Abraços silenciosos*

Dor física ou dor na alma, qual delas machuca mais?

Quando fraturei gravemente o tornozelo durante um treino aeróbico, cheguei a desmaiar de tanta dor. Nos quinze dias que se seguiram à cirurgia de urgência, só consegui tirar breves cochilos. Foram sete meses muito difíceis até a completa reabilitação.

Relembro esse fato por dois motivos: nesse próximo domingo completam dois anos do ocorrido; e por mais doloroso que tenha sido, não se compara à dor profunda pela perda, no ano seguinte, da minha única e querida irmã para a COVID-19.

A dor na alma, essa parece que nunca passa. Ainda mais quando potencializada pelo luto coletivo que ora vivemos, pela inépcia e escárnio do poder público central frente à pandemia, o inadmissível adiamento na compra de vacinas e o consequente atraso na imunização da população.

Embora incomparáveis, ambas são dores que, no primeiro instante, parecem insuperáveis, mas vou me esquivar aqui de falar somente em superação. Porque antes de superar qualquer dor, é necessário ser acolhido nessa dor.

Quando se está sob intenso sofrimento – físico ou espiritual –, tudo o que não se quer ouvir é que “vai passar”, expressão até simpática mas que pode denotar indiferença à dor alheia. É como se lhe dissessem: “Pare de se lastimar, você não é o único ser que sofre”. Desfiar experiências similares superadas – na maioria das vezes, muito mais graves – também não vai ajudar a quem sofre. No fundo, todos sabemos que tudo passa, que nada é para sempre, nem as coisas ruins nem as boas. Mas apressar o processo para quê? Não existe vida sem sofrimento e cada pessoa tem seu próprio tempo e modo de reagir a ele.

Dizem que o sofrimento contribui para o crescimento humano [e deve ser mesmo], como inúmeros outros sentimentos também contribuem, mas eu prefiro enxergá-lo apenas como natural à existência. É preciso, portanto, parar de negá-lo. Só assim seremos capazes de enfrentá-lo e superá-lo no momento certo.

Enfim, se você não é especialista em comportamento – como também não o sou –, ao se deparar com as dores de alguém, apenas o acolha em silêncio, com um abraço, sem comentários ou julgamentos.

*Texto publicado originalmente no blog Lugar ArteVistas, onde escrevo mensalmente às primeiras sextas-feiras.


Jamais esqueceremos

A médica Thereza Prata, 65 anos, tinha dois filhos, um netinho de 7, uma porção generosa de amigos e muitos pacientes que dependiam dela para a cura ou alívio.

A minha única irmã, tia querida dos meus filhos e primeira filha de mãe hoje centenária, partiu há um ano, em plena atividade pessoal e profissional. Deixou-nos a todos órfãos.

Thê – como eu a chamava – internou-se em São Paulo no dia 2 de março de 2020 para receber uma medula sã, procedimento eleito por seus pares para curar a mielodisplasia detectada em exame de rotina no ano anterior. Embora assintomática, a síndrome poderia evoluir para uma leucemia. Até a véspera de viajar, ela cuidou dos pacientes, exercitou-se e divertiu-se, sem fazer uso de qualquer medicação.

Após duas semanas de intensa troca de afeto no confinamento do hospital para o transplante, retornei a Fortaleza. Deixei-a feliz, à espera da tão planejada alta hospitalar, acompanhada da adorada filha, médica como a mãe. Não imaginávamos que o nosso “até breve!” sem abraços – em respeito ao protocolo pós-transplante – era um adeus.

O curto trajeto do hospital ao aeroporto de Guarulhos demorou muito devido à manifestação que ocupava a avenida Paulista e entorno. Eventos similares ocorreram naquele domingo [15/março/2020] em outras capitais, mesmo com o alerta de pandemia da Covid-19 feito pela OMS quatro dias antes. Multidões sem máscara e sem respeito à vida, incentivadas por autoridades que deveriam conter o vírus e proteger a população, assumiram ali, de forma consciente, a cruel tarefa de disseminar a peste.

Dias depois, quando comemorávamos a cura da minha irmã, ela e outros transplantados [crianças entre eles] foram infectados pelo novo coronavírus ainda no hospital. Thê lutou dois longos e angustiantes meses, mas infelizmente a perdemos em 17 de maio de 2020. Suas cinzas foram repatriadas no colo do seu filho querido.

Ao caminharmos para meio milhão de mortos por Covid-19 [só no Brasil], novas cepas e sem vacinas, causa-me repulsa a desumanidade dos que continuam a minimizar a pandemia e desdenhar das medidas de proteção. Quantas vidas poderiam ter sido poupadas? Quantas ainda perderemos? Quem reparará os danos? Jamais esqueceremos.


Minhas avós

Sou herdeira de avós que marcharam sobre solos trincados e silenciaram os próprios gritos ante lufadas que lhes ardiam as ventas e varriam a pouca esperança.

Enquanto minhas avós pariam em casa o primeiro dos sete, oito filhos, milhares de contemporâneas do outro lado do planeta se agrupavam em protestos reprimidos com truculência contra as péssimas condições de trabalho nas fábricas, com jornada diária superior a dezesseis horas, inclusive aos domingos.

Ambas de prenome Maria, minhas “privilegiadas” avós – pois brancas e possuidoras de algum torrão nesse mundo chamado Ceará – nasceram e viveram em vilarejos afastados das pequenas urbanidades. O cuidar rotineiro dos muitos filhos, do marido e da habitação rural não era menos extenuante que o daquelas operárias estadunidenses, alemãs ou russas. “Eu, rica? Ninguém come terra!”, dizia a realista avó Maria do lado materno.

Minhas avós não foram à escola, mas assentaram filhos e filhas nas carteiras duplas de madeira do grupo escolar da comunidade, tendo sido minha mãe a que voou mais alto: formou-se professora na capital para orgulho da família. Honrou o diploma pioneiro alfabetizando centenas de crianças e jovens durante 25 anos em escolas públicas de Fortaleza. Elegeu o lado profissional, retardando matrimônio e maternidade; casou-se tardiamente – aos 36 anos – para os padrões da década de 1950; foi mãe aos 38, repetiu a façanha aos quarenta, e fechou para sempre a fábrica de nenéns.

As mudanças entre as gerações das minhas avós e da minha mãe podem ser atestadas desde o parto: minha irmã e eu viemos ao mundo em hospitais-maternidade de Fortaleza e um pediatra acompanhou o nosso desenvolvimento físico. Nossa formação intelectual e autossuficiência – seja esta financeira ou pessoal –, eram prioridade para a nossa mãe, como se quisesse vingar toda a ancestralidade. Minha irmã graduou-se médica e eu pedagoga e jornalista.

No rastro do inconformismo latente, migrei temporariamente para Paris e Nova Iorque nos anos 1990, abraçada aos filhos ainda crianças, onde me espantei com manifestações de todo tipo. Uma delas, em um 8 de março, evocava a morte de mais de cem operárias nova-iorquinas após serem trancadas na fábrica e queimadas pelos patrões – com a cumplicidade das leis –, por reivindicarem melhores condições de trabalho, como redução da extensa jornada. Registrei as memórias de Nova Iorque no livro “Descascando a grande maçã”, minha estreia como escritora.

Cerca de duas décadas mais tarde, minha insistente peregrinação levou-me a outro março histórico. Eu me encontrava em Paris para o Salão do Livro, onde faria uma sessão de autógrafos do romance “O segredo da boneca russa”, quando fui surpreendida por um protesto que rebatizava simbolicamente as ruas do centro da cidade com nomes de bravas mulheres que foram caladas por suas resistências e ativismos. Cartazes cobriam as placas originais que homenageiam predominantemente os homens; em um deles lia-se o nome da vereadora brasileira Marielle Franco, assassinada aos 38 anos no Rio de Janeiro. Ao que consta, nenhuma autoridade francesa destruiu os cartazes, que permaneceram nas ruas até que as águas os transformassem.

Mais de cem anos depois das primeiras manifestações feministas, novos conceitos sociais, culturais e biológicos vieram enriquecer a causa, mas os desafios persistem. Hoje não se discute apenas os direitos da mulher, mas de todas as minorias invisibilizadas. Precisamos entender que o feminismo é uma bandeira coletiva que deve ser empunhada com urgência por todas as mãos. Nos crimes contra a mulher, o Brasil contabiliza diariamente três mortes por feminicídio, 180 estupros, e lesão corporal por violência doméstica a cada dois segundos, conforme dados oficiais recentes.

Guardo profundo respeito aos meus vínculos femininos. Minhas avós se manifestaram em sua época como puderam: cuidaram do seu chão e alimentaram seus filhos com comida e livros. Seus restos mortais repousam no mesmo solo em que marcharam amordaçadas e invisíveis. Minha mãe centenária continua firme, apesar da perda trágica da sua amada filha que brilhou na medicina até ladrilhar a eternidade. Quanto a mim, bem, resisto aqui na peleja das minhas escrituras. No último ano, o luto e a reclusão renderam “Confinados”, minha primeira incursão em narrativas ficcionais curtas.

Mil “Vivas!” às avós Maria, às mães Clélia e às irmãs Thereza, grandes exemplos feministas para todo o sempre, em todos os marços e nos outros meses também. Que a descendência siga louvando a todas elas.


As lutas de março*

Desde a minha última postagem neste espaço sobre o dia dedicado internacionalmente à mulher, poucas mudanças ocorreram de fato.

Louvo todas as conquistas femininas do último século, principalmente, mas ainda há enormes desafios a enfrentar. A começar pela nossa pouca adesão ao movimento. Uma pesquisa de 2019, feita pelo Data Folha, mostra que apenas 38% das mulheres brasileiras se consideram “feministas”. O percentual sobe para 47% entre as mais jovens (com menos de 35 anos), e para 44% entre as que concluíram o ensino superior. Enquanto isso, fontes oficiais denunciam dados aterradores: mata-se no Brasil três mulheres por dia, pelo simples fato de serem mulheres.

Proponho nos debruçarmos sobre os motivos que levaram à escolha do oito de março como marco da luta feminina por um mundo mais justo e igualitário. Para começar, a data foi inspirada na mulher operária. As referências mais citadas evocam dois episódios transcorridos em Nova Iorque durante greves de trabalhadoras têxteis que teriam acontecido no mês de março de séculos distintos, reprimidas violentamente pelos patrões e polícia. No segundo episódio, morreram mais de cem mulheres queimadas dentro da fábrica em que trabalhavam.

Não se trata, portanto, de data comercial, como Dia das Mães, Dia das Crianças, Dia dos Pais e outras tantas criadas para aquecer as vendas e fazer girar a economia. Já critiquei várias vezes a forma equivocada com que publicitários e estabelecimentos comerciais propagam um dia que deveria ser de reflexão e debate.

Oito de março pode até vir acompanhado de rosas vermelhas, desde que não desqualifique a luta feminina. Temos todos os outros dias do ano para as celebrações festeiras – que são maravilhosas.

Vamos guardar esse dia para lembrar ao mundo da importância de se combater diariamente as injustiças e desigualdades entre os sexos, e para fortalecer a luta feminina – que deve ser de todos – pelo direito à vida, equivalência salarial e direitos reprodutivos, entre outros.

“Sejamos todos feministas”, apela a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie. Quando uma mulher luta pelo seu próprio espaço, ela pode melhorar o mundo. Isso é ser “feminista”. Vamos subir os índices da próxima pesquisa?

.

*Texto autoral publicado originalmente no blog Lugar Artevistas, onde escrevo às primeiras sextas-feiras do mês.


Era uma vez uma casa triste*


“Uma casa arrumada é uma casa morta; onde há vida há perturbação da ordem”. A voz grave e melodiosa do filósofo Mário Sérgio Cortella entrou pelos fones de ouvido enquanto eu transpirava no meu limitado circuito aeróbico: sala-cozinha-varanda, com algumas barreiras no meio do caminho.

Se existe uma casa viva nesses tempos de pandemia, é a minha, constatei ao circular pela quadragésima vez a mesa de jantar transformada em ilha de trabalho, com computador, cadernos, blocos, livros, canetas e um suporte para celular; ou ao me esgueirar por entre sofás, poltronas, pufes e esbarrar numa banqueta deixada fora do lugar; ao roçar mais uma vez a perna direita na porta rebelde do armário sob a pia da cozinha; ao saltar as anilhas de halteres no canto de um degrau; ou ao pisotear as folhas amareladas na varanda.

O resto do dia refleti sobre o direito de uma casa ser alegre. Direito a almofadas e cadeiras fora do lugar; a piano centenário explorado por dedinhos desafinadores; a bicho gigante de pelúcia ocupando metade da sala; à garrafinha d’água vazia junto à xícara de café sorvido sobre a mesinha de centro; a colchonete de treino funcional esquecido na varanda; e a até uma leve camada de poeira sobre os móveis.

Admito que mantive a minha casa impecavelmente linda – aquela que se costuma chamar “casa de revista” – mesmo à época de dois filhos desbravadores que já me deram netos. A chegada dessa novíssima geração levou-me a concessões antes inimagináveis. E agora, após onze meses de confinamento em casa e afastamento social, com tantas perdas de vidas humanas para a Covid-19, a arrumação e ambientação esmeradas foram banidas de vez da minha lista de vaidades.

Percebi que existe harmonia na desordem. Quando tudo é muito certinho e previsível, a vida se torna estática e triste, igual a uma casa arrumada. O meu lugar hoje é muito vivo, para a minha alegria, do meu marido e dos nossos pequeninos. 

O filósofo tem toda razão.

***

*Texto autoral publicado originalmente no blog Lugar Artevistas, onde escrevo às primeiras sextas-feiras do mês.


Sonhar é resistência*

Arte da autoria das crianças Theo e Lis


Neste 2021 quero sonhar todos os sonhos impossíveis, como os autênticos sonhos devem ser.

Planar entre os pássaros como se um deles fosse. 

Correr mais veloz que o jamaicano Bolt.

Trocar de roupa em três, dois, um…

Atravessar a nado, em seis horas, o Canal da Mancha.

Bailar como Odette no Lago de Tchaikovski.

Perguntar ao meu pai o motivo da sua risada, enquanto ele se enxágua lá no chuveiro. 

Ouvir da minha irmã os perrengues hilários nas suas viagens com colegas e amigos. 

Levar a Buba e a Babu para caminhar no calçadão da Beira-mar de Fortaleza.

Dar corda na bicicletinha que ganhei da minha madrinha no aniversário de cinco anos.

Desembaraçar o cabelo sintético da minha boneca “Xodó”. 

Dividir com Lygia o prêmio sueco de literatura. 

Ser derrubada por um filhote brincalhão de Rott e não sofrer um arranhão. 

Chegar ao topo da cordilheira himalaia.

Conversar com a criança que fui um dia. 

Acordar e perceber, entre aliviada e aflita, que tudo não passou de um sonho.

Feliz 2021, metade real, metade fantasia!

****

* Publicado originalmente em 01/01/2021 no Blog Lugar ArteVistas, onde escrevo mensalmente às primeiras sextas-feiras.


Sobre Bel, recomeços e filhos de papel*

Eu poderia falar do meu livro de contos, Confinados, que será lançado dentro de dez dias, mas acordei novamente cismada com Belchior e no que ele teria sentido para criar “Tudo outra vez”.

O lamento poético que mistura amargura e esperança e que embalou grande parte da minha juventude, noite dessas sacudiu meus sonhos maduros e me fez passar os últimos dias cantarolando os mesmos versos.

“…Minha rede branca, meu cachorro ligeiro

Sertão, olha o Concorde que vem vindo do estrangeiro

O fim do termo saudade como o charme brasileiro de alguém sozinho a cismar…”

O genial compositor cearense teria mesmo se inspirado na repatriação de amigos exilados por força da ditadura militar? Tudo leva a acreditar que sim, pelo ano de criação da música – 1979 –, o tal da anistia.

Vejo-me, inevitavelmente, voltando ao meu refúgio sertanejo, lugar de acolhimento de amigos e familiares, de onde estou afastada desde o início da pandemia, sem previsão de um retorno breve.

A vida é mesmo feita de acasos e incertezas que exigem recomeços e ressignificações. Não ouso reviver emoções, alegrias, acontecimentos ou momentos. Primeiro, porque nada se repete e, depois, porque também mudamos a cada dia. No momento, adio planos e cuido para que a esperança sobreviva ao caos. Poderei viver novas experiências em um sertão que tem tudo para se transformar para melhor. E sigo sonhando com o dia em que cruzarei novamente aquela porteira e saudarei todos de lá: “Gente de minha rua, como eu andei distante…”.

Quanto aos “filhos de papel”, estou muito feliz com o nascimento do meu quarto livro. Dedico-o à minha única e inesquecível irmã. Creio que ela – tão fã do Bel quanto eu – ficaria orgulhosa da mana caçula que conseguiu emergir, malgrado a força densa que nos afundou a todos.

*Publicado originalmente em 04/12/2020 no Blog Lugar ArteVistas, onde escrevo mensalmente às primeiras sextas-feiras.


Maior que o nosso quintal

Bolha, zona de conforto, caixa, não importa a metáfora para a sensação de segurança quando se pertence a um grupo em que todos pensam da mesma forma.

É óbvio que cercar-se de pessoas que comungam com as nossas ideias pode nos trazer um sentimento de acolhimento e bem-estar, mas não podemos esquecer que a resistência, o contraditório, a teimosia e a inquietação são os vetores da mudança e evolução no mundo.

Pegando o gancho nas eleições municipais que se aproximam, cito algo que hoje parece muito natural: o voto feminino. Mas sabiam que, há noventa anos, nós, mulheres brasileiras, não podíamos escolher nossos representantes políticos? Bizarro, não é mesmo? Quando o direito feminino ao voto foi aprovado, em 1932, as casadas só podiam votar com o consentimento dos maridos; viúvas e solteiras apenas se tivessem renda própria.

A quem devemos tal conquista? Às nossas bravas antecessoras que ousaram discordar do pensamento hegemônico à época, que dispensaram as asas protetoras de seus pares e lares patriarcais, “desobedeceram” pais, irmãos e maridos, sofreram discriminações e preconceitos, enfim, saíram da caixa. Imaginem a realidade atual do nosso país se aquelas mulheres tivessem se acomodado em seus casulos, dizendo amém para tudo e todos. Seríamos um país ainda mais injusto, pois é impossível reconhecer igualdade de seres humanos enquanto mulheres e outras minorias não participarem ativamente de decisões coletivas.

Voltando à comodidade de integrar um grupo sem pensamentos divergentes – motivo dessas linhas –, acredito que só evoluímos como pessoas quando somos contestados em nossas certezas e verdades, no contato com o diferente, na prática do argumento, do debate e diálogo respeitosos. Não precisamos “eliminar” quem pensa diferente de nós, salvo quando se tratar de algo cruel e desumanizador, a exemplo do nazifascismo que varreu a Europa na primeira metade do século 20, e de outros males contemporâneos, como o racismo, a homofobia, a misoginia e afins. Mesmo reacionários convictos reconhecem a importância das diferenças para uma sociedade livre. Já dizia famoso dramaturgo brasileiro, de perfil conservador: “Toda unanimidade é burra”.

É possível discordar sem ataques e ódio? Não só é possível, como necessário. Enaltecemos tanto a democracia, mas nos negamos a conviver e respeitar os contrários. Muitas vezes queremos “exterminar” – ou “cancelar”, para usar a linguagem das redes – quem age e pensa de maneira diversa da nossa. O que precisamos combater vigorosamente é a polarização que tanto mal faz à humanidade. O caminho mais trilhável para isso é fortalecendo as liberdades de pensamento e expressão.

Parece utópico? E quem vive sem sonhos e esperança? Vamos sair das nossas caixas? Há vida inteligente pulsando fora delas, um mundo muito maior que o nosso quintal.

***

Publicado originalmente em ArteVistas


Perdeu a graça*

A pandemia da Covid-19 deixou de ser novidade para milhões de pessoas, não desperta mais a atenção, “perdeu a graça”, como dizemos no Ceará.

Admito certa dificuldade de adequação à fluidez da era em que vivemos – tomando emprestado o conceito de importante teórico morto há poucos anos –, onde tudo escorre velozmente por entre os dedos. Suponho que seja porque minha geração foi criada em um tempo de certezas e princípios duradouros.

Sentimentos e valores associados à dignidade humana – amizade, amor, respeito, responsabilidade, compaixão, solidariedade – transformaram-se em produtos que duram o ciclo de vida de um mosquito, sendo logo substituídos por outros objetos de desejo, numa caçada interminável que só gera angústia e frustração.

Passados os primeiros momentos do isolamento social como medida preventiva para conter a disseminação do novo coronavírus – situação inédita que muitos imaginavam breve, só o tempo de passar o tal resfriadinho –, a histeria chutou portas confinadas. Sumiram das redes sociais as exibições diuturnas de dancinhas, teatrinhos, treininhos, ensaios mascarados e preparo de receitinhas. Enfim, cansaram-se rapidamente do novo normal e retornaram ao velho normal de sempre.

Alguém pode argumentar que isso é bastante compreensível, uma vez que nós, humanos, vivemos em comunidade e necessitamos uns dos outros. O equívoco está na interpretação literal dessa máxima em meio à tragédia que ora enfrentamos. Socializar ou interdepender não significa cercar-se fisicamente de gente – sem máscara – as vinte e quatro horas do dia, mas sim que cada ação realizada por uma pessoa no Brasil afeta um semelhante no Japão.

O mesmo acontece se um jovem britânico sair desprotegido da ilha fria em busca de calor no continente – as praias portuguesas do Algarve, por exemplo –, ele poderá espalhar o vírus e prejudicar multidões de todas as idades em todo o planeta.

Enquanto não houver uma vacina eficaz, ficar em casa ou usar itens de proteção individual e manter o distanciamento recomendável é a maior demonstração de cuidado com o outro e de valorização da própria vida.

É irritante insistir no mesmo assunto após meses de conscientização e sensibilização por parte de especialistas e órgãos de saúde. Ultrapassamos nesta semana a triste marca de um milhão de mortes por Covid-19 no mundo, em apenas oito meses, muitas evitáveis se tivéssemos seguido as orientações sanitárias amplamente divulgadas pela imprensa. Um milhão é a população inteira de capitais como a brasileira Maceió ou a europeia Bruxelas.

Quero e preciso acreditar que, nesse período de afastamento físico, alguma reflexão fizemos e alguma evolução alcançamos. Paremos de buscar graça em coisa séria. Há situações excepcionais que exigem atitudes maduras. A pandemia do novo coronavírus é uma delas. Não deixemos que a preciosa vida se dilua na insensibilidade e irresponsabilidade de alguns.

E aqueles que, felizmente, não perderam entes queridos para a terrível Covid-19, joguem as mãos para o céu, agradeçam, cuidem de si, dos que estão vivos e respeitem o luto de milhares. É o mínimo a fazer.

***

*Publicado originalmente em 02/10/2020 no Blog Lugar ArteVistas, onde escrevo mensalmente às primeiras sextas-feiras.


A nossa melhor parte*

O que vale mais?

Um armário abarrotado de roupas, sapatos e bolsas ou uma mensagem de conforto que chega no celular pela perda de alguém muito querido?

Dois carros na garagem ou um afetuoso abraço virtual?

Comprovantes de bilhetes aéreos da viagem adiada – sabe-se lá para quando – ou o pôr do sol que doura a sua sacada toda tarde? 

O amplo apartamento subutilizado e empoeirado ou a varandinha onde você se alimenta diariamente de vitamina D?

A pandemia do coronavírus nos apresentou um novo mundo construído às pressas. Ou nos transformamos ou não sobreviveremos.

Quem acreditou que a vida era apenas diversão, viagens, brincadeiras e que o dinheiro comprava tudo, até saúde, deparou-se com hospitais lotados onde a riqueza do globo inteiro ou a cobertura ilimitada do caríssimo plano não eram garantias de internação nem de cura. 

Sabe aquela verdade que lava, sem trégua, o nosso cérebro desde que nascemos: “A vida só tem significado se você tiver muita grana e um sólido patrimônio”? Ou “Não desperdice tempo com coisas que não geram lucros financeiros”? Tudo precisa ser monetizado e, de preferência, em moeda forte. Aos fracassados, as inutilidades.

Admirar o crepúsculo sobre uma duna ou montanha? Para desocupados. 

Caminhar sem pressa à beira-mar, sentindo a brisa no rosto e a areia quente sob os pés descalços? Para frustrados.

Ler um livro de poesias? Para desiludidos.

Cantar com amigos ao luar, em volta de uma fogueira?Para tolos.

Embalar-se  despreocupadamente em uma rede na varanda? Para preguiçosos.

Participar como voluntário em um projeto social? Para sonhadores.

Cantarolar versos antigos com a mãe idosa? Para ociosos.

Pois é, sinto dizer que essa tal verdade mercantilizada desmoronou, evaporou em géis e álcoois. 

Não sei se a crise sanitária vai mudar a humanidade, mas se pelo menos uma parte dela puder refletir sobre a vida repleta de “utilidades”que levava até então; se parar de negar sofrimentos e tristezas, naturais da existência; se demonstrar às novas gerações que sensibilidade, solidariedade e compaixão são valores essenciais, aí então as milhares de mortes de entes tão amados não terão sido em vão.

Muitos afirmam que o ser humano não tem jeito. Eu prefiro cultivar a esperança, outra inutilidade da era contemporânea. A vida é feita mesmo de pequenas inutilidades. São elas a nossa melhor parte.

***

*Publicado originalmente em 04/09/2020 no Blog Lugar ArteVistas, onde escrevo mensalmente às primeiras sextas-feiras.


pensamentos e atitudes positivas com animação

vida equilibrada é a chave do sucesso

Luk Ank

lukank.com@gmail.com - instagram: @luk_ank

Diferentes Tons

Artes, Literatura, Moda

Portal

Conversas entre nós

Lugar ArteVistas

#arteondeestiver

Thiago Amazonas de Melo

Não acreditem em nada do que eu digo aqui. Isso não é um diário. Eu minto.

prata-na-crônica

Crônicas, Jornalismo e outras Narrativas

Livros e Leitura

Universo mágico da leitura

Riksaint Space

Um espaço dedicado às energias renováveis.

Estalos da Vida

As vezes a felicidade começa em um estalo!

Sobre os dias

sensações, vinhos e faltas.

Vila das Noivas

por Ingrid Martins e Aline Farias