A advogada Carolina Torquato nos honra com um reflexivo artigo: Seremos uma antítese de nós mesmos?

Tempo de sonhar com os novos tempos que virão. Que venha uma infinidade de livros que nos permita sonhar com um mundo onde todos são livres e respeitados. Que o tempo de guerra e ódio dê lugar ao tempo de amor e paz. Feliz Natal e Próspero Ano Novo!

 

*Texto publicado originalmente no Editorial da Revista SAL, edição No 6, dezembro/2018.


Thiago Amazonas de Melo

Não acreditem em nada do que eu digo aqui. Isso não é um diário. Eu minto.

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por Ingrid Martins e Aline Farias