“Romance de resistência”

Quando recebo uma análise textual, uma crítica ou resenha literária de uma obra de minha autoria, sinto-me no dever prazeroso de compartilhar com meus leitores.

A professora e poeta Hermínia Lima apresentou meu romance “O Segredo da Boneca Russa” no lançamento que fiz em maio último na Unifor, universidade onde me graduei jornalista, utilizando o termo “romance de resistência” que considerei muito apropriado, motivo pelo qual tomei emprestado para o título deste post.

Trago agora para vocês o texto na íntegra da citada Mestra em Literatura e Doutora em Linguística.

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Análise textual

O SEGREDO DA BONECA RUSSA – CELMA PRATA

Por: Hermínia Lima

Acompanhando o desvendar do mistério em torno de um roubo de um relógio, pelas páginas de “O Segredo da Boneca Russa”, viajamos em rota que se inicia na capital cearense, Fortaleza. Porém, o enredo nos revela “duas” Fortalezas: a Fortaleza contemporânea, mais precisamente, a Fortaleza do ano de 2014, que se presentifica na narrativa por meio de uma conversa, numa delegacia de polícia e, paralela a esta, uma Fortaleza mais antiga, das décadas de 60, 70 e 80. Essa “segunda” Fortaleza nos é revelada por uma narradora-protagonista, escritora biógrafa franco-brasileira, Joëlle, que tem acesso aos fatos por meio de conversas com um “tio”, com outros personagens e também por meio de pesquisas em acervos históricos. Da capital cearense, o roteiro de viagem nos leva a Pedra Verde, cidade no interior do Estado, em muitas idas e vindas, no presente e no passado.

 

A viagem se estende passando pelo Rio de Janeiro, até chegarmos à capital francesa, Paris, local onde a protagonista, Joëlle, viveu até a adolescência e para onde volta sempre e constantemente no tempo presente. Nesses quatro espaços, Fortaleza, Pedra Verde, Rio de Janeiro e Paris, desenvolve-se a trama que, em tempo real, tem duração de mais ou menos, um mês; mas, em tempo psicológico, se estende por décadas, pelos inúmeros retornos, por meio de flashback, a um passado que nos leva à época da ditadura Vargas, e nos traz de volta à contemporaneidade.

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

Além das cenas ambientadas em espaços geográficos do Brasil, a narradora nos faz passear pelas ruas de Paris, destacando lugares e detalhes interessantes e relevantes da vida social dos franceses. Nesse passeio, além de demonstrar grande intimidade com locais especiais da vida cultural da Cidade Luz, a mesma narradora faz pequenas análises de curiosidades próprias da capital francesa que são bem surpreendentes e que muito enriquecem a narrativa, como é o caso da “aula de arquitetura” que ela nos dá, ao tecer comentários sobre as chambres de bonne, habitações coletivas que foram adaptadas dos antigos palacetes das famílias ricas parisienses, a “empavonada e emergente burguesia – os nouveaux-riches”, do século XIX.

Neste cenário, percebe-se que o que move o fio narrativo é a trama de mistério, portanto, “O Segredo da Boneca Russa” pode ser classificado como um romance policial. Contudo, a trama ficcional da obra se amalgama de tal forma aos fatos reais, que podemos classificá-la também como romance histórico e político. Nos capítulos de “O Segredo da Boneca Russa”, deparamo-nos com uma verdadeira e longa aula de história do Brasil ministrada de modo envolvente e surpreendente, porque não literal, mas literário. Não apenas fazendo resgate e apresentação dos fatos; mas, acima de tudo, ofertando ao leitor uma visão crítica detalhada que preenche lacunas com informações valorosas e reveladoras de uma versão “não oficial” dos fatos histórico-político-sociais.

Ao analisar “O Segredo da Boneca Russa”, eu escreveria um longo capítulo somente sobre os personagens que povoam a obra. Difícil resumir aqui todos os tipos humanos representados nas páginas deste livro. Chamam-nos a atenção, em especial, os personagens anônimos que a narradora transforma em protagonistas da trama e, por meio deles, logo nas primeiras páginas, a obra ganha um ar de denúncia que nos faz lembrar os romancistas realistas do século XIX, ou os modernistas das gerações de 30 e 45. O melhor exemplo que podemos citar é o caso das negras empregadas domésticas que protagonizam o enredo do romance e, por meio de quem, é puxado o fio condutor da narrativa. Dinamizando a cena, em contrapartida, temos outros tipos humanos, como: o militar perverso e pervertido, a matriarca malvada, a jornalista investigativa, os religiosos hipócritas e muitos outros tipos. Esses indivíduos fazem parte e circulam em torno de uma família clivada entre duas alas politicamente definidas: uma ala progressista, mais afeita aos princípios socialistas e humanistas, versus uma ala conservadora, conduzida por orientação política nazifascista.

Uma das marcas temáticas que mais nos saltam aos olhos é o tom de crítica social que permeia toda a obra. Apenas para ilustrar, alguns temas que se destacam na trama, citamos aqui: crítica ao mar de lama que marcou a antiga política  da UDN, contra a corrupção policial, contra a divisão física e psicológica entre a “casa grande” e a “senzala”, contra os abusos doutrinadores do clero, contra atitudes ditatoriais dos militares. Também contra o voto de cabresto, contra atitudes racistas dos governos, contra o capitalismo americano, contra o comprometimento de parlamentares com interesses antinacionais, contra a decadência do ensino público, contra a união espúria entre lideranças da ditadura e lideranças religiosas, contra as atitudes venais da imprensa, chegando até às críticas mais atuais como às fake news nas redes sociais, além de tantas outras. Porém, cabe aqui destacar e dar ênfase a dois conteúdos críticos que se sobressaem na narrativa e chegam a nos causar asco: as injustiças e maus tratos com empregados domésticos somados aos abusos sexuais contra menores de idade. Essas são duas temáticas que estão ligadas ao cerne da trama de mistério.

Outro traço estilístico da narrativa de Celma Prata é a erudição do discurso, isso se confirma pelas citações de grandes nomes da literatura, da filosofia, da música e de outras artes que figuram e dialogam com a narradora e com o leitor nas páginas do romance. São inúmeras as ocorrências intertextuais, entre as quais destacamos os muitos fragmentos da obra Le Mur, de Sartre que são citados pela protagonista.

A mais de tudo que já foi mencionado, não poderíamos deixar de destacar um ingrediente imprescindível a um bom romance: um caso de amor. Isso também não falta na narrativa de Celma. Temos uma envolvente história de amor que nos enternece e nos põe em estado de curiosidade até às últimas páginas do livro. Não vou detalhar aqui, nem mesmo falar sobre ela para não tirar de vocês o prazer da leitura.

Quero deixar aqui os meus aplausos à autora pela ousadia e coragem de escrever uma narrativa de ficção que toca em temas tão polêmicos e necessários, principalmente no momento sócio-político em que estamos vivendo no País. Por isso, afirmo que, além de político-histórico e policial, esse é um romance de resistência. Uma obra que nos conta uma “história para ninar gente grande”, como disse o sambista no título do samba-enredo da Mangueira, neste carnaval de 2019. Permitam-me esta intertextualidade lítero-musical com o samba da Mangueira, “história para ninar gente grande”, porque quero, por meio dela, apontar que Celma Prata, tira a “poeira dos porões da História”, como nos diz a letra do samba, Celma Prata nos conta “a história que a história não conta” como brada o samba da Mangueira, Celma Prata nos revela “o avesso do mesmo lugar”, Celma Prata não escreve em versos, mas, como no diz o sambista da Escola, metaforicamente, Celma resgata o “verso que o livro apagou”. Celma Prata, com suas personagens negras, anônimas e domésticas, nos mostra “sangue retinto pisado atrás de heróis emoldurados”, Celma Prata traz à tona e imortaliza “o Brasil que não está no retrato”. E assim, ela se inscreve também na tradição do romance jornalístico contemporâneo, gravando seu nome na linhagem dos escritores que, mesclando história e literatura, usam a palavra como arma em defesa de heróis anônimos.

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Não me deixes

O que significa essa foto antiga no meu post de hoje?

Uma resposta óbvia poderia vir a partir de outra pergunta: Qual a rotina de uma jornalista-escritora que acabou de operar o tornozelo fraturado?

Escrever e ler muito, não é? Não que isso seja privilégio da minha profissão, aliás eu preferiria não estar passando por isso, mas já que…? Por que não aproveitar o repouso forçado da melhor maneira possível, fazendo duas das coisas que mais gosto?

Para completar a delícia que é ler e escrever, amo também xeretar álbuns de fotos antigas no próprio celular. E eis que me deparei hoje cedo com uma que me encheu de saudade e gratidão. Eu, na fazenda “Não me Deixes”, no sertão central cearense, abraçada a Maria Luiza de Queiroz, irmã de uma das maiores escritoras brasileiras, sim, ela mesma, a grande Rachel de Queiroz, falecida em 2003.

Era maio de 2012. Dias antes da minha primeira ida à “Não Me Deixes”, eu me encontrava a trabalho em Nova Iorque conferindo pessoalmente alguns dados inseridos no meu livro de estreia, um relato da minha experiência como moradora temporária da metrópole norte-americana no final dos anos 1990.

À época, o livro “Descascando a Grande Maçã” [Editora Sete], estava em fase de revisão para ser lançado em julho daquele ano e eu, para ganhar tempo, antecipei o envio do rascunho final para a pessoa que prefaciaria a obra.

Recebi, então, uma ligação do Brasil, mais precisamente do Rio de Janeiro, onde residia a minha querida e inesquecível primeira “madrinha” literária. Maria Luiza – chamada carinhosamente de “Izinha” pelos mais íntimos era também escritora – queria tecer pessoalmente alguns comentários sobre a minha narrativa, e marcamos encontro na lendária fazenda da sua família, tão logo eu retornasse ao Brasil. Ela deveria chegar do Rio dentro de alguns dias.

É claro que aceitei o delicado convite e foi um dia memorável. Degustamos caipirinhas feitas com o premiado e artesanal destilado cearense, “Cachaça de Rolha”, e saboreamos uma deliciosa comida de fazenda, tudo preparado com o carinho do super time da “Não me Deixes”, formado por Teresa, Rosita, Mazé, Lúcia e Aldemir, o Guidinha.

Em seguida, nos apossamos de redes branquinhas no alpendre e conversamos longamente sobre o meu livro. Com a sua larga experiência de revisora da irmã famosa, Izinha deu-me preciosas dicas e eu atendi prontamente as alterações sugeridas.

Antes de retornar a Fortaleza, conheci o refúgio literário de Rachel, anexo ao casarão, e pedi licença para sentar-me à mesa onde ela escreveu alguns de seus geniais romances e as deliciosas crônicas para vários jornais brasileiros durante as temporadas em que desfrutava do amado cenário nordestino. Sem internet, Izinha contou-me que levava às pressas os textos à cidade de Quixadá, de onde enviava, via telegrama ou fax, às redações.

Na despedida, entre abraços afetuosos registrados na sala do casarão, sob as bênçãos da imortal Rachel de Queiroz (foto), ganhei o nome de “enxerida”. Maria Luiza justificou a brincadeira admitindo que era assim que se dirigia na intimidade familiar à primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras (ABL). Senti-me acolhida de verdade e recebi como um enorme elogio à coragem dos escritores, especialmente das escritoras.

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

Voltei outra vez à “Não Me Deixes”, acompanhada da querida amiga Lourdinha Leite Barbosa, prima da Rachel e Izinha.

Sempre que eu ia ao Rio, a primeira coisa que eu fazia era visitar Izinha em seu apartamento no Leblon, palco de tantos saraus literários frequentados pelos maiores escritores do século 20. Conversávamos horas, observadas por obras de grandes pintores brasileiros, amigos pessoais das irmãs Queiroz.

Nesses momentos, Izinha insistia em me cobrar a criação de um romance. “Será que eu consigo?”. “Consegue, sim, largue tudo e vá para a ‘Não me Deixes’ escrever na mesa da Rachel. A inspiração virá naturalmente”.

Que generosa profecia da minha inesquecível amiga. Lancei há seis meses o meu primeiro romance, “O Segredo da Boneca Russa”. Não o escrevi na mesa da Rachel, mas me inspirei muito em sua vasta e rica trajetória.

Izinha despediu-se para sempre em 15 de dezembro de 2016, sem presenciar o resultado da sua profecia, mas chegamos a trocar ideias sobre a narrativa várias vezes.

Gratidão sem fim às pessoas e aos lugares que permitem nos apossar de seus afetos e imagens para formar nossas próprias memórias.

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Gata Cinderela

Uma noite ela sonhou que era famosa.

Acordou, correu até o espelho para checar as longas mechas californianas, o corpo sarado, o sorriso de porcelana, bocão preenchido e outros sinais influenciadores.

Chamou uma assessoria, passou o dia entre fotos, produções, postagens, uma fugida para o treino crossfit, muita água e alguns rasgos de alface.

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

Ao final do dia, eventos, mais fotos, selfies aos montes, um gole de espumante aqui, outro gim tônica ali, mais um vermute “que agora é moda na Europa mediterânea”, ouviu de alguém enquanto rolava mais uma selfie em grupo.

(Des) Equilibrada sobre salto doze, uma câimbra na panturrilha contorceu seu sorriso fabricado e empurrou-a para um assento num canto qualquer.

Não se passara nem um dia e ela já questionava a condição de celebridade. Estava ansiosa para voltar a dormir e se livrar daquele pesadelo.

Na manhã seguinte, por via das dúvidas, ignorou o espelho, pegou o busão e foi faxinar aliviada.


Inspiração pra que te quero

“Em que você se inspira para criar suas narrativas?”

Essa é a pergunta que mais tenho ouvido de leitores do meu romance “O Segredo da Boneca Russa”.

“Sinceramente, não sei”, respondo, diante do semblante desapontado do interlocutor.

Entendo que é natural querer saber de onde vem a inspiração dos escritores. Eu também tenho essa curiosidade. Mas tudo o que posso dizer é que as minhas “inspirações” não têm fórmula pronta. Um simples passeio de bike pode transformar tudo.

Lembro que, em 2014, eu estava em Paris iniciando a criação da personagem-narradora, Joëlle, e saía diariamente no final da tarde – de bike ou a pé – para dar uma relaxada.

Em uma dessas escapadas, cheguei ao Jardin du Luxembourg e não quis devolver a bike na estação velib que fica bem ao lado. Então, tive que caminhar empurrando a bicicleta, já que não é permitido pedalar dentro no parque.

Foi exatamente esse detalhe que me permitiu observar melhor uma das mais espetaculares esculturas do local. Eu já estava cansada e resolvi sentar em uma das cadeiras que circundam a Fonte Médici. Encostei a bike na grade da fonte e, nesse momento, aproximou-se um jovem casal. Eles ficaram abraçados em silêncio admirando a bela obra.

A visão dos dois apaixonados diante de Acis e Galatea inspirou-me a criar André, o namorado que Joëlle deixou em Paris quando partiu com a mãe para o Brasil. “Caminhamos de mãos dadas até a Fonte Médici, um lugar que eu considerava mágico. (pág. 92)

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

De outra vez, eu caminhava pela rue Fleurus quando reparei em um grupinho animado de turistas fotografando em frente a um prédio. Diminuí o passo para observá-los discretamente. Falavam em inglês e apontavam para uma placa na fachada. Quando eles se afastaram, pude ler que ali havia morado Gertrude Stein. Resolvi incluir o fato no trajeto diário da sonhadora Joëlle. (pág. 141)

Enfim, caminhando ou pedalando, a tal “inspiração” me chega da forma mais inesperada. Penso que tem mais a ver com intuição, sensibilidade, de enxergar a complexidade da vida em situações aparentemente banais. É isso.


O olhar mais doce que eu já vi

Em memória de Luiza Bitar, que nos deixou no último domingo

Mães são sagradas.

Avós são sagradas em dobro.

Minha sogra era assim, transbordava bondade, nobreza e generosidade, qualidades divinais.

Amor incondicional aos quatro filhos.

Carinho extremado aos dez netos.

E os nove bisnetinhos que lhe chegaram só recentemente ainda tiveram a dádiva de serem admirados pelos olhos mais doces que eu já vi. A longa enfermidade não tirou-lhes a doçura, apenas silenciou seus lábios, prova de que o amor verdadeiro não precisa de palavras.

Completava a beleza interior com o cuidado com a aparência. Trazia os lábios sempre preenchidos com a cor preferida de batom. Não podiam faltar também o aroma do jasmim e aquele creme antirrugas que trazíamos das viagens.

Feliz de quem desfrutava da sua casa e do seu colo. Ali encontrava carinho e uma fartura de quibes e charutinhos preparados por suas generosas e hábeis mãos. Nunca comíamos o suficiente. “Sirva-se mais um pouquinho, minha filha, você não comeu nada! Então, não gostou!”, eu já ficava esperando a sua afetuosa repreensão. Logo aprendi a deixar um espaço para poder repetir porções dos seus famosos quitutes libaneses e paraenses.

Realizei o seu sonho de ter nos braços o primeiro netinho, filho do seu primeiro filho. “Vovó só me faz contente!” foi uma das primeiras frases que ele lhe falou e que a senhora replicou durante anos, entre comovida e orgulhosa. Hoje é ele quem reconta a própria declaração infantil e acrescenta que o amor de seus avós foi o maior amor que ele já presenciou. Que sorte a dos meus filhos e sobrinhos!

A senhora teve os melhores filhos do mundo e isso tem pouco a ver com sorte. De forma natural e espontânea eles apenas praticam seus ensinamentos e exemplos, da senhora e do meu saudoso sogro, Seu Joel, multiplicando naturalmente o amor generoso que receberam.

Quando o seu grande e único amor partiu, a senhora quis acompanhá-lo, mas provou mais uma vez sua fortaleza e permaneceu 22 anos conosco. Agora vocês dois estão no mesmo plano novamente. Cumpriram lindamente sua missão, colocando o amor sempre acima de tudo. Que o exemplo dos dois permaneça nos inspirando a todos. Continuem nos olhando com doçura. Da nossa parte, prometemos continuar honrando o seu legado.


Carta para Lis

Três anos atrás eu escrevi sobre a incrível sensação de ser avó do seu lindo irmãozinho. Agora o papo é com você, minha pequena Lis, que ainda não fala mas já me dirige um olharzinho sensível que parece dizer: “Continue, vovó, entendendo tudo”.

Pois eu vou lhe contar da emoção que é ser avó de uma menina da minha eterna menina. E isso eu descobri da forma mais inesperada, como costumam ser as melhores experiências da vida, aquelas que ficam na memória.

Tínhamos acabado de lhe batizar e fui assistir ao filme musical Mamma Mia 2. Chorei na maioria das cenas, enquanto as pessoas ao meu redor dançavam ao som do ABBA. As animadas músicas do grupo sueco funcionaram apenas para driblar as lágrimas.

Para mim, o verdadeiro sentido da história era a emocionante jornada mãe-filha. Relembrei o dia em que peguei sua mãezinha em meus braços e todos os outros dias que se seguiram nesses trinta e três anos. Vi-me também na condição de filha e, ao sair do cinema, telefonei para minha mãe e lhe disse o quanto a amo.

Hoje a sua mamãe faz aniversário. O que eu desejo a minhas duas meninas? Que vocês nunca percam a capacidade de se emocionar com as pequeninas coisas, que resistam sempre às injustiças de qualquer tipo, que mantenham a mente aberta, que cuidem do significado da palavra liberdade para si e seu país, que não permitam que as artes sejam tratadas como armas letais e que as lágrimas – que certamente virão – sejam seguidas de sorrisos pelo simples fato de que a vida vale a pena.

E agora o mesmo conselho que dei ao seu irmãozinho: Amem-se, cuidem um do outro, briguem mas não demorem a fazer as pazes porque ambos precisarão um do outro ao longo da caminhada. E, mesmo se bastando, não queiram viver sem amigos, sejam eles humanos ou bichinhos. Esforcem-se, pelo menos. A amizade é algo nobre, que nos torna mais vivos e humanizados.

Parabéns para a sua linda e amada mamãe, que vocês vivam plenamente a jornada mãe-filha e que ela possa receber de você e do Theo tantas emoções genuínas quanto as que ela e o tio Digo me proporcionam todos os dias.

18 de janeiro de 2019


Tempo certo para tudo*  

“Tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.”

(Eclesiastes 3)

 

Três reflexões sobre o tempo aparecem em três diferentes textos desta edição da Revista SAL. Trata-se de duas crônicas – de Eliana David e de Izabel Machado – e um meditativo ensaio literário de Regina Fiúza.

As três integrantes da Sociedade Amigas do Livro (SAL) abordam, sob diferentes perspectivas, a importância da temática que ocupa a mente de filósofos e pensadores de todas as eras, desde Agostinho de Hipona (354-430), conhecido mundialmente como Santo Agostinho, conforme declarou na obra autobiográfica Confissões: “Se ninguém me faz a pergunta ‘O que é o tempo?’, eu sei a resposta; mas, no momento em que tento explicar, deixo de sabê-la”.

A instigante reflexão filosófica agostiniana sobre a função do tempo pode ser aplicada a outros temas tão comuns quanto essenciais, como a arte em suas diversas expressões.

Qual o papel, por exemplo, da literatura em nossa vida? Há espaço para os livros em nosso atribulado cotidiano? De que forma os livros transformam a contemporaneidade? Como justificar o crescente desinteresse público pelos livros [segundo estudos], quando as obras literárias seguem proporcionando alegria, entretenimento e conhecimento a milhares, ajudando inclusive na superação de tristezas e perdas?

Faz-se necessário lembrar que há tempo certo para tudo, de acordo com a citação inicial desta peça editorial, um trecho do livro bíblico Eclesiastes.

Tempo de amar e doar. O amor à literatura é o principal motor da Sociedade Amigas do Livro, entidade fundada há 57 anos, em Fortaleza, com a missão de democratizar o acesso à leitura através da formação e doação de bibliotecas às mais distantes e carentes comunidades do nosso Estado.

Tempo de reconhecer. A sexta edição da Revista SAL – veículo que registra o trabalho sociocultural das nossas associadas – reitera a solidez do projeto literário idealizado por Beatriz Alcântara que enriquece a edição com duas tocantes poesias, ao lado das companheiras Giselda Medeiros, Lourdinha Leite Barbosa – que nos representa a todas na poesia Canto de amor à Suzana, declaração fraterna à querida Suzana Ribeiro, fundadora e decana da SAL –, Révia Herculano e Neide Azevedo, esta última vencedora do Prêmio Osmundo Pontes de Literatura 2017, na categoria.

Tempo de homenagear. O perfil biográfico da inesquecível poeta Rita de Cássia Araújo, falecida em 5 de junho do corrente ano, abre a edição 2018/2020 da Revista SAL, onde Celma Prata rende um tributo à querida companheira do livro.

Tempo de deleitar-se. Côca Torquato, artista plástica dotada de profunda sensibilidade e reconhecido talento, criou as belas e exclusivas ilustrações de capa e miolo desta edição. É também da sua autoria um dos encartes destacáveis, onde manifesta orgulhosamente suas raízes nordestinas; o segundo encarte é da igualmente talentosa Terry Araújo, ceramista que se apresenta aqui com nova expressão artística: o bordado literário.

Tempo de recordar e aplaudir. Edyr Rolim participa com a indicação de comovente poesia da saudosa Nadir Papi de Saboya. Outras queridas companheiras nos brindam com brilhantes textos acadêmicos e literários: Angela Gutiérrez, Dina Avesque e Nadja Moreira. Juntem-se o palpitante conto de Thereza Leite e as interessantes crônicas de Bernadete Bezerra, Cybele Pontes, Ester Weyne e Marilena Campos, além do expressivo ensaio de Vera Moraes sobre o romance Paisagem com dromedário, da escritora Carola Saavedra.

A advogada Carolina Torquato nos honra com um reflexivo artigo: Seremos uma antítese de nós mesmos?

Tempo de sonhar com os novos tempos que virão. Que venha uma infinidade de livros que nos permita sonhar com um mundo onde todos são livres e respeitados. Que o tempo de guerra e ódio dê lugar ao tempo de amor e paz. Feliz Natal e Próspero Ano Novo!

 

*Texto publicado originalmente no Editorial da Revista SAL, edição No 6, dezembro/2018.


Etna aos 40


Pisar no solo do vulcão ativo mais alto da Europa foi a parte mais incrível da aventura de comemorar quarenta anos de casados

 
“Vamos conhecer a Sicília?”. Meu marido vinha há tempos propondo uma visita à ilha italiana, a maior do Mar Mediterrâneo.

Nos últimos 25 anos, fomos algumas vezes à Itália, sempre para curtíssimas temporadas, o que nos obrigava a eleger apenas uma região por vez. Assim, estivemos no Lácio, Vêneto, Toscana, Ligúria e Piemonte. A Sicília sempre ficava para a viagem seguinte.

Em todas elas, bebidas e comidas lideraram nossa curiosidade, por considerarmos ser essa a forma mais prazerosa de conhecer a cultura e hábitos locais. Ele, mais interessado nos ingredientes e modo de preparo dos pratos principais e harmonizações; eu, focada nos doces, sorvetes e sobremesas. Em nossos roteiros, portanto, nunca faltam passeios por mercados e feiras-livres e muita conversa com produtores. Adianto logo que não somos especialistas, longe disso, mas apreciamos vinhos e novos sabores.

PORTUGAL: Livraria Lello e Editora Sete convidam para a Sessão de Autógrafos do romance “O Segredo da Boneca Russa”, de Celma Prata, na cidade do Porto.

Dizem que aromas e sabores recuperam memórias que se supunham esquecidas. E deve ser mesmo verdade. Em todas as nossas viagens, há sempre uma comida ou bebida que nos marcou.

Da nossa estreia em terras italianas, em 1992, pelo Lácio, lembramos o personalíssimo Spaghetti alla carbonara, entre copos de vinho branco Frascati, feito com uvas Malvasia.

Da viagem seguinte, para a região do Vêneto, guardamos os sabores divinos do Tiramissu, do risoto com pancetta e ervilha, e do fígado acebolado, com taças transbordantes de Valpolicella, uva Corvina.

Permanecem em nossa lembrança o gosto dos azeites da Toscana, onde estivemos em 2004, além dos queijos de ovelha e da tradicional Bisteca fiorentina – um exclusivo corte da costela de boi da raça Chianina que agrega três carnes: filé, contrafilé e alcatra –, arrematados com vinhos Brunello e Chianti, ambos de uvas Sangiovese.

Sempre que sinto cheiro de manjericão, me vem à mente o prato que comemos, em 2013, na Ligúria, região produtora da erva. O pouco tempo passado em Savona – parte do nosso roteiro marítimo pelo Mediterrâneo – foi suficiente para comprovarmos o motivo da região ser conhecida como “terra do pesto”. Todos os cardápios trazem Trofie al Pesto, uma massa de formato pequeno, fininho e torcido, servida ao molho que tem por base o manjericão. Nas taças, um bom vinho Cinque Terre, elaborado a partir de castas como a Vermentino.

E foi também entre produtores locais e expositores da Feira Internacional da Trufa Branca de Alba, no Piemonte, que nos deliciamos, há um ano, com raspas da caríssima trufa branca – de aroma inigualável – sobre singelos ovos fritos ou talharim fresco, saboreados com vinhos Barolo e Barbaresco, da uva Nebiollo. Em Alba, viramos “caçadores” de trufas, guiados por um Trifulau, especialista que conduz cães farejadores pelos campos úmidos em busca do valioso fungo.

Finalmente, neste novembro, o nosso sonho Siciliano materializou-se em fartura de ricotas, arancini, frutos do mar, berinjelas fritas, além de doces maravilhosos, como o cannoli, a cassata e a granita com brioche até no café da manhã.

Graças à diversidade do solo vulcânico da ilha, muita pesquisa e tecnologia de ponta a serviço de produtores conscientes, os vinhos da Sicília têm conquistado mercado e muitos apreciadores. Degustamos taças e mais taças do Etna Bianco, composto pelas uvas Carricante e Catarratto, e do tinto Nero D´Avola, da casta Nerello Mascalese. O vinho fortificado Marsala estava presente ao final das refeições.

Testemunha soberana de toda essa orgia enogastronômica, o Etna nos fisgou desde a primeira espiada através da janelinha do avião, quando sobrevoávamos suas impressionantes crateras para o pouso no aeroporto de Catânia, de onde partimos imediatamente de carro para conhecer a esplêndida costa leste siciliana. Programamos o gigante de 3.330 metros de altitude para o último dia de nossa viagem.

De volta à Catânia, após cinco dias de andanças e curtições, estávamos prontos para a façanha que coroaria a comemoração dos nossos quarenta anos juntos.

Foi quando os planos começaram a ruir. Se fôssemos supersticiosos, teríamos desistido. A agência cancelou, de última hora, a visita guiada, com a justificativa de que o guia sofrera, lamentavelmente, um acidente e não havia tempo para substituí-lo. O clima não estava favorável, a previsão era de chuva e muitas nuvens. Para completar, era o dia da Festa dei Morti.

Persistentes, soubemos pela gentil recepcionista do nosso hotel que havia um transporte diário para o Etna, saindo às 11h30 da Piazza Duomo – a dois passos dali – e retornando às 18h. Teriam ainda lugares disponíveis? Corremos para lá e nos deparamos com uma jardineira. “Será uma boa ideia?”, meu companheiro perguntou. Compramos os últimos dois lugares por setenta euros. A aventura estava apenas começando.

O trajeto sinuoso e íngreme de uma hora e meia até a primeira etapa – as chamadas Crateras Silvestri, a 1.900 metros de altitude – antecipava as intensas emoções que nos aguardavam. Mas nada é comparável a caminhar naquela imensidão silenciosa de crateras que mais parecem “uma paisagem lunar”, como bem definiu Patrícia Kalil, do blog Descobrindo a Sicília.

Valeu cada minuto de frio – com temperaturas próximas a zero grau –, os ventos fortes e os solados pretos – antes brancos – dos tênis. Brindamos no Refúgio Sapienza – o pequeno complexo turístico com restaurante e lojinhas – com taças de vinho rosso do Etna. No retorno, sol se pondo, “ônibus” com cortinas de plástico abaixadas para nos proteger do vento gelado, tivemos a certeza de que tínhamos vivido um dos dias mais incríveis da nossa duradoura união.


OS PAIS NÃO DEVERIAM MORRER (*)

Meu pai viveu oitenta agostos.

 
Ele partiu às vésperas do seu aniversário e do Dia dos Pais. O vozerio alegre de familiares queridos deu lugar ao doído luto. Percebi, com tristeza, que a expressão “matar a saudade” virou desejo irrealizável.

 

Pego-me refletindo sobre a linha cheia de arrodeios que é a vida. Entre o início e o fim, uma infinidade de pontos vão traçando nossa caminhada. Nem sempre podemos mudar o rumo, retornar à largada, desviar de perigos ou pegar atalhos seguros.

 

Pudera eu, em um desses pontos, rever, por um segundo que fosse, o seu jeito simples, gentil e agregador e, de quebra, ouvir o seu gargalhar solitário.

 

– Está rindo do quê, pai?

 

Eu já conhecia a resposta, mas perguntava assim mesmo, para que ele pudesse reviver episódios divertidos da infância sertaneja.

 

No seu mês de agosto, em tripla homenagem, vou deixar a alegria embalar as lembranças de momentos inesquecíveis compartilhados.

 

A saudade será eterna, assim como o meu amor por ele.

 

*Publicado originalmente no jornal O Povo (agosto/2017), caderno especial “Pai, Beleza & Poesia”, editado pela jornalista Lêda Maria Feitosa Souto


A pequena mais que notável (*)

Diante de uma linda gravura afixada no quadro negro da sala de aula, que mostrava a imagem de uma casinha branca com janelas azuis, a criança de sete anos escreveu algo inesperado. Ao invés de descrever a ilustração, como lhe pedira a freira, seus olhinhos infantis atravessaram as paredes da casinha e se compadeceram com o sofrimento de uma menininha porque no dia seguinte iria ao dentista.

O episódio pode ter sido uma epifania para a futura poetisa cearense Rita de Cássia Araújo, nascida em 15 de janeiro de 1941, primeira dos oito filhos de Neomísia Oliveira Fernandes e Milton Amaral Fernandes, que enfeitou com lacinhos e rendinhas o cotidiano dos avós maternos, até então repleto de netos homens. Pelo lado paterno, foi a responsável pela estreia dos avós no sentimento imortalizado em tocante texto de Rachel de Queiroz (“Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu (…)”, em A arte de ser avó), transformando a vida de toda a família Fernandes.

A criança sensível, que começou a ler aos cinco anos e já demonstrava, aos sete, vocação para as letras, sofreu muito cedo a primeira grande perda: a morte da querida avó paterna. A felicidade da menininha tão amada e aguardada foi novamente sabotada pelo surgimento de grave enfermidade do pai. As duas fatalidades a marcariam indefinidamente.

Da infância em cidade do interior à mudança definitiva para Fortaleza, intercalada por temporadas de férias escolares em São Paulo, foram muitos os percalços até alcançar os dias atuais. Da mística Canindé, no semiárido cearense, onde o flagelo da seca não consegue destruir a fé do povo, Rita de Cássia conserva valores e ensinamentos humanísticos: a espiritualidade e humildade franciscanas. E da maior metrópole brasileira, a poetisa eternizou gratidão em versos de 2004 que homenageiam o pai e sua cidade de adoção, que completava 450 anos:

“(…) Pai humilde e guerreiro,
guardei nossas palavras e sonhos,
hoje mesmo distante sinto o perfume
das flores e dos frutos maduros.
Vontade de estar contigo!
A ti cidade querida, parabéns.
És meu aconchego, meu lado familiar.
Pai e mãe no campo Santo de Congonhas.
Seja bendita, benditos sejam teus filhos
verdadeiros ou de adoção.
Viva! Viva! Viva!” (“A São Paulo e a meu pai, com amor”)

O casamento precoce, aos dezessete anos, com o futuro arquiteto Nearco Araújo, e a chegada dos dois filhos resgataram a alegria de viver e renovaram suas esperanças no mundo. Como na maioria das trajetórias dos casais, a etapa seguinte foi marcada pelo crescimento profissional de ambos e os cuidados com a educação de Helena, economista, e de Nearco Filho, engenheiro, que lhe deram três netos de comprovada sensibilidade artística: Beatriz (Bia), que faz doutorado em Moda e Design, em Londres; Pedro, jornalista, que realiza mestrado em São Paulo; e Joana, professora de dança e nutricionista, que cursa pós-graduação em Fortaleza. A relação com os filhos e netos é baseada na troca natural de afetos e respeito mútuo. São tantas as afinidades que a avó Rita condiciona a realização afetiva e profissional dos netos à coroação da própria existência.

Rita de Cássia sempre esteve ligada à cultura, desde o primeiro emprego, como guia de museu, que lhe aguçou sentidos e aptidões enquanto a preparava para assumir maiores responsabilidades como funcionária da Universidade Federal do Ceará, na área da Tecnologia da Informação, onde atuou com brilhantismo até se aposentar, em 1992. Sua caminhada literária é alimentada igualmente pela fiel devoção a anjos divinos. Todos em casa tinham um santo de proteção, o seu era o Anjo da Guarda, tema central de uma obra apresentada pelo imortal Artur Eduardo Benevides, o aclamado “Príncipe dos Poetas Cearenses”.

A inspiração chega sorrateira, sem aviso prévio ou necessidade de estímulos externos, surpreendendo a criança atrás do guarda-roupa, sentada em um banquinho, para escapar da implicância das irmãs com sua mania de escrever. Ou apanhando de surpresa a jovem mãe no anonimato do estacionamento da escola dos filhos, registrando emoções no papel, enquanto aguardava o término da aula. Ela assegura que a poesia é vital à sua sobrevivência em todas as circunstâncias e fases.

Reconhece, com certo pesar, que publicou tardiamente o primeiro livro (Cores, em 1984), que considera a maior conquista profissional. A partir daí, felizmente, não parou mais: Essência (1987); Sementes (1990); Unguentos (1994); Cartas e Poemas ao Anjo da Guarda (1997); Mulher e Terra (2000); Manga Madura (2004); Por Detrás das Gavetas (2008); Cajueiro Florido (2012); e, o mais recente, Palavras (2016), em comemoração aos seus 75 anos de vida e aos oitenta do marido.

Elege a formatura dos herdeiros como o principal marco na sua maturidade, satisfação comparável apenas à concretização da tão sonhada viagem à China, em companhia do marido. A explicação para tamanha admiração pelo país asiático encontra-se na capacidade imaginativa da criança que um dia se tornaria respeitada poetisa. Desde a mais tenra idade, quando ouvia alguém proferir a velha expressão “Vá pra China!” a uma pessoa de comportamento indesejável, a menina educada no rigor cristão associava o tal lugar ao inferno, destino das almas penadas. Foi graças aos esclarecimentos de uma amiga da família, Alba Veloso, professora de Geografia, que a pequena Rita pôde desconstruir a imagem diabólica e passar a cultuar o país de tradição milenar. A aposentadoria lhe trouxe, finalmente, as condições financeiras necessárias para realizar o sonho antigo.

Na posição de grande admiradora da filosofia oriental chinesa, Rita de Cássia experimentou momentos de profundo enlevo, como na visita ao mausoléu do imperador Qin Shihuang (260-210 a.C.) – monumento equiparável em importância às Pirâmides de Gizé (Egito) e ao Taj Mahal (Índia) –, na cidade de Xi’an, a 1.200 quilômetros de Pequim. Acreditava-se à época que, ao deixar a vida terrena, podia-se levar para o plano posterior tudo o que se julgasse de enorme valia. Para o monarca, a preciosidade maior era seu exército. Ele mandou construir, portanto, uma tumba gigantesca com milhares de soldados moldados em terracota, em tamanho real, cada um com uma fisionomia única e vestidos de maneira distinta. O tesouro foi descoberto, casualmente, em março de 1974, cerca de 2.200 anos depois de construído, e ficou conhecido popularmente como Guerreiros de Xi’an.

Em vez das figuras demoníacas do imaginário infantil, a mulher madura vivenciou na China as mais sublimes sensações. Emocionou-se às lágrimas ao pisar a Praça da Paz Celestial, no centro político de Pequim, palco do massacre do governo para conter a maior manifestação popular contra o Partido Comunista Chinês (PCC), entre abril e junho de 1989, liderada por jovens universitários que reivindicavam liberdade de imprensa e de expressão, e protestavam contra a repressão aos direitos individuais e das precárias condições sociais.

A criadora de belos poemas contemporâneos, que nutre profunda admiração pela obra de Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira, autores de diferentes escolas e procedências, guarda com carinho e orgulho a carta manuscrita do amigo Drummond, confirmando-a poetisa. Como ainda duvidar do seu talento? A modéstia, contudo, a impediu por muito tempo de revelar o “veredito” do poeta mineiro, com quem manteve regular correspondência que ela finalizava sempre com “Um caloroso abraço”. Leitora contumaz, planeja para breve devorar a vasta produção do saudoso poeta mato-grossense Manuel de Barros, cuja simplicidade era comparada às virtudes atribuídas a São Francisco, santo de referência de Rita de Cássia.

Como ativista cultural, ela participa de várias entidades literárias, a exemplo da Sociedade Amigas do Livro (SAL), da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB), da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Fortalezense de Letras (AFL) e da Rede de Escritoras Brasileiras (REBRA).

A poetisa retribui a generosidade da vida com cidadania e altruísmo. Nas típicas manhãs nordestinas, com brisas que tentam, em vão, abrandar o calor que transpassa as grossas paredes históricas do Palácio da Luz, no centro de Fortaleza, ela pisa respeitosamente a ampla passarela de parquet e, observada por olhos imortais, dirige-se à sala da biblioteca onde, entre pilhas de livros e revistas, é auxiliada por um pequeno e motivado grupo.

É nesse solene ambiente cultural que Rita de Cássia cumpre a bela tarefa voluntária de formação de bibliotecas para comunidades sem acesso aos livros, principal missão da Sociedade Amigas do Livro, uma das quatorze entidades literárias cearenses abrigadas no palacete edificado por volta de 1781, atual sede da Academia Cearense de Letras, a mais antiga instituição do gênero no país, fundada em 15 de agosto de 1894. No currículo da equipe liderada por Rita, já constam 65 bibliotecas instaladas na capital e municípios do interior do estado.

Quando não está transformando pensamentos e devoções em poesias ou organizando e restaurando livros doados, Rita de Cássia se diverte crochetando lindas peças, arte que aprendeu na infância com a vovó Bela (Isabel Amaral Fernandes), mãe de seu pai, sucedida pela irmã Honorina na formação moral e educacional da neta. A tia Teté, como os filhos da poetisa a chamavam, morou com a família da sobrinha-neta até falecer e foi sua maior referência afetiva. É esse amor ao próximo que ela procura praticar, inspirada em seres de espírito elevado, voltando-se principalmente àquelas pessoas que carecem de pequenos gestos amigos, como um simples e fraterno abraço. No outro extremo da condição humana, a poetisa lamenta a disseminação das guerras e a ambição desmedida, equiparando-as às piores maldades e causas dos maiores infortúnios da humanidade.

A autodeclarada ausência de vaidade, representada pelos cabelos curtinhos e naturais, sem qualquer coloração química, é contestada por um único excesso: anéis. Um monte deles. O estilo rendeu-lhe o apelido carinhoso de “Maria Bonita”, dado por uma das netas. A designação a faz sorrir, enquanto gesticula mãos adornadas de belos aros que ganha todos os anos do marido, seu companheiro nessas quase seis décadas.

Entre as situações que a deixam feliz e risonha, estão as mais singelas, como quando reúne os netos ou entrega uma biblioteca da SAL. Tristeza mesmo ela sente ao tomar conhecimento de alguém doente, sem condições financeiras para custear o tratamento. A serenidade que a distingue, todavia, é colocada à prova perante o caos doméstico, embora se esforce para ser tolerante com os auxiliares do lar. A única frustração pessoal é não ter tido a oportunidade de concluir o curso superior, devido à jornada dupla de trabalho para ajudar nas despesas familiares, ainda que se considere vencedora com a formação no curso normal, antigo magistério.

Na fila de autógrafos do seu primeiro livro de poesias estava a mestra que, naquele longínquo dia, quando a menina Rita de Cássia se viu refletida no interior da casinha branca de portas azuis, vaticinou que ela seria escritora. Comovida com o reencontro surpreendente, não pôde evitar a lembrança traumática da extração do seu dentinho de leite, com o sangue jorrando sobre o vestidinho cor de rosa, cheio de bolinhas.

Admite com certa tristeza a resistente aversão a procedimentos odontológicos. À naturalidade com que expõe um traço vulnerável, ela acrescenta outras características marcantes: alegre e pequena. A estatura atrai diminutivos carinhosos. Engana-se, porém, quem associa altura a vigor. Na essência, Ritinha é grandiosa como as suas mensagens poéticas, fértil como as sementes que germinam na natureza, doce como a manga madura, frondosa como o cajueiro florido, misteriosa como o conteúdo de gavetas secretas, e eternamente saudosa da sua sofrida Canindé:

“(…) Procuro no final da tarde
​​​antes da lua clarear
o céu azulado da minha terra.
Nada encontro
Além da terra seca,
quase sem vida. (…)” (“No baú…”, em “Palavras”, 2016)

A menina alfabetizada em casa, aos cinco anos de idade, pelas tias professoras, era o orgulho do pai, que não perdia a oportunidade de exibir aos amigos os dotes da pequena leitora que, mesmo a contragosto, lia em voz alta o jornal O Santuário de São Francisco das Chagas, para deleite geral. A mulher que desde criança tem um anjo para chamar de “seu” dedica imensurável amor à família, valoriza as origens e confia na proteção divina. Com um olho no trançado do crochê e outro na tevê, alternando com a leitura de um bom livro, ela segue gestando emoções. Tendo a inspiração permanentemente à espreita, a qualquer momento pode surgir um novo livro de poemas. Cuidadosa no falar, entrega-se sem parcimônia a instantes reflexivos para se autodefinir doida e meia, em meio a um sorriso maroto. Sim, a vida para a poetisa que persegue os sonhos com a paciência dos obstinados pode ser encarada também de forma divertida. Aos comuns mortais, resta-nos aplaudir sua abençoada “loucura”.

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*Publicado originalmente na revista Policromias, da AJEB.


Thiago Amazonas de Melo

Não acreditem em nada do que eu digo aqui. Isso não é um diário. Eu minto.

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